domingo, 20 de maio de 2012

Campo Maior I: terra raiana.


Porque o IVA e os impostos sobre os combustíveis são mais elevados em Portugal do que em Espanha, dizem que a fronteira económica espanhola penetrou já 50 km em Portugal. Se assim é, não se poderiam baixar esses impostos na zona fronteiriça? Afinal, as autoridades só teriam a ganhar e não se percebe a falta de iniciativa durante todos estes anos. Não são apenas as regiões insulares que podem beneficiar de um IVA reduzido.

São 39, os municípios da fronteira portuguesa.
Portugal é cada vez mais um país concentrado em redor das grandes cidades. Sabemos que muito dificilmente poderemos esperar nos anos mais próximos, que as indústrias e os serviços cresçam o suficiente para gerar o emprego que o país necessita. Depois do programa de ajustamento, o crescimento previsto do PIB será muito lento. Também na União Europeia se preveem pequenas taxas de crescimento económico a médio prazo.

Um modelo económico menos concentrado e melhor distribuído é, não apenas uma necessidade de muitas pequenas cidades e vilas de Portugal, mas uma oportunidade para o crescimento económico do país. As produções agrícolas de proximidade poderiam ser estimuladas, e o comércio poderia atrair vizinhos espanhóis, principalmente para os nossos supermercados e bombas de gasolina ao contrário do que hoje sucede.

Portugal inteiro tem uma enorme dívida histórica de gratidão para com as terras raianas, que ao longo dos séculos guardaram as fronteiras contra as tentativas de invasão. Leoneses, maometanos, franceses, castelhanos e espanhóis, todos os que pretendiam invadir o território português, encontravam nessas populações o primeiro sinal de uma luta que lhes seria movida sem tréguas, de um povo que não abdicava da sua independência.

No livro Cenas Delidas pelo Tempo de 1934, o campomaiorense coronel Lourenço Caiola (1863-1935), apresenta-nos no último capítulo, Uma terra sempre portuguesa, alguns dos episódios porque passou Campo Maior ao longo da história.

Uma terra sempre portuguesa

Porque será que o sentimento do patriotismo palpita, em geral, mais forte e veemente nas terras fronteiriças do que nas outras povoações da mesma nacionalidade? É essa uma lei comum a que não conhecemos exceções. Em França, por exemplo, é em Verdun, Lille e sobretudo nas povoações da Alsácia e Lorena, desde muito tempo joguetes das ambições de dois grandes povos rivais, que mais intensamente perdura e se transmite de pais para filhos o amor da Pátria querida, sob cujo domínio conquistaram os louros mais viridentes da sua história.
O fenómeno que registo nestas linhas tem porém uma explicação natural e lógica.
É o receio, a inquietação de perdermos o que nos é mais querido, que melhor enraíza e acrisola os sentimentos da nossa alma. Tudo aquilo que possuímos sem atritos ou dificuldades, tudo aquilo que nos não é contestado nem precisámos defender, passa quase a ser-nos indiferente. São o sofrimento, a luta e a dor que mais nos ligam e afeiçoam ao que estamos ameaçados de perder.

As terras que vivem próximo das fronteiras contam no seu passado muitas horas de perigo e lances de heroísmo, empregados na defesa e honra da bandeira nacional, que se transmitiram de geração em geração, fixando-se com límpida nitidez na memória dos contemporâneos. Elas viveram num alerta contínuo, alanceadas pelo temor do que poderia ser o seu dia de amanhã. Por isso são bem legítimos todos os extremos da sua devoção patriótica, todo o orgulho e altivez com que a afirmam a cada momento, não permitindo que alguém dela possa suspeitar.
Um dia, o meu bom amigo Ventura Abrantes, um trabalhador incansável, queixava-se-me de que lhe exigiam um requerimento de naturalização para o considerarem português e terminava o seu protesto com estas palavras:
 — A mim, que sou português duas vezes!
— Português duas vezes?
— Sim, replicou ele nervosamente. Sou português, porque todos os meus ascendentes o foram e sou português porque nasci em Olivença, que os espanhóis roubaram a Portugal, por um ato de deslealdade e felonia.
Ficaram-me na memória essas nobres e grandes palavras, porque elas definem, melhor do que eu o poderia fazer, o pensamento que desejava exprimir.

