sábado, 12 de maio de 2012

O Exército, Alcácer-Quibir e a Restauração, segundo Gonçalo Pereira Pimenta de Castro


 O coronel Gonçalo Pereira Pimenta de Castro (1868-1952) nas suas detalhadas Memórias, com três volumes, conta-nos um pouco do que foi a história do exército português, as razões da sua derrota na batalha de Alcácer-Quibir, a perda da independência, e o posterior papel do Duque de Bragança, mais tarde D. João IV, no movimento da Restauração. É um dos meus relatos preferidos, com alguns episódios curiosos.

Coronel Gonçalo Pereira Pimenta de Castro
O primeiro mapa de Portugal foi traçado pela espada do nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques.
Em Aljubarrota foi a espada de D. Nuno Álvares Pereira e a peonagem comandada pelo próprio Rei D. João I que convenceram D. João de Castela dos nossos direitos de nação independente, o que não tinha sido conseguido com os patrióticos discursos de D. João das Regras, sábio Doutor da Universidade de Bolonha.
Foram as lições do Príncipe Negro e das batalhas de Crécy e Poitiers, que levaram o nosso D. Nuno Álvares Pereira a mandar apear os nossos cavaleiros e a receber na ponta das lanças os cavaleiros inimigos, nos Atoleiros e em Valverde.
 Quando os mouros repetiam as suas audaciosas arremetidas contra os cristãos da Península — os cavaleiros portugueses, levando à sua frente o Rei, os príncipes, os restos gloriosos da Ala dos Namorados, toda a nobreza e peonagem, atravessaram mar para na Mesquita de Ceuta — logo convertida em Igreja — celebrarem uma alta cerimónia de cunho patriótico. 
Sobre o cadáver do heroico Conde de Marialva, que, crivado de golpes, ali sucumbiu dando a sua vida por Deus, pela Pátria, que engrandecia, e pelo cumprimento das ordens do seu Rei, que honrava, foram armados cavaleiros os heroicos príncipes portugueses.

Arzila, Tanger e Alcácer Ceguer vieram para a coroa de Portugal na ponta das lanças dos cavaleiros portugueses. Nessa época, não havia verdadeira organização militar. Os fidalgos com os seus criados, rendeiros e parentes, juntavam-se à volta do seu Rei. Os municípios, com os seus moradores, também. O alferes mor levava a bandeira e marchava ao lado do Rei.
A primeira organização militar regular, muito boa para a época, foi a de D. Sebastião — as milícias.
Os terços (regimentos de Infantaria) do exército de D. Sebastião bateram-se bem em Alcácer-Quibir. D. Sebastião era muito inteligente. As instruções que levou Paulo Dias de Novais, que foi o primeiro Governador de Angola, e as que levou Francisco Barreto para Moçambique, de que foi o primeiro Governador, foram escritas pelo seu punho e estavam muito bem feitas. D. Sebastião tinha a bravura dum verdadeiro herói lendário. A excessiva educação religiosa matou-o e matou o país, cuja independência enterrou nos areais de Alcácer-Quibir.
Todos os desacertos que cometeu, foram devidos ao fanatismo religioso e à deslealdade do tio, D. Filipe, Rei de Espanha.
Figura da batalha de Alcácer-Quibir
O nosso exército devia ter ido nos navios até à foz do rio que banha Alcácer-Quibir, ou seja Laracha, evitando as fadigas da difícil marcha por terra, num clima para que não estavam habituados os nossos homens de armas. Mas D. Sebastião, devido ao fanatismo religioso, não desejava alcançar uma vitória fácil, pois queria uma vitória com sacrifício, que valia muito mais, perante Deus.
A expedição estava debaixo de forma, a fazer a oração da manhã, e a artilharia inimiga a alvejá-la; mas, enquanto não terminou a:oração, o Rei não deu a ordem para o combate. Depois, o ímpeto do nosso primeiro ataque, foi irresistível. O Rei comandava a ala mais importante, com a artilharia e a peonagem; e o Duque de Aveiro a cavalaria da nobreza, que se bateu brilhantemente.
Nesta altura, em que a vitória nos sorria, ouve-se uma voz gritar: «Ter! Ter!». Era o traidor, capitão espanhol Baldaia, que o Rei de Espanha para lá mandou, em vez do velho general Duque de Alva, que havia prometido mandar. Uma traição!
A esta ordem falsa e traiçoeira do Baldaia : «Ter! Ter!» respondeu o Duque de Aveiro: «O meu cavalo não sabe voltar! Para a frente, cavaleiros!»  
E lá foram todos, numa arrancada heroica, para a glória da História, que se alcança numa carga brilhante em que se morre pela Pátria.
O Rei D. Sebastião, com um grupo de oficiais que não o abandonam, continua a luta com grande bravura; mas os terços da retaguarda tentam retrogradar, seguindo ou obedecendo à falsa ordem de «Ter! Ter!»
Os mouros, vendo-os retirar com todo o material, atacam com energia, aprisionando-os e pondo-os em fuga.

