segunda-feira, 7 de maio de 2012

Namoro II – Simbologia amorosa tradicional



O amor e o n(amor)o fazem parte da vida e marcam presença em todas as atividades humanas, na família, com vizinhos, amigos e conhecidos, no trabalho, etc. Preocupei-me neste texto em assinalar apenas os símbolos mais tradicionais e enraizados da nossa cultura. Julgo que estão aqui a maioria dos mais conhecidos. Uma lista completa de casos concretos seria quase infindável: cada pequena terra do nosso país tem os seus costumes e séculos de histórias de amor para contar.

Não quis por isso referir símbolos mais recentes, só usados no presente. Hoje, tudo ou quase tudo pode conter simbologia amorosa. Há um merchandising do Dia dos Namorados, ou Dia de São Valentim, importado do estrangeiro, que inclui todo o tipo imaginável de objetos, desde a decoração ao vestuário, joias e relógios, perfumes, etc. E existem milhares de mensagens de amor pré-formatadas e sítios sociais especializados na internet.

Socorri-me despudoradamente de várias consultas na internet e de alguns livros. Este texto é  sobretudo um produto dessas fontes, das quais saliento: Amor Português (1922)– Luís Chaves; O Amor em Portugal no século XVIII (1916) – Júlio Dantas e O Namoro em Portugal (1924) – Carlos Lobo de Oliveira. Dividi o tema em 4 partes: simbologia popular, simbologia erudita, locais e eventos, e  comunicação corporal.

Símbolos populares

Figura de capa do livro Amor Português de Luís Chaves




















1) CORAÇÃO
O coração é o primeiro símbolo do amor. Encontramo-lo desenhado em tudo ou quase tudo o que possamos imaginar, incluindo objetos tradicionais de olaria, bordados ou filigranas. O coração representa os afetos. Diz-se de quem é insensível que “não tem coração”. Outras expressões: “desejo-o de todo o coração”, “quebrar-se o coração”, “apertar-se o coração”, ter “o coração nas mãos”, etc.

Meu coração a bater
Parece estar-me a lembrar
Que, se um dia te esquecer,
Será por ele parar.

2) FLORES
Várias flores simbolizam o amor, mas a mais importante é a Rosa, a rainha das flores. Oferecer rosas a alguém tem sempre um significado inequívoco. A rosa branca significa pureza ou inocência, a vermelha paixão ou desejo, a rosa cor-de-rosa significa amizade ou gratidão. A carga simbólica das rosas está muito bem explicada no “milagre das rosas” da rainha Santa Isabel. Aposto que eram rosas brancas.
Outras flores como o cravo, usado nos casamentos, o malmequer, flor de adivinhação, o amor-perfeito ou a açucena, são usadas como oferendas e símbolos de amor. Nos Alpes, a flor do amor é a edelweiss.

O meu amor é uma rosa
Que uma roseira me deu;
Na roseira não há outra,
Só se alguma s'escondeu!

3) FOLHAS
O trevo de quatro folhas dá sorte a quem o encontra. É sinal de bom presságio, em especial quem o encontra no dia de S. João, pois casa nesse ano. O manjerico é oferta de namorados nos Santos Populares.

Tenho na minha janela
Manjerico aos molhinhos;
Vai-te-me d'aqui embora,
Perdição dos meus olhinhos.

4) CHAVE
A chave fecha os corações, o coração chega mesmo a ficar fechado a sete chaves, só o amor é a chave mestra capaz de abrir o coração.

Aqui me tens ao teu lado,
Á tua disposição;
Meu coração está fechado,
E a chave na tua mão.

5) ANIMAIS
Na nossa cultura o Pombo tem sido o animal mais utilizado como símbolo do amor. Exprime ternura na sua mansidão e na persistência do pombal. Como pombo-correio é portador de mensagens.

Os pombinhos, quando nascem,
Logo vêm dando beijinhos;
Assim são os namorados,
Quando se deixam sozinhos.

6) ANEL
Oferecer ou usar um anel constitui prova de amor e é um selo de lealdade, um sinal de compromisso. Os noivos trocam de anéis de ouro na cerimónia de casamento. Ao anel do casamento chama-se “aliança”. O costume do anel matrimonial é muito antigo. Existia em Roma antes do século II a. C.

O anel, que tu me deste,
Trago no dedo mindinho;
Cada vez que tu me lembras,
Ao anel dou um beijinho.

7) LENÇO
Tradicionalmente, quando os pais dificultavam o acesso dos rapazes às raparigas, o acenar do lenço ou colocá-lo junto ao coração, fazia parte da sinalética entre namorados. As raparigas ofereciam lenços bordados com mensagens e corações aos seus namorados. Uma rapariga deixar cair o lenço, era uma forma dela chamar a atenção de um seu preferido.

Fui-me ao jardim passear,
E achei um lenço dobrado,
Cheio de lágrimas tristes,
Que por ti tenho chorado.

O município minhoto de Vila Verde organiza anualmente
o mês do Romance, em Fevereiro. Aqui os típicos lenços. 

















8) SANTOS CASAMENTEIROS
Dos mais conhecidos como Santo António, São João, São Pedro ou São Gonçalo de Amarante, aos menos conhecidos como Santo Eliseu, São Roque ou Santo Antão, dependendo dos locais, são muitos os santos referenciados como casamenteiros e por isso alvo de devoção popular.

