sábado, 2 de junho de 2012

Histórias infantis de vários autores, selecionadas por Guerra Junqueiro.


Guerra Junqueiro
Do livro Contos para a Infância, de 1877, histórias de várias proveniências selecionadas e narradas por Guerra Junqueiro, decidi trazer a este blogue 9 (nove) contos.
Após o final de cada conto, acrescentei comentários.


1. O ouro

Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas de ouro, empregou a maior parte dos vassalos a extrair o ouro dessas minas; e o resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande fome no país.

Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em segredo frangos, pombos, galinhas e outras iguarias, todas de ouro fino; e quando o rei quis jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com que ele ficou todo satisfeito, porque não compreendeu ao princípio qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus vassalos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que trazê-los nas minas à busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens, estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro aparecesse em abundância.
A rainha tinha juízo.

Breves comentários que a história me sugere:
Os países hoje não vivem economicamente isolados. Muitos especializaram-se em certo tipo de indústrias ou de serviços, e tornaram-se inter-dependentes do comércio de bens alimentares. Já não existem países autossuficientes, mas todos se deveriam preocupar com a segurança alimentar.


2. Não quero

Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito alto: «Não, dizia um com voz enérgica, não quero.» Parei e perguntei-lhe:
-- O que é que tu não queres, meu rapaz?
-- Não quero dizer à mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me há de ralhar, mas antes quero que me ralhe do que mentir.
--E tens razão, disse-lhe eu. És um rapaz como se quer.
Apertei-lhe a mão, enquanto que o outro pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora todo envergonhado.

Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de falar com o professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um magnifico estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a repará-las. O outro pelo contrário, é mentiroso, covarde e incorrigível.»
--Não me espanto, disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas duas crianças; e contei-lhe o que tinha ouvido.

Breves comentários que a história me sugere:
A formação dos mais novos, na escola e principalmente na família, falha quando valores essenciais como a honra, a verdade, o caráter, a disciplina, a organização, o respeito pelos pais e professores, não são adequadamente desenvolvidos. É uma base, de onde tudo o resto depois pode ser construído. Chamem-me conservador...


3.  Piloto

Piloto era o mais inteligente e o mais afetuoso dos cães, e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.

Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã Joaninha.

Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações: partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.

Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.

Uma vez deu prova duma extraordinária sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.

Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade enquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.

Era como se dissesse: Onde vais tu com o trigo de meu dono?
O ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não desonrar.

Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até à margem do ribeiro.

Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.

Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.

Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.

Teve vergonha de seu ato miserável; e desde esse dia, violentou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.

O exemplo do cão corrigiu o homem.

Breves comentários que a história me sugere:
Quem tem um cão, sabe que estes animais são os seus melhores amigos. É a regra geral com raras exceções. Aprendi a gostar de cães desde criança e sempre admirei a sua lealdade e afeto.


4.  Como um camponês aprendeu o "Pai Nosso"

Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o confessor deu-lhe por penitência rezar sete vezes o “Pai Nosso”.
- Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.
- Pois nesse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitência dar a crédito um alqueire de trigo a todas as pessoas que to forem pedir da minha parte.

No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.
 - Como te chamas? Perguntou-lhe o camponês.
- “Pai-Nosso-Que-Estais-No-Céu”, respondeu o pobre.
- E o teu apelido?
- “Santificado-Seja-O-Vosso-Nome”.
E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.

Ao outro dia chega segundo pobre.
- Como te chamas?
- “Venha-A-Nós-O-Vosso-Reino.”
- E o teu apelido?
- “Seja-Feita-A-Vossa-Vontade.”
E partiu com o seu alqueire de trigo.

Veio o terceiro pobre.
- Como te chamas?
- “Assim-Na-Terra-Como-No-Céu.”
- E o teu apelido?
- “O-Pão-Nosso-De-Cada-Dia-Nos-Dai-Hoje.”
E levou o seu alqueire.

Veio o quarto pobre.
- Como te chamas?
- “Perdoai-As-Nossas-Ofensas.”
- E o teu apelido?
- “Assim-Como-Nós-Perdoamos-A-Quem-Nos-Tem-Ofendido.”
E levou o seu alqueire.

Veio o quinto e último pobre.
- Como te chamas?
- “E-Não-Nos-Deixeis-Cair-Em-Tentação.”
- E o teu apelido?
- “Mas-Livrai-nos-Do-Mal-Amén.”
E levou também o seu alqueire.

Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão:
- Então já sabes o "Pai Nosso"?
- Não, senhor cura, sei só os nomes e apelidos dos pobres a quem emprestei o meu trigo.
- Quem são? Perguntou o padre.
E o aldeão enumerou-lhos a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha apresentado.
- Já vês, disse o confessor, que não era muito difícil aprender o "Pai Nosso", porque já o sabes perfeitamente.

Breves comentários que a história me sugere:
O que me encanta nesta história, não é tanto a parte religiosa, é a habilidade do padre em ensinar o “Pai Nosso” ao aldeão, que se julgava incapaz de o decorar. Desde há muitas gerações, mesmo os que não sabiam ler, aprendiam o “Pai Nosso” e a “Avé Maria”.


5. O talismã

Dois habitantes da mesma cidade exerciam nela a mesma indústria, mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negócios com uma atividade infatigável, enquanto o segundo, entregue inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direção da sua casa.

«Explica-me, disse um dia este último ao seu colega, qual a razão porque a sorte nos trata de um modo tão diferente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apesar disso, enquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não terás tu por acaso algum precioso talismã.»

«Efetivamente, respondeu o outro, herdei de meu pai um talismã de uma virtude incomparável. Trago-o ao pescoço, e ando assim com ele todo o dia por toda a casa, do celeiro para a adega, e da adega para o celeiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»

«Meu querido colega, empresta-me pelo amor de Deus essa relíquia preciosa de que tanto necessito; podes ter a certeza de que ta restituo.»

«Pois vem buscá-la amanhã de manhã.»

Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, apresentou-lhe este uma avelã, através da qual tinha passado um fio de seda.

O nosso homem pô-la imediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a casa com o talismã. Observou então a completa desordem que por toda a parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha o pão, a carne e os legumes; no celeiro, o milho, o trigo, o feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjedouras dos cavalos; viu, finalmente, como os seus livros e registos estavam mal escriturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remédio, compreendendo que o dono da casa nunca pode ser substituído por terceira pessoa na direção dos seus negócios.

Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talismã, agradecendo-lhe duplamente, em primeiro lugar, o seu bom conselho, e em segundo lugar, a maneira delicada como lho tinha dado.

Breves comentários que a história me sugere:
Não se pode gerir um negócio à distância. Quem está convencido que assim o consegue fazer, apesar dos computadores, dos balance scorecards, etc, é um iludido. Como se costuma dizer, “o diabo está nos detalhes”.


6. Os gigantes da montanha e os anões da planície

Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num castelo na montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer à planície a ver o que faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões. Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido à caça e sua mãe estava dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que lindos brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavalos, a charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo, onde seu pai estava a jantar.

- Que trazes aí, minha filha? perguntou ele.

- Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os mais bonitos que tenho visto.

E pô-los em cima da mesa, a um e um, os cavalos, a charrua e os trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem tivessem transportado dum formigueiro para um salão. A gigantinha pôs-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante fez-se sério e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-no imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da montanha, morreriam de fome, se os anões da planície deixassem de lavrar a terra e de semear o trigo.

Breves comentários que a história me sugere:
Estes gigantes da montanha fizeram-me lembrar alguns governantes que andaram a brincar com a economia, bloqueando a iniciativa privada e o empreendedorismo, fonte de riqueza de qualquer país.


7. A urna das lágrimas

Era uma vez uma viúva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem adorava sobre todas as coisas. Não se separava dela um só momento; mas um dia a pobre pequerrucha começou a sofrer, adoeceu e morreu. A desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um momento, à cabeceira da filha, julgou endoidecer de mágoa e de saudades. Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido, abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a aparecer a ela, a sua querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos uma urna, que vinha cheia até às bordas.

- “Oh! minha querida mãe, disse-lhe ela, não chores mais. Olha, o anjo das lágrimas recolheu as tuas nesta urna. Se chorares mais, transbordará, e as tuas lágrimas correrão sobre mim, inquietando-me no túmulo e perturbando a minha felicidade no paraíso.

A pequenina desapareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não afligir.

Breves comentários que a história me sugere:
Algum dia acontece-nos que um ente mais querido morre. O drama é maior quando os pais perdem um filho. São coisas que não podemos controlar, mas a vida continua, e todos temos de perceber que devemos ser capazes de ultrapassar essa situação.