Campo Maior, a minha querida terra natal, não se eximiu, através da sua história tão recheada de páginas de epopeia, à regra que enunciei. Nas ruínas, que restam das suas muralhas, estão bem visíveis os efeitos destruidores do tempo e os destroços produzidos pelas balas de artilharia castelhana em vários e arriscados períodos da sua existência.
Quando eu era criança, no pequeno quintal da casa da minha família, quantas vezes brinquei com pelouros, balas de reduzidos calibres e grossas bombardas, já comidas de ferrugem, restos das que o inimigo lançara a esmo sobre toda a povoação, nas horas inquietantes e angustiadas dos cercos! Uma irmã de meu avô, já muito velhinha e muito querida de todos nós, contava-me, em palavras coadas pela saudade, os dias que passara em abrigos abertos nas escarpas das muralhas e onde haviam encontrado guarida as famílias mais gradas da vila, enquanto os soldados e os civis, em condições de combater, repeliam corajosamente as investidas dos espanhóis, sem que ninguém ali, nem mesmo os velhos ou as crianças, fizessem ouvir qualquer palavra de desânimo, ou de temor. E a sua voz, já sumida, e prestes a emudecer no silêncio perpétuo do túmulo, tinha ainda acentos de entusiasmo ao relembrar esses dias tão longínquos de sacrifícios e heroicidades.

As afirmações de amor a Portugal dadas pelos filhos de Campo Maior repetem-se desde a hora em que, no reinado de D. Dinis, a sua terra se jungiu aos destinos da nossa nacionalidade. Praça de guerra de reconhecida importância, até ao princípio do século XIX, pela sua alcaidaria-mor passaram vultos da mais prestigiosa situação e méritos brilhantes, como Gil Vasques de Barbuda, Martinho Afonso de Melo, Rui Gomes da Silva, alguns dos maiores nomes da nobilíssima família dos Teles da Silva e depois da dos Lobos, descendentes diretos do Barão de Alvito.
Por morte de D. António de Alcáçova, passou a alcaidaria-mor para os Sequeiras, entre os quais figurou Afonso de Monrojo.
No período que se seguiu à Restauração, que famosa lista de nomes cheios de glória se sucederam na sua capitania-mor! A citar ao acaso os de André da Silva de Meneses, Gomes Freire de Andrade, André de Almeida da Fonseca, o mestre de campo Aires de Saldanha, um dos quarenta e heroicos conspiradores do 10 de Dezembro, D. Rodrigo de Castro, Martim Ferreira da Câmara, o mestre de campo André de Albuquerque, guerreiro dos mais ilustres de toda a nossa história, D. Sancho Manuel de Vilhena, o imortal vencedor das batalhas do Ameixial e das linhas de Elvas, o visconde de Barbacena, o conde da Torre, D. João de Mascarenhas, António de Sousa de Meneses, Pedro César de Meneses, o comandante da vanguarda das linhas de Elvas, etc., etc.

Entre todos os que citámos, foi Afonso de Monrojo o que mais se distinguiu no governo de Campo Maior por um ato que para todo o sempre tornou a sua memória sagrada. Com o desastre irreparável de Alcácer-Quibir e a morte do Cardeal D. Henrique soçobrou a independência de Portugal. Felipe II, de Espanha, amparado no direito histórico, por ser neto de D. Manuel, senhor dum grande império, dirigindo exércitos poderosíssimos e servido por alguns portugueses que colocaram as ambições pessoais acima do seu fervor patriótico, facilmente pôde realizar a velha aspiração de estender o seu domínio a toda a península ibérica.
A cobardia, a indiferença, o espírito de fatalismo, dominara todos os ânimos e quebrantara as mais fortes energias. Só de longe em longe, surgia um impotente e fugaz assomo de resistência. «O Demónio do Meio-Dia» antegozava já a hora do seu triunfo definitivo.
Em 19 de Junho de 1580 apresentou-se em Campo Maior D. Jerónimo de Mendonça, gentil-homem do Rei de Castela, para tomar posse da vila, em nome do seu amo. O juiz de fora, os vereadores e as autoridades reunidos nos Paços do Concelho, não se atreveram a proferir urna palavra, ou a esboçar um gesto de discórdia. Submeteram-se sem condições, esquecendo--se do que deviam à honra da sua Pátria.
O emissário de Filipe II exultava de contentamento, julgando que ganhara a partida sem o menor atrito. Restava só que o alcaide-mor lhe entregasse as chaves da fortaleza. Dirigiu-se para o conseguir, ao Castelo, escoltado por esses maus portugueses. Afonso de Monrojo recebeu-o na Torre de Homenagem. Quando D. Jerónimo de Mendonça lhe passou a carta selada com o Selo Real, em que o senhor de todas as Espanhas lhe ordenava que o reconhecesse como soberano, leu-a pausadamente, não pôde evitar uma crispação que o obrigou a amarrotá-la e em seguida, sem tempo para largas reflexões e fazendo um esforço sobre-humano para conter a sua indignação, disse numa voz pausada, em que as palavras, trémulas, deixavam transparecer a tempestade que se desencadeara na sua alma: “só devia obediência aos governadores do Reino e só por uma ordem deles cederia os direitos que lhe tinham sido outorgados”.
Era a repetição do famoso feito do alcaide-mor de Coimbra nos velhos tempos de D. Afonso III, O fidalgo português, que vendera a sua alma a Castela, fitou-o assombrado. Tentou ainda meios dissuasórios. Quis convencê-lo de que o seu ato era o dum louco. Mas Afonso de Monrojo manteve-se inabalável na sua resolução e as chaves do Castelo só lhe foram arrancadas, quando D. Jerónimo de Mendonça, apoiado por todos os presentes, o dominou pela força e o prendeu, esquecendo-se de que enxovalhava desse modo um grande soldado da índia, um antigo e heroico capitão e governador da lendária fortaleza de Chaul.