Estabelece-se grande confusão e pânico. Os cavaleiros fazem esforços sobre-humanos, embora não apoiados pelos terços, que desaparecem. D. António, Prior do Crato, já prostrado, com o seu cavalo ao lado, vê o Rei com a sua montada muito ferida e diz-lhe: «Senhor, o vosso cavalo está muito ferido; tomai o meu, que está bom». Depois, vendo uma aberta por onda o Rei podia fugir, remata: «Meu Senhor, fugi por aqui». O Rei responde-lhe: «E a minha honra?»
Aceitando o cavalo continua a cometer heroicidades, em combates pessoais, mas os mouros cresciam de momento a momento. Um fidalgo, o Conde de Vimioso, diz-lhe: «Senhor, só nos resta morrer», ao que D. Sebastião responde: «Morrer, sim; mas devagar!»
Esta frase é um poema de heroísmo. Mais tarde, o grupo que o acompanha vê-se cercado de grande multidão de mouros. Os fidalgos chegam a pedir-lhe de joelhos que entregue a sua espada; mas ele não a entrega e diz: «A liberdade de Rei não se perde senão com a morte!»; e, metendo esporas ao cavalo, desapareceu para as lendas épicas da História, onde se conservou por muito tempo...
Os mouros que D. Sebastião ia a proteger, a certa altura abandonaram-no, e foram juntar-se aos seus inimigos da véspera, fazendo-lhe muita falta o seu auxílio, para exploração.
Qual a causa desta deserção traiçoeira? Foi porque se espalhou, entre eles, que o Rei português, que ia auxiliá-los, se vencesse os obrigaria a todos a abraçar o Cristianismo.
Foi pois o excesso religioso, o fanatismo, que perdeu Portugal em Alcácer-Quibir. Mas morremos com honra épica e não apagada no lamaçal político como tristemente fomos arrastados depois, no período seguinte da nossa história pátria.

Foi o Cardeal D. Henrique que, em 1580, entregou Portugal à Espanha, não deixando em testamento o reino a sua sobrinha, a Duquesa de Bragança, que sempre o tratou na sua doença e era querida do país.
Esta hipótese era aceitável, pondo já de parte o Prior do Crato, filho do Infante D. Luís, que o Cardeal D. Henrique, estúpido e mau, odiava sem explicação, opondo assim o seu ódio ao patriotismo. Foi um traidor e o causador das calamidades que daí vieram ao país.
Depois de ter cometido vários ridículos — tais como, sendo um velho imbecil e impotente, pedir licença ao Papa para casar, a fim de haver um herdeiro ao trono; de se amamentar aos peitos de uma mulher para tentar combater a sua senilidade; de deixar marcada a sua imbecilidade, patenteada aos vindouros com esta célebre frase do seu testamento: «Deixo o reino ao seu legítimo senhor» — cobarde, inepta e traiçoeiramente, deixava Portugal à Espanha. Execranda figura esta da nossa História...

