quarta-feira, 13 de junho de 2012

Consequências da saída da Grécia do Euro


Saída da Grécia do Euro ?
É o melhor estudo que conheço sobre as consequências da saída da Grécia do Euro. Confidencial, foi elaborado pelo IIF (Instituto da Finança Internacional), associação global das instituições financeiras. O jornal grego de língua inglesa Athen News, conseguiu ter acesso ao texto e publicou-o a 5 de Março deste ano, embora na fonte tenha a data de 18 de Fevereiro. Está disponível em
Trago aqui as principais conclusões:

- Perdas diretas dos credores de dívida grega de 73 mil milhões de euros. Tanto públicos como privados.
- Perdas potenciais do Banco Central Europeu de 177 mil milhões de euros, equivalente à exposição do BCE a essa dívida.
- Necessidade de apoios adicionais a Portugal e à Irlanda, aos seus governos e à banca, por forma a convencer os mercados que estes países estariam a salvo de um incumprimento (no conjunto, possivelmente 380 mil milhões de euros num período de 5 anos).  
- Provável necessidade de apoio substancial a Espanha e à Itália para suster o contágio (possivelmente 350 mil milhões de euros).
-  O BCE sofrerá pressões para aumentar a compra de títulos do tesouro, de estados membros do euro com dificuldades em obter créditos a juros sustentáveis.
- Aumentarão os custos de recapitalização dos bancos, que com facilidade poderão ascender a 160 mil milhões. Os investidores privados dificilmente estarão na disposição de o fazer por si, deixando aos governos a escolha de o fazer ou deixar os bancos alcançar os rácios pretendidos, através de uma ainda maior desalavancagem.
- Haverá perda de impostos sobre rendimentos, devido a menor crescimento da zona euro e ao aumento do pagamento de juros, devido ao aumento da dívida provocada por maiores montantes de empréstimos.

Será muito difícil avaliar todas as implicações de uma queda do crescimento na zona euro e juntar todos os custos envolvidos, contudo será improvável que o montante das perdas totais de uma saída da Grécia da zona euro, possa ser menor que um bilião de euros, para o conjunto dos credores públicos e privados.  

Desde 18 de Fevereiro, data deste estudo, até agora, muitas coisas aconteceram: a subida dos juros dos títulos espanhóis e italianos; a incapacidade dos gregos após eleições, em formarem governo e a marcação de novas eleições; as eleições francesas com a derrota de Sarkozy e a vitória de Hollande; o resgate da Espanha; a proposta de uma União Orçamental para a zona euro, atualmente em discussão e, finalmente, a ameaça das agências de notação em baixar generalizadamente o "rating" dos países e da banca da zona euro, caso a Grécia saia  desse conturbado clube. Nada disto me faz acreditar que o relatório do IIF possa pecar por excesso de pessimismo.
O artigo dos economistas Niall Ferguson e Nouriel Roubini no Financial Times, no passado dia 8 de Junho, vai no sentido das preocupações do IIF, alertando para a necessidade de encontrar soluções para “a recapitalização dos bancos, o seguro dos depósitos e a mutualização da dívida”, e é fundamental ser lido. Segundo os autores estas medidas “não são uma opção, são essenciais para evitar uma desintegração irreversível da união monetária europeia”(*). Niall Ferguson, primeiro autor do artigo, não é, creiam-me, nem um bocadinho keynesiano.

Paul Krugman vaticinou que seria inevitável uma saída da Grécia da zona euro. Ninguém o deseja na Europa, mas vejo o cenário como muito provável caso a extrema-esquerda vença as eleições na Grécia, porque não será possível emprestar mais dinheiro para manter a Grécia no euro, se o seu governo eleito recusar um sério programa de austeridade, incluindo privatizações. Assim, a torneira dos fundos comunitários seria fechada e a Grécia entraria em incumprimento.
As consequências da saída do euro para o povo grego começarão pelo dinheiro retido nos bancos, pela falta de bens importados, como combustíveis, medicamentos e bens alimentares, racionamentos, falência rápida e em série de inúmeras empresas. Depois, fica uma dúvida: resistirá o sistema democrático ao drama social dos gregos? Coisa não muito diferente ocorreria em Portugal, em idênticas circunstâncias.


(*) No original: "bank recapitalisation, European deposit insurance and debt mutualisation are not optional; they are essential to avoid an irreversible disintegration of Europe's monetary union"

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