domingo, 10 de junho de 2012

Bons e maus economistas: um texto de Frederico Bastiat (1801-1850).



Frederico Bastiat
Nestes momentos difíceis em que o país tem de pagar as suas dívidas e viver condicionado às ajudas e exigências dos credores, uma fonte de inspiração são os textos de Federico Bastiat, um economista francês do século XIX, de lógica simples e impecável. Recomendo por isso a todos os economistas como obrigatória, a leitura dos seus Ensaios, dos quais transcrevo um pequeno texto:

Na esfera económica, um ato, um hábito, uma instituição, uma lei não geram somente um efeito, mas uma série de efeitos. Dentre esses, só o primeiro é imediato. Manifesta-se simultaneamente com a sua causa. É visível. Os outros só aparecem depois e não são visíveis. Podemo-nos dar por felizes se conseguirmos prevê-los.

Entre um bom e um mau economista existe uma diferença: um fica-se pelo efeito que se vê; o outro leva em conta tanto o efeito que se vê como aqueles que se devem prever.
E essa diferença é enorme, pois o que acontece quase sempre é que, quando a consequência imediata é favorável, as consequências posteriores são funestas e vice-versa. Daí se conclui que o mau economista, ao perseguir um pequeno benefício no presente, está gerando um grande mal no futuro, já o verdadeiro bom economista, ao perseguir um grande benefício no futuro, corre o risco de provocar um pequeno mal no presente.

De resto, o mesmo acontece no campo da saúde e da moral. Frequentemente, quanto mais doce for o primeiro fruto de um hábito, tanto mais amargos serão os outros. Testemunham isso, por exemplo, o vício, a preguiça, a prodigalidade. Assim, quando um homem é atingido' pelo efeito do que se vê e ainda não aprendeu a discernir os efeitos que não se vêm, ele entrega-se a hábitos maus, não somente por inclinação, mas por uma atitude deliberada.

Isso explica a evolução bem dolorosa da humanidade. A humanidade caracterizava-se, nos seus primórdios, pela presença da ignorância. Logo, estava limitada às consequências imediatas de seus primeiros atos, as únicas que, de início, conseguia vislumbrar. Só com o passar do tempo é que aprendeu a levar em conta as outras consequências. Dois mestres bem diferentes lhe ensinam esta lição: a experiência e a previsão. A experiência atua eficazmente, mas de modo brutal. Mostra-nos todos os efeitos de um ato, fazendo-nos senti-los: por nos queimarmos, aprendemos que o fogo queima. Seria bom se nos fosse possível substituir esse rude mestre por um mais delicado: a previsão.

Bastiat não se fica pelas formulações de caráter geral e propõe-nos a leitura de alguns exemplos concretos, como é o caso da diminuição do contingente militar:

Para uma nação, a segurança é um dos bens maiores. Se, para alcançá-la, for preciso arregimentar cem mil homens e gastar cem milhões de francos, não tenho nada a dizer. É um prazer obtido ao preço de um sacrifício. Que ninguém se engane quanto ao alcance de minha tese. Um parlamentar propõe a dispensa de cem mil homens para aliviar o bolso dos contribuintes em cem milhões de francos. Imaginemos que nos limitássemos a contra-argumentar: "Esses cem mil homens e esses cem milhões são indispensáveis à segurança nacional! É um sacrifício, mas, sem este sacrifício, a França seria dilacerada internamente pelas várias fações políticas ou invadida pelo estrangeiro". Não tenho nada a opor a este argumento, que pode ser falso ou verdadeiro, mas que não contém em si nenhuma heresia económica.

A heresia começa quando se quer apresentar o sacrifício como sendo uma vantagem, já que ele traz proveito para alguém. Ora, ou eu estou enganado, ou o autor da proposta, logo que descer da tribuna, será substituído por um novo orador que se precipitará em dizer:
"Dispensar cem mil homens! Já pensaram nisso? Que vai ser deles? De que vão viver? Será de trabalho? Mas vocês não sabem que está faltando trabalho por toda parte, que todas as profissões e carreiras estão saturadas? Vocês desejam colocá-los na rua para aumentar a concorrência e fazer isso pesar sobre o valor dos salários? No momento em que é tão difícil ganhar a vida, não é bom que o Estado dê o pão a cem mil indivíduos? Considerem, além disso, que o exército consome vinho, roupas, armas; que, desta forma, expande a atividade nas fábricas, nas oficinas, nas cidades onde há quartéis; que é, em última análise, a salvação dos seus inumeráveis fornecedores. Vocês não tremem diante da ideia de acabar com este imenso movimento industrial?"