8. Boa sentença

Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro dum alforge uma quantia em oiro bastante avultada. Anunciou que daria cem mil reis de alvíssaras a quem lha trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado camponês levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

- Deviam ser oitocentos mil reis, que foi a quantia que eu perdi; no alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste adiantados os cem mil reis de alvíssaras: estamos pagos por conseguinte.»

O bom camponês, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz, que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:

--Um de vós perdeu oitocentos mil reis; o outro encontrou um alforge apenas com setecentos: Resulta daí claramente que o dinheiro que o último encontrou não pode ser o mesmo a que o primeiro se julga com direito. Por consequência tu, meu bom homem, leva o dinheiro que encontraste, e guarda-o até que apareça o indivíduo que perdeu somente setecentos mil réis. E tu, o único conselho que passo a dar-te, é que tenhas paciência até que apareça alguém que tenha achado os teus oitocentos mil réis.

Breves comentários que a história me sugere:
Uma das coisas que mais critico na nossa sociedade, é que devíamos ser sempre implacáveis com os vigaristas, e somos demasiadas vezes tolerantes com os que enganam e mentem, aldrabando o póximo. Chegamos a valorizar mais o “status” social, mesmo quando se enriqueceu à custa de vigarices, do que a honestidade.


9. Carlos Magno e o abade de São Gall

Carlos Magno numa das suas frequentes viagens viu o abade de São Gall, preguiçosamente reclinado sobre almofadas à porta da abadia, fresco, rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens enérgicos e ativos, e o abade era indolente. Além disso o imperador tinha mais dum motivo de queixa contra ele.

- Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submeter à sua esclarecida razão três perguntas, às quais terá a bondade de me responder daqui a três meses, contados dia a dia, em sessão solene do nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo; em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que vossa reverendíssima vier à minha presença, pensamento esse que deve ser um erro. Trate de arranjar resposta satisfatória a tudo, ou deixa de ser abade de São Gall, e tem de abandonar a abadia, montado num burro com a cara voltada para o rabo.

O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas os doutores mais famosos pela sua ciência, não lhe souberam dar resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal aproximava-se; já não faltava senão um mês, já não faltavam senão semanas, e afinal só dias. O abade, que noutro tempo era gordo e anafado, estava magro como um esqueleto. Perdera o sono e o apetite. Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se encontrou com o seu pastor.

- Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?
- Estou, meu caro Félix, estou muito doente.
- Oh! Meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.
- Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta às minhas três perguntas.
- É então latim?
- Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.
--Visto que não é latim, queira vossa reverendíssima dizer-me o que é: minha mãe era uma pobre de Cristo, mas tinha resposta para tudo.

Quando o abade lhe formulou as três perguntas, o pastor atirou com o barrete ao ar, e disse-lhe:

- Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e vossa reverendíssima  pode continuar a engordar; mas para isso é necessário que eu vista o seu hábito.

Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o hábito do abade de São Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho imperial.

- Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: - Quanto valho eu em dinheiro?

- Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo foi vendido por trinta dinheiros, sua majestade vale à justa vinte e nove, só um dinheiro menos.

- Bravo, senhor abade, a resposta é hábil, e na realidade não posso deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos à segunda pergunta, não há de ser tão fácil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a dar a volta ao mundo?

- Senhor, se vossa majestade se levantar ao romper do dia e poder seguir constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e quatro horas.

- Decididamente, vossa reverendíssima  é um grande finório, e desta vez, confesso-me vencido; mas a terceira, não é dessas a que se responde com suposições. Quem lhe há de dizer o que eu estou pensando, e como me há de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.

--Senhor: vossa magestade imagina que eu sou o abade de São Gall; está enganado, porque eu sou o seu pastor.
- Mas então tu é que deves ser o abade de São Gall, e desde já o ficas sendo.
- Não sei latim, mas, se vossa majestade quer fazer-me um favor, peço-lhe outra coisa.
- Não tens mais que falar.
- Peço a vossa majestade que perdoe ao meu amigo.

Carlos Magno não era homem que faltasse à sua palavra.

Breves comentários que a história me sugere:
É uma charada muito engraçada, brilhantemente resolvida. A figura do abade indolente e depois desesperado, é cómica. A indolência dá quase sempre mau resultado.

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