domingo, 2 de setembro de 2012

Pequenas lições de História

A História é importante

Embora não seja formado em história, tive a oportunidade de ter beneficiado de algumas lições desta "disciplina" ao longo da vida.

- A primeira que recordo tinha 9 ou 10 anos, ainda sem saber que apanharia o difícil exame de 1965 da quarta classe (aquele que o professor Marcelo levou à TVI). O meu pai tinha então em casa, um livro de história dos seus tempos de estudante, do 3º ciclo do liceu, antigos 6º e 7º anos, hoje chamados de 10º e 11º anos. Tínhamos de saber de memória coisas básicas: o nome dos reis das diferentes dinastias e seus cognomes, as datas essenciais como a da independência, da perda da independência, da restauração, da monarquia constitucional, etc.; nomes das batalhas principais contra os leoneses, os castelhanos, os espanhóis, os franceses. Nomes de gente ilustre e importante e onde se distinguiram. A história, como tudo o mais, era um empinanço sistemático para saber de cor. Aquele livro do 3º ciclo veio mostrar-me que além daqueles fatos, existia uma lógica compreensível na sucessão dos acontecimentos. A mais importante parecia ser o progresso técnico: a romanização tinha trazido a organização administrativa; os povos germânicos, os árabes e a reconquista tinham trazido novas técnicas agrícolas e de navegação e as descobertas, o impulso ao comércio e a colonização. Não disse a ninguém que estava a ler o livro e claro que parti para aquele exame de história da quarta classe, sentindo-me um sabichão.

- Outra lição de história, recebi-a dum grande professor, no Liceu de Oeiras: Ardisson Pereira. Foi no meu 3º ano do liceu (hoje, 7º ano). Iria ter aquele grande professor ao longo dos 5 anos seguintes. Admito que, até ao 3º ciclo do liceu nunca levei os estudos a sério. Tinha alguma facilidade e apenas pretendia ter notas suficientes para pelo menos dispensar dos exames orais, que me punham nervoso. Nas provas escritas sempre que estudava um pouco, saía-me bem. Naquela primeira aula de história do 3º ano, Ardisson Pereira pregou-me, sem ele saber, uma grande partida, a mim, que estupidamente aos 12 anos me julgava um entendido na matéria! Disse-nos mais ou menos isto, depois de se apresentar:
Meus senhores, ao longo deste ano darei a matéria tal como está estabelecido no programa oficial e no livro de estudo. Hoje, excecionalmente, farei uma aula diferente. Nós temos um grande defeito na história que aprendemos. Centramos tudo o que de importante aconteceu em épocas passadas mais antigas, na Europa. Mas eu quero-vos dizer que antes da Europa e do Mediterrâneo, existiam já civilizações avançadas na Ásia, em particular na China e na Índia.
Depois, durante a curta hora de aula, deu-nos uma lição de história da Ásia. Fiquei siderado. Fui procurar o que havia sido publicado sobre o tema, nas livrarias, na biblioteca do liceu, onde podia. Estávamos em 1967. Não havia computadores nem internets. A informação era difícil de obter. As únicas referências sobre a Ásia imediatamente disponíveis estavam ligadas à expansão marítima portuguesa. Foi então que descobri Robert Charroux e a sua “Histoire inconnue des hommes depuis cent mille ans” [História desconhecida dos homens desde à cem mil anos]. O livro tinha sido traduzido e publicado em português pela editora Bertrand numa coleção de livros de capa preta, “Enigmas de todos os tempos”. Foi uma revelação saber que poderia existir tanto por explorar e tanto ainda por perceber. Robert Charroux atirou-me para as leituras mais ou menos esotéricas das sociedades secretas, dos templários, dos astronautas hindus, dos óvnis. Alguns dos temas empurravam-nos para o Médio Oriente, para a Ásia, para a África e para as Américas. Existia história e histórias por toda a parte e não apenas na Europa.

