sábado, 28 de julho de 2012

Sonoridade da Língua Portuguesa por Carolina Michaelis de Vasconcelos (1851-1925)


Carolina Michaelis de Vanconcelos

Quando penso na sonoridade da língua portuguesa, tenho tendência sempre a avaliar a língua pelo meu sotaque, o do português europeu, na variante dominante em Lisboa, onde vivo. É uma forma que tende a tornar as vogais mudas, abreviando muito as sílabas, em particular a última de cada palavra. Mas se descer alguns poucos quilómetros para sul e chegar ao Alentejo, já encontro o linguajar meio cantado do alentejano.

Há pronúncias muito diferentes do português. Há o europeu, o brasileiro e o angolano, por exemplo, e cada um diz as palavras à sua maneira. Dentro de um mesmo país existem variações importantes. O português nos Açores, se é muito fechado e rápido, torna a compreensão do discurso difícil, mesmo para mim, habitante do mesmo país e falante da mesma língua.
Claro que se estivermos perante alguém treinado na comunicação oral, um bom professor, um bom orador, um bom ator, um bom cantor, que aprendeu a pronunciar com clareza o português, então tudo se torna compreensível para todos.

Acho a língua portuguesa no Brasil particularmente bonita, sobretudo pela forma como as vogais são abertas e marcadas pelas consoantes r, s e m ou n, e como a fala é entoada, mais expressiva e menos contida que o português europeu. Muitos estrangeiros, não sabendo português e ouvindo o português europeu e o português brasileiro, mostram estranheza como é que a mesmas palavras podem soar ao ouvido de maneira tão diferente.

Carolina Michaelis de Vasconcelos (1851-1925), uma das grandes estudiosas da língua portuguesa, explicava a sonoridade do português da seguinte forma:

As diversas línguas variam muito quanto ao número de sons de que sabem fazer unidades. Numas predomina o elemento vocálico, noutras o consonântico. E, se olharem para o alfabeto, em que há apenas cinco vogais e quatro vezes cinco consoantes, aparentemente estas devem estar na maioria. E estão. Mesmo na língua italiana, a língua do belcanto, em que todas as palavras terminam em vogal, há nos 14 versos de um soneto qualquer (termo médio) 184 vogais e 221 consoantes. Em português contei 174 vogais e 203 consoantes.
Em alemão há um esqueleto consonântico mais robusto. Temos sílabas com cinco sons consonânticos, por exemplo em pflückst, pflügst, schlägst, drückst, bringst. Em português ele é mais brando e reduzido do que em qualquer outra das línguas neolatinas, em virtude da queda do l, n, d, g intervocálico. O ouvido e a língua nacional amam a simplicidade; tendem à maior comodidade em forma e beleza possível, e ao menor esforço possível; ao emprego da vis minima.

Quase todas as sílabas constam de dois ou três sons. Temos dois em , li, vi, , , . Temos três em vai, lei, rei, meu, teu, seu; a par de duas vogais uma consoante, ou, mais exatamente, a par de uma consoante uma vogal e uma semivogal que, juntas, constituem um ditongo. Em outros casos agrupa-se com a consoante explosiva (p-t-k ou b-d-g) uma líquida ou uma vibrante, por exemplo em crê, pra(do), etc. O máximo são quatro sons: duas consoantes iniciais agrupadas, vogal, e uma consoante final (nasal, líquida, vibrante ou sibilante) por exemplo em três, cruz, prol, traz, grei, frei, greis, freis.

Creio que não há nenhuma com mais de cinco sons. E mesmo entre essas, em que há portanto quatro consoantes, mal haverá uma que seja popular. Só me lembro de trans em transpôr, transparente. Mas tais sílabas, o povo, quando as emprega, alivia-as, dizendo transpor, ou cortando-as em duas, dizendo estrâ, ou estram. A minha lavadeira, que é de Paranhos, diz sempre estramparente. E todos nós, apesar das nossas pretensões a gente culta, dizemos por exemplo estra-viar, em vez de transviar. E todos nós procedemos de modo semelhante com os vocábulos que em latim principiam com o grupo sp, st, sk. Em vez de scutu dizemos escudo; estudo em vez de studium; esposo em vez de sponsum
Os três sons sku, stu, spon eram compactos demais para o ouvido musical dos portugueses.

(Introdução a Lições de Filologia Portuguesa na Universidade de Coimbra, Curso de 1917-1918, em Revista Lusitana, Vol. XXI, Lisboa, 1918)

Nota Final:
Agostinho de Campos na sua Antologia Portuguesa em Paladinos da Linguagem, Vol II, 1922, selecionou este texto de Carolina Michaelis de Vasconcelos. Sobre o mesmo tema, em texto de J. Jorge Peralta, ver também o excelente blogue GlobiLíngua.

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