domingo, 15 de abril de 2012

Portugal, a China e Macau

Se julgamos ser a História de Portugal antiga, de oito séculos, então que dizer da multimilenar História da China? Para os europeus, e em especial para os portugueses, a China só aparece referida pela primeira vez nos nossos compêndios de história eurocêntrica, no século XVI, quando os portugueses chegam à Ásia. No entanto, muito antes disso, a China era conhecida na Europa. Até aos descobrimentos, e mesmo depois deles, os persas que conheciam chineses e europeus, fizeram do Irão a ligação do comércio entre orientais e ocidentais. À Europa chegavam muitos produtos do oriente, entre os quais, sedas e porcelanas da China. A Rota da seda, vinda da China, existia pelo menos desde o tempo dos gregos e romanos. O nome que os gregos davam à China, era Serica, ou País da Seda.

Confúcio
É desse tempo a filosofia de Confúcio (551 – 479 a.C.?). Antes do mais é uma ética de comportamento pelo exemplo, “procede com os outros como queres que procedam contigo”, de respeito pela virtude, pela propriedade, pela família, pelos mais velhos e pelos antepassados. Não é uma religião, visto que Confúcio entendia que se os Deuses não existissem, era ridículo procurá-los, e se existissem, não necessitariam dos homens para nada.
Escolhi algumas máximas de Confúcio:

- Escolhe uma profissão que ames fazer e nunca terás de trabalhar um único dia da tua vida.
- Num país bem governado, ser pobre é uma vergonha. Num país mal governado, ser rico é uma vergonha.
- A nossa maior glória não é não cair nunca, mas levantarmo-nos sempre que caímos.
- O verdadeiro conhecimento é sabermos o tamanho da nossa ignorância.
- Aquele que não economizar terá de agonizar.
- O que um grande homem procura está nele próprio; o que um pequeno homem procura, está nos outros.

No livro “De Portugal a Macau através da História”, de 1929, o Dr. J. António Filipe de Morais Palha, sobre a China e os chineses escreve:

Povo dotado de excelentes qualidades pessoais, sob todos os aspetos e sentidos em que essas qualidades podem ser avaliadas, possuía o povo chinês desde longuíssimas eras uma civilização completa e perfeita, a que nenhum outro povo atingira entre as raças mundiais de qualquer outra região. Era, de mais a mais, numeroso, a contar aos cardumes, de exuberante fecundidade, qual formigueiro compacto, atropelando-se na sua grande aglomeração, numa vastidão colossal da sua terra. Era contemplado com recursos extraordinários de riquezas que a mesma terra encerrava em si. Nada lhe faltava, pois, e a contar com aquelas qualidades suas, próprias, que em si concentrava, antes lhe sobejava de tudo.
Em agricultura, não existia cultura que essa terra, de variado céu e clima, de vasta longitude e latitude, não permitisse. Desde tempos remotos, antes mesmo que a nossa pré-história se estivesse esboçado, os seus engenheiros haviam enriquecido essa terra com assombrosa irrigação, por meio de canais, lagoas, diques, que revelam um engenho admirável de técnicos de excecional mérito. O povo a labutar nessas terras e em tais condições, de que elas eram providas, com o ardor que essa gente sabe despender na labuta, tirava delas o muito que elas podiam dar.
Em indústrias, tinham estas atingido no país, um surpreendente grau de desenvolvimento e perfeição. A terra fornecia para elas toda a qualidade de matéria-prima, outra lhes vinha dos países confins em que ela abundava, nessas terras virgens, de fertilidade e riquezas inesgotáveis, com que a China desde afastadas eras mantinha as comunicações. Os próprios chineses deslocavam-se das suas terras, para irem valorizá-las nesses países de civilização atrasada em relação ao seu. Assim se proviam de marfim, sândalo, madeiras ricas e de tudo o mais que essas indústrias careciam e de quanto o seu fértil engenho era suscetível de produzir e criar para manutenção e desenvolvimento dos excelentes e profusos trabalhos de manufatura, que daí saíam.
As suas oficinas, abarrotadas de operários hábeis, ativos, arrojados e incansáveis, laboravam de dia e de noite, numa azáfama única, como em nenhuma outra parte do mundo se observa. E laboravam em toda a qualidade de artefactos, desde os mais artísticos, de belezas surpreendentes, finas de gosto e de perfeição, que o génio chinês inventou e produziu, até os mais vulgares e banais destinados aos mais comezinhos misteres de vida, que os possui em extrema profusão e variedade. Não há género que o fecundo engenho do chinês não tenha produzido para aplicação e emprego de todas as manifestações de atividade e necessidade humana e de quanto o rodeia. A própria pólvora, cuja invenção de tanta ufania encheu o povo europeu, foi aquele povo que a inventou e empregou antes de mais ninguém. Para ela dispunha no seu país de toda a sorte de componentes com fartura, que os pudesse juntar nas proporções, que cada qual entendesse mais razoável, e para os usos a que cada qual quisesse destiná-la.
Os seus mercados eram abastecidos em toda a abundância e diversidades de géneros, originais do país e exóticos. Nada faltava ali para o paladar, gostos e exigências de quem quer que fosse. Funcionavam de dia e de noite, como não funcionam nenhuns outros, onde quer que seja, por toda a redondeza em fora. Eram de um acesso facílimo para todas as bolsas, neste país de moeda reduzida às mínimas frações. Não havia outra moeda mais valiosa sequer para as transações correntes; para as de maior vulto corria o oiro e a prata em barras a peso.
Tal era este país em abundância e riqueza, das maravilhas como Marco Polo o chamou no seu afamado livro.