Nas guerras da Restauração, nesses vinte e oito anos de sobressaltos, de constante e ininterrupta vela de armas, porque estava em jogo a independência nacional, sobretudo para as povoações da fronteira alentejana, quantas vezes Campo Maior se viu ameaçada pelas forças da vizinha cidade de Badajoz e que lutas teve de sustentar para defender as riquezas dos seus campos e para repelir as investidas do inimigo?!
Mas foi no cerco de 1712 e nos do início do século XIX que as suas guarnições e habitantes de todas as classes e categorias afirmaram, com o maior esplendor, a sua valentia e espírito de sacrifício pela honra da Pátria. A 28 de Setembro daquele ano, um luzido e grande exército, comandado pelo marquês de Bay, general de grande renome e ainda maior prosápia, tomou posições diante de Campo Maior, desde o monte do Carrascal até aos altos dos Locaios.
Á filáucia castelhana afigurava-se uma empresa fácil o assalto rápido à praça. Mas só no dia 4 de Outubro o inimigo pôde começar a abrir a primeira paralela. Recorreu ele aos mais diversos ardis para facilitar o trabalho que pretendia realizar, mas todos foram inutilizados pela argúcia e saber do governador, o brigadeiro Estevão da Gama Moura e Azevedo. Novos reforços acudiram em socorro dos sitiados, trazendo à sua frente o Conde da Ribeira, que tomou a direção da defesa.
Teria de me alongar demoradamente se pretendesse descrever todas as peripécias do cerco memorável, em que a guarnição ameaçada deu uma das provas mais brilhantes de coragem, de intrepidez, de confiança no seu valor, de quantas se registam nas páginas da nossa história. As tropas espanholas conseguiram estabelecer as três paralelas, abrir largas brechas nas muralhas, lançar sobre a povoação 700 a 800 projéteis, em média, por dia, sem que o menor esmorecimento ou temor assaltasse jamais o ânimo dos combatentes, ou da população civil. Por fim os castelhanos, comandados por D. Pedro de Zuniga, irmão do duque de Bejar, lançaram-se intrepidamente ao assalto, caminhando cegamente para uma verdadeira hecatombe. Dois mil dos seus homens de guerra viram, em frente de Campo Maior, pela última vez, a luz do sol.
Desanimadas e vencidas, as tropas do Marquês de Bay, em 2 de Novembro, levantavam os arraiais e recolheram cheias de humilhação a Badajoz, onde, dias antes, por uma falsa notícia, já lhe tinham glorificado entusiasticamente o triunfo.

