domingo, 1 de julho de 2012

Plano B: de volta ao Escudo?


Moeda de 1 Escudo.

As dificuldades do atual governo e do país em aplicar com sucesso as medidas da troika, poderá implicar um regresso do país à moeda própria? Esse não é um cenário minimamente desejável para ninguém, da direita à extrema-esquerda, mas se as coisas corressem muito mal (aumento dramático do desemprego, falha do crédito às empresas, diminuição significativa da receita dos impostos, não cumprimento das metas orçamentais, roturas nos serviços públicos, nos pagamentos de salários e pensões sociais, default eminente), seria provável que não restasse outra solução. A entrada de Portugal no Euro, já foi considerada uma operação de wishful thinking que nos saiu muito cara. Não conseguir condições dentro da Zona Euro para equilibrar as nossas contas públicas e externas, e pagar a gigantesca dívida acumulada, implicaria um regresso à moeda própria, que desejaríamos que fosse realizada da forma mais planeada e organizada possível.

Este plano B não significaria uma saída da União Europeia (uma “alternativa” miserabilista do orgulhosamente sós, mais ou menos neo-salazarista) nem a perda dos depósitos em Euros, necessariamente. E também não teria de implicar menos austeridade para o Estado, nem o corte dos apoios da União Europeia. Bastaria que fosse planeada e aplicada criteriosamente. A sua principal desvantagem seria uma terrível redução do poder de compra face aos bens importados, tais como bens alimentares, combustíveis, energia, automóveis, maquinaria e medicamentos. Tudo ou quase tudo subiria de preço devido à desvalorização da moeda que se seguiria. A curto prazo o desemprego aumentaria mais ainda. Por isso, claro que nos amedronta esta hipótese não desejável, o que não significa que ela não deva ser equacionada como plano de contingência. Algumas empresas melhor dirigidas têm-no feito. Não é negando a realidade que ficamos melhor preparados para a enfrentar.

Dentro da Zona Euro, com o plano de ajustamento do governo PS e da troika, e agora também do governo do PSD e do CDS, as atuais dificuldades em atingir as metas do desemprego e do orçamento do estado, significam que o emprego, a economia e os impostos estão mais dependentes do consumo interno, público e privado, do que aquilo que inicialmente foi assumido, como hipótese de partida para o orçamento de estado de 2012. Significa ainda que as reduções do consumo público e privado não constituem a opção de política económica mais indicada neste contexto. As políticas de austeridade devem neste momento concentrar esforços nas medidas de caráter estrutural, designadamente nas privatizações, PPPs, empresas de transporte público, justiça, saúde, simplificação e agilização administrativa, ciência e investigação, cultura, forças armadas, etc. Por esta via, poderão gerar recursos suficientes para compensar a quebra dos impostos, desde que a troika o autorize. Não acredito que seja fácil, mas ainda assim não chega. Há que impulsionar os fatores de crescimento, criando ambiente mais favorável ao empreendedorismo, exportações e inovação tecnológica. O desemprego só pode ser diminuído por esta via e o tempo político é curto para hesitações. Um programa europeu de forte apoio ao crédito bancário para o investimento produtivo, seria muito importante. Perante as dificuldades, faço votos que o governo tenha a abertura para negociar as condições que o país necessita. 

Vale mesmo a pena não desistir do Euro.

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