domingo, 2 de dezembro de 2012

Conto de Natal – "O Vilaguicha" de Bento da Cruz – Primeira parte


Bento da Cruz
Um dos escritores que melhor retrata a desaparecida vida nos campos, quando 80% da população portuguesa aí vivia, é Bento da Cruz. É um notável escritor transmontano, de uma autenticidade, que só o sei comparar a Torga ou a Aquilino. Por ser médico, a edição de Contos de Natal do laboratório português ILF-Instituto Luso-Fármaco, de 1968 [ver Nota Final], incluía uma pequena pérola do seu livro “Contos de Gostofrio” que aqui reproduzimos em duas partes. Gostaria que este texto pudesse contribuir para despertar maior curiosidade sobre a obra literária de Bento da Cruz, apesar da reedição da sua obra e de vários e importantes prémios lhe terem sido justamente atribuidos.

Após uma ausência de largos anos, eu regressava à minha terra sem nada para oferecer ao espanto dos patrícios: nem carro espampanante, nem malas cravejadas de amarelo, nem aves exóticas, nem sotaque estrangeiro, nem sequer mais gordo. Além disso, o meu feitio misantropo tinha piorado com os invernos e não me permitia grandes relatos sobre as terras por onde andara nem sobre as gentes que vira. Perdera também a faculdade de abrir a boca perante a beleza dos filhos, a gordura das vacas e o aumento da fazenda dos meus companheiros de infância. De modo que estes, desiludidos, concluíram que eu regressava pobre ou doente, e, a pouco e pouco, foram-me voltando as costas. Entretanto eu reconhecia que fora engodado pela saudade do paraíso perdido e que viera ao encontro duma ilusão. A casa de meus avós desfizera-se, os meus parceiros de aventuras tinham envelhecido e até a paisagem era outra: beirais de telha, luz elétrica, rodovia alcatroada, a floresta e a barragem. Portanto só me restava um caminho: arranjar as coisas e partir de novo. Antes, porém, teria de honrar a memória de meus pais, colocando-lhes uma cruz na sepultura. Com esta ideia, dirigi-me a Fontefria para pedir licença à junta da paróquia e conselho ao abade.

Estava a percutir a aldraba da residência, quando uma velha, que ia passando embiocada em burel, informou, sem deter o passo nem olhar para o meu lado:
— Não está ninguém. O abade e a irmã foram consoar com a família à terra deles.
Ouvindo, olhei por mim abaixo e vi como estava só neste mundo: nem dera pelo dia de consoada! A primeira reação foi esconder-me num buraco; depois arranjei coragem para bater ao ferrolho do presidente da junta: tinha ido ao comboio pelo filho soldado.
— E vem hoje?
— Ai sim! Contamos com ele à tardinha. Se quer esperar suba. Toma qualquer coisa.
— Obrigadinho. Volto mais logo.

Refugiei-me no adro: igreja fechada, sinos mudos, acácias tristes: e fiz novena até adormecer em lucubrações especiosas. Acordei com o barulho dum carro e fui ver se era o presidente. Era e estava alegre. Mandou-me entrar, fez-me perguntas engraçadas, que não vou agora repetir, obrigou-me a comer guloseimas de natal, que eu hoje repetiria da melhor vontade, e deferiu o meu requerimento democraticamente: havia a esse respeito um acordo tácito entre os paroquianos: desde que um deles colocasse uma campa ou um jazigo no cemitério, os outros respeitavam-lhe a propriedade. Fizesse o mesmo. Invocando o receio da noite, levantei-me e saí com mais um copo e mais uma filhó para a despedida e mais uma e outro para o caminho.
 Apesar da petisqueira, ou talvez por isso mesmo, vinha triste. E, como sempre que a tristeza toma posse de mim, recorri ao sonho e às recordações infantis. Mas, naquela hora de lusco-fusco emoliente, esse remédio, no geral doce e eficaz, amargou-me: quando um homem começa a ter saudades da infância, é sinal de que está velho! Suspirei. E no mesmo tom, à laia de consolação, respondi: bem velho me parecia o Vilaguicha e ainda está vivo! O Vilaguicha... E se lhe fizesse uma surpresa?

Neste propósito (quem sabe se a minha visita não será para ele a melhor prenda de natal?) deixei o atalho que de Fontefria segue pelas touças e meti pelo carreiro de Penas-Covas. Quantas vezes eu ali passara em garoto! Saía de Gostofrio ainda com o sol em casa do diabo mais velho, e, a cair de sono em cima da albarda, choutava por montes, aldeias e vales, até ao Couto de Ervededo, onde entrava com ele a pino. Comia o farnel sob a telha protetora do Braguês, o qual, de tarde, ia comigo ao Cambedo pelos pimentos. Regressávamos ao Couto com o sol posto. E, no dia seguinte, ainda com a estrela da manhã à janela do céu, ordinário, marche! Para Gostofrio. Isto duas vezes por semana, enquanto durassem os trabalhos do verão e os pimentos do Cambedo dessem para o tabaco do meu avô e o cafézinho da minha avó.

