domingo, 27 de maio de 2012

Campo Maior II: o contrabandista.


Num seu outro livro, Revivendo o Passado, de 1929, Lourenço Caiola explica a comunhão existente entre a população de Campo Maior e a figura do contrabandista, na fronteira de Portugal com a Espanha. Este relato foi primeiro publicado no Campomaiorense, durante a I República, e só posteriormente incluído no livro. É um quadro de algum romantismo e até de heroísmo, relatando o que se passava no século XIX e se prolongou durante grande parte do século XX, na sua terra natal. Perante as circunstâncias mais adversas, como guerras e devastações, na falta de bens essenciais, o contrabando conseguiu suprir muitas faltas.
As notas a azul entre parêntesis retos [...], não pertencem ao texto original e são da minha responsabilidade.  

Há cinquenta anos ainda no nosso lindo país mal se conheciam as notas e ignoravam-se por completo os depósitos de bacilos e imundícies a que vulgarmente se dá o nome pomposo de cédulas. Os pagamentos realizavam-se em boas moedas de prata, de cunhos perfeitos e em belas libras esterlinas, umas de cavalinho, outras com a efígie da olímpica rainha Vitória, que mais tarde, num arranco de patriotismo, quisemos repelir chamando-lhe piratas e de que hoje mal nos recordamos, como dum sonho fagueiro e encantador. Essa situação protelou-se até 1891 em que de chofre caímos do aeroplano de opulências, onde vogávamos descuidados, no mar encapelado duma nova bancarrota [a nossa História tem destas coisas e ainda não sabemos aprender com ela].

 Nesses tempos a situação financeira da Espanha, dividida por crudelíssimas guerras civis [a Espanha sempre foi um país muito dividido, e por isso a guerra civil voltaria nos anos 30 do século XX] e dilacerada por tentativas revolucionárias, era bem pouco lisonjeira. A sua moeda estava bastante desvalorizada, embora a sua depreciação não se parecesse sequer com a que atualmente fere o anémico escudo português. Comprava-se um duro [moeda de prata espanhola] por 800 réis, 700 réis e até às vezes por 600 réis. Agora só o obtemos por mais de vinte vezes esse valor. Podíamos assim adquirir os géneros espanhóis e sobretudo os seus tecidos por preços diminutíssimos. Tornava-se irresistível a tentação de se realizarem compras nos mercados do país vizinho e de se aproveitar uma fronteira aberta de centenas de quilómetros, impossível de ser eficazmente fiscaIizada, para furtar os artigos e géneros adquiridos aos direitos de importação. O contrabando de lá para cá, como hoje sucede ao de cá para lá, tomou as proporções duma grande industria. Em poucas regiões, esse facto se manifestou com tanta intensidade, como era Campo Maior.

O génio ousado e aventureiro dos meus patrícios, a sua coragem indómita e a fria despreocupação do perigo, encontravam nessa vida um largo e atraente campo de ação. Cada um deles conhecia de cor os caminhos mais ocultos, as veredas mais cobertas, por onde se poderia fazer a passagem para Espanha [não acredito que fosse fácil pois os campos da fronteira de Campo Maior com Espanha, são de planície até Elvas – teriam de percorrer muitos quilómetros durante a noite para encontrar terreno protegido]. Mas, apesar disso, o exercício continuado do contrabando representava um constante desafio à morte e os que nela gastavam as suas forças e energias jogavam a vida a todos os momentos. Mais um motivo para se lançarem naquela carreira contrária à letra da lei, mas que, no próprio risco, tinha a sua defesa e o seu encanto. De quando em quando vinha a notícia de que um ou dois desses temerários haviam encontrado, nas balas das espingardas dos guardas de alfândega, o desfecho das suas ilusões e o termo das suas existências em flor. Havia um luto geral, mas os que ficavam não sentiam por isso entibiar-se-lhes o ânimo, ou desfalecer-lhes a coragem.