Esse discurso vê-se logo, defende a manutenção dos cem mil soldados, não pelas necessidades do serviço militar, mas por considerações de ordem económica. São essas considerações que eu desejo refutar.

Cem mil homens, custando aos contribuintes cem milhões, vivem e fazem viver seus fornecedores tanto quanto for possível viver com cem milhões de francos: é o que se vê.
Mas cem milhões saídos do bolso dos contribuintes tiram a possibilidade de esses contribuintes, assim como seus fornecedores, ganharem a vida, na medida do valor desses cem milhões: é o que não se vê. Façam cálculos! Façam contas! E digam-me: onde está o proveito para a maioria?

Da minha parte, digo-lhes onde está a perda. E, para simplificar; em lugar de falar de cem milhões e de cem mil homens, raciocinemos tomando como base um homem e mil francos.
Eis-nos na vilazinha de A. Os recrutadores fazem uma visita e escolhem um homem. O pessoal das finanças faz sua visita e recolhe mil francos. O homem e os mil francos são transportados para a cidade de Metz, onde a soma do dinheiro permite ao homem viver durante um ano, sem produzir nada. Se você só pensar em Metz, aí você tem razão, a medida é bastante vantajosa. Mas se seus olhos se voltam para a vilazinha de A, o leitor pensará diferentemente, pois, a não ser que seja cego, poderá verificar que essa vila perdeu um trabalhador e mil francos, os quais remunerariam seu trabalho e a atividade que, ao gasto de cem mil francos, ele expandiria à sua volta.

À primeira vista, parece haver compensação. O fenómeno que se passaria na vilazinha passa-se  também em Metz. Eis a questão!
E veja onde está a perda: na vila, um homem trabalhava na lavoura e produzia: era um trabalhador; em Metz, ele faz "direitas e esquerdas, volver": é um soldado.
O dinheiro que circula é o mesmo nos dois casos, mas, no primeiro, havia trezentos dias de trabalho produtivo, no outro, há trezentos dias de trabalho improdutivo, sempre na suposição de que uma parte do exército não é indispensável à segurança pública.

Agora, admitamos a dispensa. Vai me dizer que haverá um aumento de cem mil trabalhadores, que a concorrência será estimulada e que a pressão que ela exercerá sobre o índice dos salários será muito grande. É o que você vê.

Mas eis o que você não vê. Você não vê que dar baixa a cem mil soldados não é eliminar cem milhões de francos, mas devolvê-los aos contribuintes. Você não vê que lançar assim cem mil trabalhadores no mercado é injetar nesse mercado cem milhões de francos destinados a pagar o trabalho desse pessoal. Não vê, por conseguinte, que a mesma medida que aumenta a oferta de braços logicamente aumenta também a procura. Donde se conclui que a baixa de salários é ilusória. Não vê que, tanto antes como depois da dispensa, há no país cem milhões de francos correspondentes a cem mil homens, e que toda a diferença consiste no seguinte: antes, o país entregava os cem milhões aos cem mil homens para não fazerem nada; depois, o país dá-lhes esse dinheiro para que trabalhem. E não vê, finalmente, que quando um contribuinte dá seu dinheiro seja a um soldado, em troca de nada, seja a um trabalhador, em troca de alguma coisa, todas as consequências posteriores da circulação desse dinheiro são as mesmas nos dois casos: só que, no segundo caso, o contribuinte recebe alguma coisa e, no primeiro, ele não recebe nada. Resultado: uma perda sem proveito para a nação.

O sofisma que combato aqui não resiste à prova da progressão que é a pedra de toque dos princípios. Se, tudo compensado, todos os interesses examinados, houvesse proveito para a nação em se aumentar o efetivo do exército, por que não alistar toda a população masculina do país?

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