Em 1801 Campo Maior sofreu um novo cerco. Não pôde desta vez fazer retirar o inimigo, vexado pela sua impotência. Dispunha duma guarnição muito escassa, achava-se desprovida de elementos indispensáveis de material de guerra e via-se batida por uma artilharia poderosa, que destruiu grande número dos seus melhores edifícios e a inundou de dezenas de milhar de projéteis de todos os calibres. Teve por isso de se render no fim de 18 dias duma heroica e desesperada defesa. Mas fê-lo de modo tão honroso que às forças vencidas, constituídos mais por sombras do que por homens, foram prestadas as maiores homenagens e foi-lhes concedido irem juntar-se em Elvas aos seus irmãos de armas.
Vila de Campo Maior no Google Earth
Seguiram-se depois os sucessos da invasão napoleónica, sendo a minha terra uma das primeiras a insurgir-se contra o domínio do herói de Austerlitz e constituindo uma junta governativa dependente da de Badajoz, onde também vingara o grito de guerra contra o domínio francês. Formavam essa Junta alguns dos melhores filhos de Campo Maior e D. José Carvajal, representante duma família nobilíssima de origem espanhola, mas amando estremecidamente a sua terra adotiva, a tal ponto que, tendo-se um dia o orgulhoso general Galuzo, comandante das tropas do pais vizinho, excedido em apreciações depreciativas para o brio português, o brioso fidalgo replicou-lhe que era membro da deputação dum povo amigo, que não fora ali para receber insultos e que, apesar de espanhol, era vassalo do Príncipe de Portugal, do qual recebera as honras de Cavaleiro e o uso de espada, estando pronto a demonstrar que a não cingia em vão. Estas palavras decisivas e altivas dominaram rapidamente a grosseria do castelhano.

Não desejo fechar este capítulo sobre alguns dos melhores feitos da terra em que nasci, sem dizer rápidas palavras sobre o que teve de grande e quase inverosímil o cerco de 1811.
As tropas francesas queriam então desforrar-se com estrondo dos desastres dos anos anteriores, os primeiros que haviam empanado o brilho das águias do Imperador. Aspiravam a levar tudo diante de si, a ferro e a fogo.
A 10 de Março, o marechal Mortier destacou o general barão de Girard com duas divisões, encarregando-o de ir ocupar a praça de Campo Maior. Sofreram os invasores a primeira deceção ao verem o governador, o temerário major Talaia, repelir com indignação a ordem para se entregar. E o aparato da defesa foi tão hábil e engenhosamente simulado que Girard se convenceu que estava em frente de um poderoso inimigo e precisava fazer um cerco em regra. As nossas baterias calavam-se por largos períodos, tão pequeno era o número de artilheiros que as guarneciam. Os alimentos e munições de guerra começaram a escassear desde o primeiro dia. A população civil multiplicava-se para ajudar a defesa, animando os soldados com a sua dedicação e coragem. Quando o governador reconheceu que toda a resistência era uma temeridade inútil e um inglório sacrifício de vidas, resignou-se a capitular. Foi ele, porém, que impôs condições e não se sujeitou a elas. Os oficiais sairiam com as suas espadas e à frente dos seus soldados seguiriam por entre as alas dos inimigos que os saudariam respeitosamente. Ninguém sofreria coisa alguma, nem na sua liberdade, nem na sua fazenda. Assim se fez, dando-se então um espetáculo sem precedentes.
O general Girard, ao ver desfilar diante de si uns trinta artilheiros esquálidos, esfarrapados e mal se podendo ter em pé e poucas dezenas de milicianos na mesma miséria moral e física, levando por únicas armas uns ridículos terçados quase todos partidos, deixou-se dominar por uma enorme ira, julgando que estava sendo vítima duma mistificação e ameaçou o major Talaia de o fazer passar pelas armas se na Praça encontrasse novas forças regulares.
Não podia acreditar no que via. Sentia-se afrontado à ideia de se haver transformado num novo D. Quixote, empregando um esforço enorme contra inimigo tão insignificante pelo número e elementos de guerra. E a sua expressão de pasmo e de revolta era tão cómica que acabou por provocar as gargalhadas dos seus próprios soldados.
Pouco valeu aos franceses a sua ridícula vitória. Quatro dias depois abandonavam a vila, por se verem ameaçados pelo exército anglo-luso e a povoação heroica recebia o título de «Leal e Valorosa Vila de Campo Maior», gravando-se-lhe por baixo do seu escudo as palavras «Lealdade e Valor».

Aí ficam sumariamente expostos os títulos de patriotismo da terra onde tanto me orgulho de ter nascido e que, através dos tempos, tem demonstrado que quer e sabe ser: «uma terra sempre portuguesa».

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