Mas Morais Palha, entende que essas características não se ficaram pelos finais do século XIII, quando Polo viajou, e se estenderam até ao século XX:

O auspicioso dragão chinês
Povo de qualidades excecionais, inteligente, ativo, empreendedor, laborioso em extremo, sóbrio, humilde, adaptável a todos os empreendimentos mundanos, como a toda a gama de misérias humanas, que é o povo chinês, fundou essa civilização, que assombra a humanidade inteira, ainda nos mais recuados meandros da eternidade que se sumiu nas trevas distantes.

A História da China é a história não apenas de um país desenvolvido, mas da primeira e principal potência económica e militar da Ásia. O pequeno interregno de economia miserabilista do século XX, não passou apenas disso mesmo, um curto intervalo. A China é hoje novamente à vista de todos, aquilo que sempre foi no passado. Não acredito que a economia, a sociologia ou outra qualquer ciência social tenha já conseguido explicar este “bypass” geracional desenvolvimentista.

A primeira delegação “oficial” portuguesa à China foi em 1517, chefiada por Fernão Peres de Andrade. A desconfiança chinesa quanto estes novos estrangeiros que pela frente lhe apareciam, a fama beligerante que os precedia e a costumeira soberba portuguesa, eram uma combinação fatal. A tentativa portuguesa foi um fracasso. Só em 1553, após os portugueses terem ajudado a derrotar um poderoso pirata que ameaçava todo o Sul da China, Tchang Si Lau, os chineses concedem a possibilidade aos portugueses de se estabelecerem em Macau.

Os chineses tinham sido sempre grandes navegadores, com barcos enormes e modernos capazes de viagens oceânicas. Além disso, tinham inventado o compasso magnético como instrumento de orientação no mar e em terra, séculos antes dos descobrimentos europeus. Mas certamente que a maior capacidade de fogo das caravelas portuguesas, foi o fator determinante, para a derrota de Tchang Si Lau.

Deusa Ama, Macau.
O nome “Macau” deriva de “Amagao”, ou baía de Ama, uma deusa local dos pescadores e marinheiros. Diz Morais Palha:

Segundo a tradição, uma amui (rapariga) logrou em tempos idos, à força de instâncias e súplicas, obter uma passagem num barco à vela, carregado além da sua lotação; qual ente verdadeiramente sobrenatural, a certa altura da viagem, aplacou uma tempestade que assaltou a embarcação e a ameaçava de um naufrágio irresistível, conduzindo-a a salvamento ao porto dessa localidade. Sendo então procurada pela gente da embarcação para lhe renderem graças por esse feito, viram-na pairar na pequena colina da Barra e desaparecer como fumo que se evola. Ali ergueram-lhe um templo e daí em diante a gente embarcadiça passou a prestar-lhe culto. Ainda hoje se liga essa lenda ao atual pagode de Macau, na Barra, e ainda hoje o povo rende nesse pagode o culto a essa divindade.

Até final do século XX, Macau, com o lema de “Cidade de Santo Nome de Deus, não há outra mais leal”, manteve-se sob administração portuguesa, com a anuência das autoridades chinesas. É hoje uma cidade próspera e desenvolvida, de que Portugal, a China e especialmente os macaenses, muito se orgulham com razão.

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