S. Gonçalo de Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casais as novas?
Que mal vos fizeram elas?

9) LENDAS E MITOS
A lenda dos amores de Pedro e Inês é a mais conhecida em Portugal. Como uma grande parte das histórias de amor sem limites, é dramática e cruel. O amor, a paixão, tem por vezes de se curvar perante as circunstâncias, mesmo que os amantes sejam ricos e poderosos. Essa é a grande lição de um amor absoluto, mas impossível, que não se submete perante nada. A grandeza maior desse amor que fica nas lendas do povo, é a sua tragédia.

Soneto de Inês de José Carlos Ary dos Santos

Dos olhos corre a água do Mondego
Os cabelos parecem os choupais
Inês! Inês! Rainha sem sossego
Dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego
Amor que torna os homens imortais
Inês! Inês! Distância a que não chego
Morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes os teus braços
São gaivotas pousadas no regaço
Dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos
E tu morrendo com os olhos baços
Inês! Inês! Inês de Portugal.

Lendas locais de mouras encantadas e de sítios mágicos, existem por todo o país. Ver por exemplo, este caso

Símbolos eruditos




















1) MOTIVOS DA MITOLOGIA CLÁSSICA
A mitologia romana e grega está cheia de histórias de amor, envolvendo desde o Deus principal, Júpiter (Zeus), passando por Vénus (Afrodite), Cupido (Eros), Marte (Ares), Febo (Apolo), etc. Júpiter (Zeus) teve muitas mulheres e muitos filhos. Além de ter casado várias vezes, os seus desejos eram insaciáveis. Por vezes disfarçava-se para conquistar os favores sexuais das suas desejadas, umas deusas e outras, belíssimas mortais.
De todos os possíveis símbolos de amor da mitologia clássica, o mais frequente é o Cupido, com seu arco e flechas.

De teus cabelos ondeados pende
Meu coração, fiel para seu dano;
Com a luz dos olhos teus Cupido ufano
Sustenta o puro fogo, em que me acende.
(Bocage)

2) ARTES
- Poesia

É claro que cantar o amor, é principalmente uma especialidade poética. Camões, nosso poeta maior, descreve assim o amor:

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


- Pintura e escultura

Motivos de coche, século XVIII. Museu dos Coches, Lisboa.















- Teatro e Música

O teatro e a música envolvem muitos aspetos sociais: convívio nos salões da corte e dos palácios, vestuário, dança, jogos. Da minha preferência, selecionei um pequeno tema muito conhecido de Carlos Seixas (1704-1742).




3) CARTAS DE AMOR
Até à invenção e uso do telefone, que em Portugal começou a generalizar-se gradualmente a partir dos anos 30, a carta e o bilhete postal eram o único meio dos namorados comunicarem diretamente, estando longe. Os que sabiam ler e escrever eram uma muito reduzida minoria.
Uma das minhas favoritas, é esta carta de Fernando Pessoa à sua namorada Ofélia:

Bébézinho do Nininho-ninho
Oh!

Venho só quevê pá dizê ó Bébézinho que gostei muito da catinha d'ela. Oh! E tambem tive munta pena de não tá ó pé do Bébé pã le dá jinhos. 

Oh! O Nininho é pequinininho! 

Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia s'havia carros, combinei tá aqui ás seis o'as. Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai d'áqui pelas cinco e meia




(*)
(isto é a meia das cinco e meia).




Amanhã o Bébé espera pelo Nininho, sim? Em Belem, sim? Sim?

Jinhos, jinhos e mais jinhos

31/05/1920

Fernando
(*) Não é este o desenho original.

Sentada na minha cama,
Uma carta tua li;
Beijando letra por letra,
Chorando adormeci.


Locais e eventos

Com as raparigas recolhidas e guardadas, era muito difícil para elas e para eles o namoro. Em primeiro lugar porque os pais tinham ideias próprias sobre com quem elas (e eles) deviam casar. Era uma luta, se o namorado não correspondia aos desejos da família. Assim, tudo servia para os namorados: a missa, ir à fonte, às escondidas, festas e romarias, casamentos e batizados, o Entrudo, as vindimas, as esfolhadas e outros trabalhos comunitários nas aldeias.

Domingos e Dias Santos,
É que eu ofendo a Deus:
Vou á missa, não a ouço...
Pensamentos vários, os meus.


Comunicação corporal

Os conhecedores do assunto dizem que grande parte da nossa comunicação, a mais importante, não é aquela que resulta das palavras que dizemos. O movimento do nosso corpo, as expressões da face, o tom da voz, a forma como nos vestimos e arranjamos, todo esse conjunto é muito mais significativo do que a fala. E bem sabemos que um gesto, um abraço, um suspiro, um beijo, um sorriso ou uma lágrima podem fazer toda a diferença. Os namorados vivem sempre desses pequenos-grandes sinais de descoberta, que os aproximam ou afastam. Era comum aos namorados, enviarem nas cartas, pedaços de cabelo.
Estamos, como no início dissemos a falar do namoro tradicional, heterossexual, que precede o casamento. O grande símbolo dos namorados são as mãos dadas, desde tempos muito antigos. Aos namorados era socialmente consentido darem as mãos, agarrar as mãos um do outro. Mesmo quando eles só se podiam encontrar sob estrita vigilância familiar. Na cerimónia religiosa do casamento, o matrimónio religioso, o sacerdote junta as mãos dos noivos.

Dei um nó na fita verde,
Outro no preto rigor ;
‘Inda espero dar outro
Na mão d'reita ao meu amor.

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