domingo, 11 de novembro de 2012

Meditações à sombra da Acrópole, de Augusto de Castro, 1949.


O Pártenon, na Acrópole de Atenas.
A Grécia tem uma história muito complicada de ocupação, resistência, lutas pela independência, guerras civis. É difícil em Portugal, país uno há mais de 8 séculos, excetuando um triste intervalo de 60 anos, percebermos um pouco desta forma de estar do povo grego. Augusto de Castro no seu livro “A Tarde e a Manhã” de 1949, procurou encontrar explicações para as quase permanentes dificuldades da nação grega.

"Dominada sucessivamente pelos Macedónios, os Romanos, os Godos, os Vândalos, os Eslavos, colonizada pelos Normandos, os Bizantinos, os Venezianos, quase completamente despovoada e povoada pelos Albaneses, curvada durante quase quatro séculos sob o jugo turco, a Grécia, apenas liberta da recente ocupação alemã e italiana, está dando novamente ao Mundo o trágico espetáculo das suas seculares divisões e da sua impotência nacional.

Estranho País, que passa a vida a bater-se heroica e inutilmente contra o estrangeiro, e que não soube encontrar numa vida duas vezes milenária a força de criar uma consistência nacional!
Dir-se-ia que esse País, glorioso e impotente, sofre dum excesso de história (...). O seu génio, turbulento e inquieto, arrasta-o periodicamente para uma espécie de delírio de imaginação, em que as suas energias se queimam. As suas cidades e as suas colinas, coroadas de oiro, por onde outrora passeavam os deuses e que Zeus e Apolo habitaram, parece sofrerem duma espécie de condenação mitológica.

Nas suas divinas praias, em cujas águas claras e tépidas se banhou a nudez de Afrodite, o Mundo antigo conheceu a graça e o esplendor de viver. Mas aquelas virtudes, fortes e luminosas, da medida, da proporção, da claridade, que Homero cantou e constituíram a doce alma helénica, herdeira do Olimpo, depressa se perderam na memória triste dos homens.
Ficaram grandes nomes- o Monte Parnaso, berço das musas, Corinto, o Peloponeso ou a ilha de Pelos, filho de Tântalo, Delfos e o seu oráculo, a colina do Himeto e o seu mel e Citera e os seus amores. Nas suas ruínas sagradas, nas suas grutas melodiosas, nos seus golfos de espuma, nos seus monumentos jónicos e dóricos, nos seus tesouros - da Acrópole a Rodes -, na imortalidade dos seus artistas, dos seus poetas, dos seus idílios e dos seus guerreiros, floresce ainda hoje a lembrança duma das Primaveras heroicas da Terra.
Os passos ardentes dos deuses, a poeira sublime das pedras, a espada de Alexandre, os ecos dos aedos e de Demóstenes, os frisos do Partenon, Fídias e Praxíteles, Ésquilo e Sófocles, não bastam, no entanto, para constituir uma Pátria.

Há povos, como há homens, que têm a vertigem do suicídio. A Grécia é um deles."

Será que existe algum tipo de idiossincracia (para usar uma palavra de origem grega) ou um fado (para usar uma palavra bem portuguesa) das nações, estruturante das suas escolhas e opções, que as empurra a cometerem sempre erros semelhantes ao longo de vários séculos?

Esta questão remete-nos para a atual situação portuguesa e para as comparações entre o regime saído do 25 de Abril, o período da Monarquia Constitucional e a 1ª República, períodos durante os quais o Estado Português também foi incapaz de gerir as suas contas com responsabilidade, endividando-se até não poder mais. Como cantava Dulce Pontes em Lusitana Paixão “não quero o que o fado quer dizer”. Ora, se não quisermos mesmo a sério, isso não será fácil, como temos vindo a verificar.

Por uma vez, que os Deuses protejam a Grécia e Portugal.

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