Ora uma bela manhã alcancei, aí por alturas de Pedrário, um sujeito a cavalo dum asno. Se as costas abauladas nada me disseram, mal se voltou à minha saudação, reconheci-o logo pela cara sombreada de malícia: o Vilaguicha de Penas-Covas, tipo célebre nas redondezas pela ralé de traficante e pelas histórias que dele se propalavam a respeito de fêmeas e contos do vigário. Para onde vais, quem és, quem não és, mal pronunciei o nome de meu pai, o rosto do figuro iluminou-se, estendeu-me os braços e ali me jurou pelas Três Missinhas do Natal, a que nunca faltara durante os cinquenta e muitos anos que já lá tinha, ser o senhor meu paizinho o cavalheiro mais honrado deste mundo e o seu, dele Vilaguicha, melhor amigo. Estas palavras calaram-me tão fundo no amor-próprio, que acertei o passo do rocinante pelo do burro. E em boa hora o fiz. Continuando jornada lado a lado, o Vilaguicha falou-me de coração nas mãos, fez-me ver o desperdício de tempo e ferraduras com a volta pelo Couto, havendo caminho direto Meixide-Cambedo, o risco das quixotadas do Braguês através de pinheirais estranhos espatifando as tigelas da resina a golpes de bengala espanhola, e pôs-se ao meu inteiro dispor para tudo o que desse e viesse. Embora gostasse muito do Braguês e da aventura constante que era viajar com ele, não resisti às palavras do Vilaguicha: segui-o. E ainda bem. Pelo menos pude ver naquele dia o génio do negócio, a arte de marralhar até conseguir o melhor artigo por dez reis de mel coado. Mas isso não me livrou das garras da comadre do Braguês, a qual me impingia os pimentos por aquilo a que ela chamava o preço corrente e a que eu hoje chamo roubalheira. Creio que lho chamei logo naquela tarde, quando, já de regresso, perguntei ao Vilaguicha a como tinha comprado e ele me respondeu com a lisura correspondente à nossa recém-nada camaradagem: a vinte e cinco tostões (o cento). Rubro de cólera e vergonha, tive de lhe confessar que os pagara a cinco e quinhentos.
— Para a próxima, já te não enganam. Deixa isso comigo.

E o homem punha nas palavras acentos paternais. Não me recordo bem se esta prática teve lugar antes, durante ou após a merenda. Mas estou a ver o ribeiro, a sombra das árvores e a sofreguidão do Vilaguicha perante a abundância e a variedade do meu farnel — tínhamos feito a malhada no dia anterior e minha mãe aviara-me o alforge com amostras do banquete oferecido aos vizinhos. Por sorte o meu companheiro era bom apreciador de leitão e cabrito, e nada amante de filhós e rabanadas. Por isso ele comeu as carnes e eu os doces. Do meu alforge saiu ainda um cantil de meio litro para compor o estômago e umas uvitas para cortar a azia, estas, oferta da comadre do Braguês, de certo contrapeso de consciência por iludir uma criança.

De novo a caminho, o homem deitou-me paternalmente o braço à volta do pescoço e, entre arrotos e baforadas de tabaco de onça, jurou-me, pelas Três Missinhas do Natal, amizade para a vida e para a morte — e prometeu fazer de mim o melhor negociante de pimentos de todo o Barroso, palavras que, na altura, me comoveram. Entretanto entrávamos Soutelinho dentro e o Vilaguicha, esquecendo-me por completo, adiantou-se aos gritos no meio da rua: eh! Pimentos! São melhores do que vitela, filhas! Sabem a galinha, amores! Pimentos, quem mais quer? Estão a acabar...
As donas de casa acorreram ao pregão e o almocreve, entre chalaças picantes e grandes risos, despachou parte da mercadoria. De Soutelinho a Penas-Covas atravessávamos ainda sete aldeias e duma para a outra a popularidade do Vilaguicha ia crescendo à medida que os pimentos diminuiam. Estes acabaram-se-lhe em Fontefria. E então, homem honrado! começou a vender os meus. Dessa hora em diante, fomos companheiros inseparáveis no trauto [o mesmo que trato] dos pimentos e dos figos.

[Fim da primeira de duas partes deste conto]

Nota Final: 
Em outros anos temos vindo a publicar Contos de Natal do ILF. Fizemo-lo com um conto de Mário de Menezes e outro de Frederico de Moura.

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