sábado, 17 de novembro de 2012

Bebedeira, ou nota autobiográfica de uma alucinação matinal.

Refoulement, 1936, de António Pedro.


Levantei-me hoje de manhã anormalmente bem-disposto. De repente, não havia injustiças nem crises nem guerras nem fomes, nada parecia ofuscar aquela inebriantemente benéfica sensação matinal.

Chovia e as árvores estavam mais verdes e a terra mais castanha, como se a natureza respirasse pelas cores, dando a sensação de um ar mais limpo e puro. Depois, estranhamente, ideias e  palavras começaram a surgir e a dançar na minha cabeça. Ideias e palavras, palavras e ideias. E faziam sentido, como se saídas de um livro. Tinha forçosamente de as escrever. Eram como um  grande poema da língua portuguesa, como uma Tabacaria do Pessoa ou uma Pedra Filosofal do Gedeão, não menos que isso. Sem saber donde me vinha a inspiração, já começara até a ler mentalmente o texto. 

Estaria a sentir aquilo que muitos escritores dizem acontecer? Uma voz interior a ditar-me o que escrever? Uma fonte e uma capacidade que eu manifestamente não tenho, nunca tive e não reconheço como minha. Mas a Voz agora elegera-me como veículo. Bastaria sentar-me e começar a escrever. Só as primeiras linhas seriam suficientes. Mas na verdade não, sabia que não seria assim. Quando me sentasse a Voz ditaria tudo de uma vez só, sem repetições. Teria de ficar horas ou mesmo dias dedicado à tarefa. Seria uma espécie de médium da literatura. Podia fazê-lo. Tinha a certeza. Um sábado, sem o dever da profissão e sem grandes compromissos. E porque não? 

A literatura é uma Arte, não está ao alcance de qualquer vulgar mortal. Eça afirmava que a via pela qual um ser humano pode tornar-se imortal e enganar a morte, é a Arte. Mais do que pela política e incomparavelmente mais do que pela riqueza. Ora aqui está. Eu tive logo pela manhã esta oportunidade. Uma espécie de euromilhões parecia ter-me caído dos céus. Estava em êxtase. Nesse instante de completa concentração, a minha mulher chamou-me porque ao sábado de manhã costumamos ir ao café. Fomos, e a bebedeira passou.

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