Tapeçaria de Paula Rego, Batalha de Alcácer-Quibir
Uma grande parte dos principais prisioneiros portugueses foi resgatada pelo Rei de Espanha, que os levou para aquele país, onde os casou e acarinhou. O monarca espanhol pensou em absorver Portugal, atraindo por todos os meios, como bom político que era, os portugueses desorientados, ou ávidos de ouro espanhol; e, se mais não conseguiu foi porque os seus ministros, como o Conde Duque de Olivares e outros, com as suas violências e perseguições, anulavam os efeitos da sua hábil política de atração.
No majestoso convento de Tomar reuniram-se cortes, à antiga portuguesa, com os três elementos: clero, nobreza e povo. Aí, D. Filipe fez as propostas mais atraentes possíveis: Portugal continuaria com as suas leis, costumes e garantias, parecendo, desta forma, que apenas se substituía o Rei por um regente espanhol: a duquesa de Mântua, sensata princesa espanhola.
D. Filipe fez importantes obras de arte em Portugal. No próprio convento de Tomar, que mandou ampliar, construiu o claustro que ainda hoje tem o seu nome.

O ouro de Miguel de Vasconcelos e Cristóvão de Moura, degenerados portugueses, tentava comprar toda a gente em Portugal, que estava pobríssimo, devido ao luxo, para a repressão do qual as leis de D. Sebastião tinham sido impotentes.
Os cavaleiros portugueses levavam nos seus cavalos, freios e estribos de prata; e os seus brasões, nos xabraques, eram luxuosamente bordados a pedras preciosas. Muitas casas ficaram empenhadas quando os seus representantes partiram para Alcácer-Quibir, cemitério de Portugal, onde tudo deixámos, menos o brio e a honra, como dizia Francisco I em Pavia.
— «Morrer, sim, mas devagar!» — dizia D. Sebastião, em Alcácer-Quibir. É que há derrotas mais honrosas do que algumas vitórias!
Portugal, despovoado e pobre, prestava-se às manobras dos traidores à Pátria. O legítimo Rei português era o Duque de Bragança, o mais poderoso fidalgo de todas as Espanhas. O seu ducado ia pela Espanha dentro, onde os seus domínios eram vastíssimos. Senhor de baraço e cutelo, pendão e caldeira, quando D. Filipe veio a Portugal, o Duque de Bragança (D. João) foi visitá-lo a Santarém, levando uma escolta de 15.000 cavaleiros, montados e fardados à sua custa. A Duquesa (D. Luisa) era acompanhada por uma corte mais pomposa do que a que acompanhava a rainha de Espanha. D. Filipe nomeou, nessa ocasião, o Duque de Bragança seu alferes mor; mas disse aos seus íntimos: «Este meu primo é poderoso demais para vassalo».
E, desde então, procurou tentar afastá-lo de Portugal, para desfazer esta esperança dos portugueses. D. João recusou todos os lugares que lhe ofereceram, para não abandonar a sua casa. 

Os verdadeiros fidalgos, que ficaram em Portugal, não se vendendo ao ouro espanhol, começaram a pensar num levantamento geral do país, contra o domínio espanhol.
Consultaram o Duque de Bragança, por intermédio do doutor de Bolonha, Dr. João Pinto Ribeiro, seu advogado e procurador. O Duque aceitou o convite que lhe fizeram para Rei de Portugal, e disse que, «quando fosse a ocasião oportuna, poderiam contar com ele, que apareceria».
A «Duquesa, D. Luisa de Gusmão, também encorajou o marido. Afirma-se que ela lho dissera: «antes ser rainha uma hora do que duquesa toda a vida».
O velho fidalgo Conde de Almada e Abranches, neto do pajem de D. João I, em Aljubarrota, ofereceu o seu palácio, às Portas de Santo Antão, para as reuniões dos conspiradores.
A conspiração esteve para ser denunciada, porque, falando com o seu namorado duma janela para a rua de S. José, uma criada disse a este que à noite, a desoras, se reuniam numa sala do palácio, muitos fidalgos e que os mesmos saíam depois pelas traseiras.
Uma pessoa que ia passando na rua e ouviu esta conversa foi contar o caso ao Duque de Almada, o qual comunicou o facto aos seus colegas da conspiração, que resolveram antecipar o movimento para evitar serem todos presos, incluindo o Duque de Bragança, o que era uma perda insubstituível, e mandaram o Dr. João Pinto Ribeiro a Vila Viçosa comunicar isto ao Duque e preveni-lo para estar pronto a vir para Lisboa, à primeira voz, como se fez.
D. João havia sido nomeado governador dos Países Baixos, para onde o mandaram seguir, com o fim evidente de o tirarem de Portugal.

