sábado, 27 de outubro de 2012

Cultura, língua portuguesa e o multiplicador da felicidade.


Moradia de traçado português, Goa.
Travei um diálogo aqui há alguns anos, com um indiano vivendo em Goa, que me dizia adorar bacalhau com batatas, um manjar “delicioso e caro” em Goa. Onde arranjam o bacalhau curado? Perguntei. Disse-me que o importavam de Lisboa. Depois, vendo vários pastéis salgados na mesa, quis saber o nome que dávamos a um deles. Respondi serem chamuças. Informou-me que esses pastéis de origem indiana, eram designados pelo mesmo nome, na Índia. Embora durante esse almoço falássemos em inglês, compreendemos que os nossos laços históricos de séculos, tinham-nos influenciado mutuamente.
Esta influência recíproca é ainda maior entre povos, que não obstante apresentarem importantes diferenças, falam a mesma língua e partilham valores culturais comuns, como acontece no mundo lusófono e por isso, tornam-se mais fáceis os fluxos de pessoas, bens e serviços, os negócios, os investimentos, as notícias e as ideias.
Revista Monocle,
Outubro de 2012.
A atual pujança do Brasil e de Angola, o desenvolvimento de Cabo Verde, o grande potencial de crescimento de Moçambique, enorme país africano, de Timor e de São Tomé e Príncipe, a posição de Portugal como membro da União Europeia e do Euro, e o “interface” que é Macau, entre a China e o mundo lusófono, fazem despertar atenções e interesse para a língua portuguesa e para a CPLP(*), presente em todos os continentes.

A revista Monocle deste mês de Outubro, uma publicação inglesa de distribuição mundial sobre “assuntos globais, cultura e design”, traz na capa uma açoriana, um angolano e um brasileiro. O grande tema da Monocle, que ocupa o maior número das suas 258 páginas, é “Geração Lusofonia: porque é que o português é a nova língua do poder e do comércio”. Os artigos tentam explicar este fenómeno emergente: “os poderes lusófonos têm uma oportunidade de expandir a sua influência. O resto do mundo beneficiaria por um pouco de lusofilia. (...) É tempo de começarmos a aprender um pouco de Português.”

De Portugal e do Brasil a Moçambique, passando por Angola, a Monocle procura escalpelizar o mundo lusófono. A arquitectura de Siza Vieira e a da cidade de Maputo, o glamour, criatividade e bem-estar brasileiros (há muito tempo que o Brasil deixou de ser “apenas” samba, carnaval e futebol), o crescimento económico angolano e algumas das principais figuras culturais e empresas do espaço lusófono, muito é apresentado na revista. Por exemplo os Açores, são definidos como sendo possivelmente a zona do mundo “mais subavaliada e mais subaproveitada” e são propostas 10 áreas potenciais para o seu desenvolvimento.

Sísifo de António Carneiro. Figura de capa, de 
um livro crítico da vida política da I Republica, 
de Agostinho de Campos, 1924.
Está em todos nós a capacidade de aproveitar as oportunidades. A língua e a cultura dentro de cada um, são criadoras dessas oportunidades. A CPLP poderia criar uma biblioteca básica lusófona, de bolso, de custo baixo, com obras fundamentais da língua portuguesa, de todos os países da CPLP, com romances, contos e poesia, mas também história, geografia e arte. Cem livros chegariam. Por um custo de 2,5€ por livro, 100 livros custariam 250 euros. Por um milhão de euros, teríamos 4 mil destas coleções, para distribuir a zonas mais pobres e distantes, para espalhar por bibliotecas e escolas em toda a parte onde fossem necessárias e úteis e para pôr na internet. Seria um multiplicador de conhecimento, felicidade e oportunidades. Contribuiria para acabar com o imaginário castigo de Sísifo, que serve de ilustração aos pessimistas, como José Pacheco Pereira(**). O futuro pode ser assim um livro aberto, mas em português. Melhor que isto, só a emigração entre os países da CPLP,  porque as pessoas são sempre o melhor veículo para fortalecer o conhecimento mútuo e a interpenetração cultural e social.

(*) Domingos Simões Pereira, guineense, foi até há pouco tempo o Secretário Executivo da CPLP. Regressou ao seu país, deixando muitos amigos na capital portuguesa. Exerceu as suas funções de 2008 até Setembro de 2012, período durante o qual a CPLP se fortaleceu e prestigiou. Uma nota: é com pena que observamos os atuais problemas da Guiné-Bissau, mas temos por certo que os guineenses saberão encontrar o caminho do desenvolvimento. O novo Secretário Executivo da CPLP é o Embaixador moçambicano Murade Isaac Miguigy Murargy, a quem se desejam as maiores felicidades no exercício do cargo. 

(**) José Pacheco Pereira, além de participar no já clássico debate triangular semanal, hoje designado por "Quadratura do Círculo", herdeiro do saudoso "Flashback", é responsável por um dos meus programas preferidos da televisão portuguesa: "Ponto Contraponto" da Sic Notícias, aos domingos, pelas 21:30.

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