- Cheguei à ficção científica muito rapidamente. A vantagem da ficção científica sobre os trabalhos históricos especulativos e esotéricos, era o abrir sem limites das possibilidades da imaginação. Nada era impossível. Qualquer forma de vida, tecnologia, sociedade ou planeta podia ser inventado com total liberdade. Achei piada ao desabafo, aqui há umas semanas atrás, de Mário Crespo no Jornal das 9 da Sic Notícias, sobre a Fundação e Império de Asimov. Os seus convidados, Vicente Jorge Silva e António Capucho, não sabiam que ele se referia ao segundo livro da trilogia A Fundação de Isaac Asimov, a melhor obra de ficção científica alguma vez publicada segundo a maioria dos leitores de ficção científica, sempre que esse inquérito de opinião tem sido realizado. Mas que tem isto que ver com a história? É que num conto de ficção científica de Arthur C. Clarke, precisamente chamado “Lição de História” aprendi algo mais:

Os cientistas venusianos enviam uma nave ao terceiro planeta, que tinha sofrido graves alterações climáticas e dizimado a civilização terrestre e descobrem os restos de um filme. Em Vénus conseguem perceber que passando rapidamente os fotogramas, obtêm imagens animadas dos seres e da vida na Terra. No filme, e agora cito Clarke, as (...) pessoas possuíam dois olhos muito próximos, mas os outros adornos do rosto eram quase indistintos. Havia um grande orifício na parte inferior da cabeça, que abria e fechava constantemente. Possivelmente tinha qualquer coisa a ver com a respiração. Os cientistas olhavam emocionados para tão fantásticas aventuras. Havia um conflito violento entre duas personagens. Parecia que ambos haviam morrido, mas, no fim, ambos ficavam de novo em pé.
A seguir vinha uma louca correria, uma máquina de quatro rodas, que era capaz de extraordinários feitos de locomoção. A viagem terminou numa cidade cheia de outros veículos semelhantes que se moviam em todas as direções. Ninguém parecia surpreendido de ver duas dessas máquinas encontrarem-se com resultados devastadores.
Depois disto, os acontecimentos tornaram-se mais complicados. Era óbvio que aquilo levasse a muitos anos de pesquisas, para se compreender tudo. É claro que a fita era um trabalho de arte, uma reprodução exata da vida, tal como fora no Terceiro Planeta.
Muitos dos cientistas ficaram tristes, quando a sequência chegou ao fim. A cena final mostrava as pessoas envolvidas numa catástrofe incompreensível e terminava com um círculo rodeando a cabeça de uma delas.
A cena desvaneceu-se e deu lugar a algumas letras(...)
Reunidos em conferência, os cientistas resolvem visualizar o filme pela segunda vez. (...) Uma vez mais o filme passou no écrã. A máquina parou e ficou a perpetuar-se aquela imagem da criatura envolvida num círculo, numa atitude de mau temperamento. Para o resto dos tempos simbolizaria a raça humana. Os psicologistas de Vénus analisariam as suas ações até reconstruírem a sua vida. Milhares de livros seriam escritos acerca dela. Filosofias complicadas tentariam explicá-la.
Mas todo este trabalho, esta busca, seria praticamente em vão. Talvez que a figura no écrã se risse sarcasticamente daqueles cientistas.
O seu segredo seria guardado, enquanto durasse o Universo, porque ninguém mais leria a linguagem perdida da Terra. Durante os milhões de anos futuros, estas palavras dançariam no écrã, sem que ninguém conseguisse descobrir o seu significado: ‘Uma produção de Walt Disney’.

A História é de todos os cantos do planeta
Os fatos históricos chegam a nós através da sua interpretação. Primeiro de quem o narra no momento e segundo, pelo historiador. Ao longo do tempo essa interpretação sofre alterações. Mesmo hoje, os compêndios de história são diferentes de país para país, na interpretação dos mesmos fatos, sobretudo dos conflitos.        