Ao contrário, o número dos contrabandistas crescia sucessivamente. Os rapazes mais válidos da vila, os mais fortes, os mais preparados para a luta, iam um a um engrossar essa falange sequiosa de lucros e que pagava generosamente a sua ambição sujeitando-se a um combate sem quartel. A indústria do contrabando foi-se pouco a pouco regularizando e tomando o caráter duma verdadeira instituição. Todos os dias passavam a fronteira muitos dos que tinham ido a Espanha comprar algodões, lãs e sedas e internavam-se polo nosso território com pesadas cargas, vendendo, por preços muito reduzidos, os artigos que haviam adquirido, nas povoações do Alentejo e da Estremadura e chegando quase às portas de Lisboa. Depois voltavam, quase sem descanso, a recomeçar a tarefa. O comércio nas cidades espanholas trabalhava de acordo com eles e tanto que, quando qualquer português das terras raianas fazia compras nos estabelecimentos de Badajoz, ouvia sempre a mesma frase no ato do pagamento: «Se não quiser levar consigo o que acaba de comprar e preferir recebê-lo na sua residência, paga mais dez por cento e todas as responsabilidades ficam por nossa conta». E essa proposta era feita indistintamente a qualquer freguês, sem que o comerciante procurasse saber sequer se aquele a quem a apresentava não a tomaria, pelos seus escrúpulos ou pela sua situação oficial, como um insulto.


Os contrabandistas consagravam-se tão devotadamente à sua arriscada profissão que entendiam que ela era merecedora da proteção divina. O seu patrono na corte celeste era o bondoso São João Batista, tendo ao seu lado o meigo e branco cordeirinho, símbolo de mansidão. Veneravam a santa imagem com entranhada fé e todos os anos lhe promoviam uma festa espetaculosa e rica para lhe renderem graças pelos favores recebidos. Era um dia de júbilo para toda a vila. Havia cerimónias de igreja na risonha ermida, situada na confluência das estradas das portas da Carreira e da Vila, bem próxima da quinta do Firmino, iluminações vistosas e arraial, onde as raparigas mais lindas, sapateavam nervosamente toda a tarde e parte da noite os passos do fandango, ou elanguesciam nos braços dos namorados, ao som dolente da polca. Logo ao romper da manhã estralejavam os foguetes e a filarmónica do Baínim ou do Soares quebrava o silêncio das ruas, com os acordes duma marcha guerreira.

 Mais tarde organizava-se o cortejo em direção à capela. Á frente seguia a música e atrás os contrabandistas de faces enérgicas, rostos tisnados por sóis inclementes, cercando respeitosamente a bandeira da sua corporação e marchando com ar altivo, cônscios da sua força e confiados no seu destino. Havia reboliço em todas as casas. As janelas enchiam-se repentinamente de vultos curiosos, que se debruçavam para presenciar o animado espetáculo. A alegria dessa hora compensava muitas das amarguras e inquietações sofridas. E pelas ruas continuava a colear a fita dessas centenas de rapazes em pleno vigor da mocidade, com as jaquetas de alamares de prata ou de retrós, o chapéu braguês, as camisas ornamentadas de botões de cabecinha de ouro lavrado, as cintas das cores mais garridas, as calças, modelando-lhe à justa as pernas musculosas e delgadas e afuniladas no fim e os sapatos brancos de bezerro.

 Nos passeios os pobres guardas de alfândega, como que envergonhados, procuravam cozer-se com as paredes para disfarçar a sua impotência. Eu era então uma criança. E apesar disso o espetáculo que rememoro impressionava-me profundamente, porque o meu cérebro, embora infantil, não podia compreender esse alarde impudente da ilegalidade e menos ainda que os contrabandistas, que personificavam a infração constante da lei, merecessem tantas simpatias, ao passo que os guardas de alfândega, que representavam o Estado e os seus direitos, só provocassem troças e desdéns. Mas isso não obstava a que eu mesmo, deixando-me contagiar pela alegria que bailava no ar, fosse também atrás dos contrabandistas vitoriando-os com entusiasmo, cercado pelos miúdos do meu tamanho, e desejando-lhes as mais ridentes felicidades.

Ao terminar este conjunto de dois textos sobre Campo Maior, gostaria de referir a importância de Rui Nabeiro e dos cafés Delta. O empresário e a marca são incontornáveis, quando se pretende hoje falar da moderna vila de Campo Maior. Ver neste blogue Cafés Delta

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