O Duque de Bragança estava com a conspiração mas, com muita inteligência e extraordinário bom senso, não exteriorizou por forma alguma as suas ideias e intenções. Se não procedesse desta forma, teria prejudicado o movimento e impedido, talvez, a restauração de Portugal.
A nação não tinha Exército. O que não ficou em Alcácer-Quibir, foi para as Colónias ou foi servir fora do reino, nas guerras em que a Espanha andava envolvida, e o excedente mendigava pelas ruas de Lisboa. E então, mais uma vez, as espadas salvaram Portugal. Quarenta fidalgos, que conseguiram arrastar consigo o povo, dominaram a pequena guarnição do castelo de S. Jorge, de S. Julião da Barra e de outras fortalezas.
D. João IV nomeou, inteligentemente, governos das armas das províncias, sendo o mais importante o do Alentejo. Do Minho, em Viana do Castelo, o governador das armas, D. João de Sousa, presta relevantes serviços nas batalhas das linhas de Elvas e Ameixial, porque, de um dia para o outro, começou a mandar para o Conde de Chumberg todos os homens que havia nas províncias do Minho e Trás-os-Montes, fazendo, com esta inteligente e inesperada manobra, parar o exército de 20.000 homens que o general espanhol Marquês de la Romana tinha em Badajoz, para invadir Portugal.
D. João IV cedeu, para a defesa do país, o produto da venda das pratas da Casa de Bragança, que eram importantíssimas, reservando para si apenas metade, que foi o que ficou no palácio ducal de Vila Viçosa.

Nos vinte anos de luta com a Espanha os terços da nossa infantaria, que os governadores das armas recrutavam e mandavam para o Alentejo, e a nossa Cavalaria, sob a hábil direção do Conde de Chumberg, fizeram prodígios de heroísmo e patriotismo, levantando o nome português do abismo de lama em que os traidores portugueses o haviam lançado.
Nesta ocasião regressaram a Portugal muitos portugueses que não queriam viver na pátria assim escravizada á Espanha. Muitos espanhóis que estavam na Catalunha, sempre rebelde ao governo de Madrid, acompanharam os portugueses que lá estavam. Foi muito avultado o número dos que regressaram calculando-se em dois mil os portugueses, espanhóis e ingleses que então vieram para Portugal e aqui prestaram valioso auxílio.
Foram as espadas de quarenta fidalgos e os piques povo que fizeram a restauração, não foram os discursos do Dr. João Pinto Ribeiro.
A Casa de Bragança auxiliou muito, pecuniariamente, a defesa do país, e D. João IV foi um rei muito inteligente e patriota; na ocasião própria apareceu e manteve-se sempre, com certa firmeza, no seu lugar.
O nosso Exército quase tinha desaparecido, mas Chumberg trouxe com ele muitos oficiais de valor, que criaram novos quadros no nosso reduzido mas aguerrido Exército, e este continuou lutando, organizado em milícias, até ao regime liberal.

Winston Churchill disse que "estava sempre disponível para aprender, mas nem sempre gostava de ser ensinado". Os portugueses com a derrota de Alcácer-Quibir, a perda da independência e a Restauração,  foram ensinados da pior maneira possível. Para além das feridas que dificilmente saram na História dos Povos, existirão lições destes episódios, úteis para os nossos dias?

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