- Já na faculdade de economia tive a sorte de “apanhar” dois grandes professores. O catedrático que nos dava as lições em Aula Magna, com várias turmas reunidas ao mesmo tempo, chamava-se Joel Serrão. Ser-nos-ia difícil perceber o que ele não sabia, e nós, pobres estudantes, ao ouvi-lo, tínhamos a sensação de que estava muitos degraus acima dos nossos incipientes conhecimentos. Joel Serrão tinha coordenado a realização do famoso “Dicionário da História de Portugal”, uma obra enciclopédica notável. Aquele professor era uma sumidade. Tive a sorte ainda de o conhecer em sua casa de Campo de Ourique, na Rua Saraiva de Carvalho, por cima do Café Canas. O assistente que nos dava as aulas, era o César de Oliveira. Ativo e nervoso, era um especialista do movimento operário e sindical do século XIX e da Primeira República em Portugal. Anos mais tarde, depois do 25 de Abril, César de Oliveira seria deputado e autarca e Joel Serrão administrador da Gulbenkian. Infelizmente, ambos já não estão entre nós. Ensinaram-me a compreender a história pelo lado social, da vida concreta e material das pessoas.

- Depois, na idade adulta pós-estudantil, muita coisa aprendi. De 1977 quando terminei o curso até 2012, assinalo 4 acontecimentos históricos vividos:

A) Acredito, tal como o futurista Hermann Khan previu em 1977, em The Next 200 Years, que além do setor primário, secundário e terciário da economia, o setor quaternário, da informação, continuará a ser o dominante motor da economia. A maior empresa do mundo em valor, a Microsoft, faz parte deste setor. A generalização da informática e dos computadores constituiu uma revolução económica e social. A economia digital substituiu a analógica. Qualquer dia, ainda este século, as máquinas serão mais inteligentes que nós. Nesse dia, ou nos conseguimos transformar ou estamos lixados.

B) A crise energética provocada pela escassez dos combustíveis fósseis, sobretudo o petróleo. Estamos já a dar os primeiros passos no início de uma viragem para formas de energia alternativas, nomeadamente energias renováveis e menos poluentes. Das “velhas energias” do século XX, apenas a energia nuclear se revela ainda competitiva. Tal como uma personagem de Júlio Verne afirmou, no século XIX, a energia do futuro são os gases contidos na água...

C) O estrondoso falhanço social, económico e político do socialismo e do comunismo na União Soviética e na China, e a adesão destes países à economia de mercado, ao capitalismo. Com esta alteração a economia capitalista globalizou-se, e num espaço de tempo muito curto, menos de 20 anos, centenas de milhões de pessoas saíram da pobreza e tiveram acesso a bens de consumo anteriormente exclusivos do Ocidente. Espetacular, o avanço material da humanidade.

D) A dificuldade do Ocidente até aqui hegemónico, em especial a Europa e os Estados Unidos, em manter a estrutura económica, política e social do tempo da Guerra Fria, e o seu declínio relativo face às novas potências económicas emergentes. De uma ordem mundial repartida entre 2 grandes blocos, estamos a evoluir para um mundo muito mais subdividido, multipolar, como hoje se diz.

Neste Verão, dois acontecimentos relevantes no âmbito da história:

1) A publicação pelo Expresso da História de Portugal coordenada por Rui Ramos. Cuidadosa e criteriosa.

2) O falecimento do Professor Hermano Saraiva, figura de reconhecido mérito e valor. Único e insubstituível. O melhor “In Memoriam” a Hermano Saraiva, foi o realizado por Marcelo Rebelo de Sousa na TVI. Foi condecorado pelo estado português (antes e depois do 25 de Abril) e pelo estado brasileiro. 

Foi a pensar em Hermano Saraiva, que redigi o texto deste artigo. As lições do passado servem o presente e o futuro. A História é importante.

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