sábado, 8 de dezembro de 2012

Conto de Natal – “O Vilaguicha” de Bento da Cruz – Segunda e última parte


Capa dos Contos de Natal ILF de 1968
A segunda e última parte do conto de Bento da Cruz sobre o “Vilaguicha”. Procurei o possível significado da alcunha “Vilaguicha”. Um “guicho” pode ser um miúdo arisco e vivaço, mas também pode ser uma planta viçosa e direita. É uma alcunha que não deixa de ser distinta para quem parecia ter algum sucesso comercial. Pelo menos para o narrador, seu jovem companheiro, o almocreve teria “génio para o negócio".

Cheguei a Penas-Covas à horinha da ceia e as raras pessoas que vi corresponderam à minha saudação com evidente curiosidade e maior desconfiança. O breve espaço de abrir e fechar a porta entremostrava, nas cozinhas térreas, cabeças lambidas pela chama da lareira à volta da mesa farta com os manjares tradicionais: o polvo, o bacalhau em molho de ovos e azeite, as rabanadas, a letria, os bolos caseiros. Para este povinho debulhado por fome crónica, o Natal é o dia de tirar a barriga de misérias, a festa do ano que o estômago das crianças recorda sempre de água na boca: isto ou coisa parecida era o que eu pensava, chapinhando na calceta irregular. Lembrei-me também do pau-de-natal, um tronco de carvalho brinho [não consegui descobrir o que significa “brinho”] que se põe ao lume durante a consoada e depois, ano fora, quando o trovão ribomba. Quis ainda reconstituir a história dum pecador apanhado no laço do Inimigo e do qual se desprendeu gemendo: «Valham-me as Três Missinhas do Natal!» «Foi o que te salvou!», mas não acabei, por ter chegado ao cardenho do Vilaguicha, no limiar de cuja porta escancarada me detive. Dentro, a luz duma vela tiritava nos braços da cruz de alumínio ereta num monte de torgos camuflados por toalha de estopa e duas velhas recobriam um leito muito baixo com os restos duma colcha branca de ramagens. Percebi logo o cerimonial: preparavam o tugúrio para a visita do padre. — Deus seja aqui.

As mulheres voltaram-se de repenão e uma delas galhofou:
— E o Diabo em casa do abade.
— Entre.
— Não repare...
— Oh, minha senhora, eu também sou do Barroso...
— Ai então sabe o que isto é... não estranha...
Um Vilaguicha apenas reconhecível pelas sombras de malícia esbatidas no rosto deformado, jazia de costas entre duas mantas surradas.
— Eh! Vilaguicha duma figa, como vai isso?
— ?
— Pois já não me conheces, parceirinho de lei?
Entretanto uma das velhas identificara-me e berrou à orelha do moribundo:
— Olha o teu amigo de Gostofrio! Não te lembras dele?
A máscara do velho contraiu-se num sorriso de eterna felicidade.
— Julga que é o filho! ora reparai! Louvemos ao Senhor...
Eu andava de luto e o Vilaguicha fitava-me chorando com alegria.
— Então?
— Vai lá por dez tostõezinhos de aguardente ao teu pai, que te deu o ser...
Consolava a radiante expressão de felicidade e malícia daquele rosto hemiplégico.
— Vai lá buscar dez tostõezinhos de aguardente ao teu pai... que te fez homem!
— Está bem. Eu vou. Aguenta só um bocadinho.

Fugi para a congosta de olhos marejados, aos tropeções nas pedras. Era aquilo! o meu alegre companheiro do trauto dos pimentos e dos figos. Julga que é o filho...
Ao princípio, quando o Vilaguicha se descobria perante as largas fachadas e exclamava, em êxtase: casa de padre! Julguei que o fizesse por devoção aos ministros do Senhor que lá moravam. Mas depressa dei conta de que o meu alegre companheiro e mestre tinha a mesma exclamação babada sempre que via ou se falava do gado, ou das terras, ou da gente de casais onde, naquele tempo, não havia padre nenhum. Mas onde houvera! E descobri então duas coisas patuscas: que a reverência do velho bufarinheiro se dirigia, não à pessoa dos senhores abades, mas à riqueza dos mesmos; e que todas as casas mais abastadas do Barroso eram ou tinham sido propriedade dum membro do clero. E, com a ladinice dos verdes anos, ia puxando conversa:
— Há na minha terra uma casa muito rica!
— A do Cruzeiro? Bôh! Casa de três padres! Conheci-os eu, feros e cevados. Três abades a juntar num monte... Que riquezas não haverá daquelas portas a dentro: ouro, prata, limpeza, mobília... É a casa mais farta de que tenho memória! Só em lameiros? As vacas, nem que pastassem um por dia, lhe dariam volta num ano. E terras de semeadura? Bem zelada, era casa para colher para cima de três mil alqueires. É um reino...
— Quer não que a da Eira não lhe fica atrás.
— Também é boa, também! Casa de padre! O senhor padre Elias, abade colado de Penas-Covas. Senhor de três missas! Juntou muito dinheirinho, esse homem! Contava as libras com uma rasa! Dizem... que eu nunca vi. O que posso garantir, é que deixou os filhos cheios como colmeias.
— E o Barroso?
— Ai o Barroso comeu o pão que o Diabo amassou para ordenar o padre Cosme. Mas hoje não lhe falta nada! É um fidalgo...
«Aposto que vais mandar o filho para o seminário...»

Original dactilografado de Contos de Gostofrio
da biblioteca de Pacheco Pereira
O ambiente da taberna arrefeceu com a minha presença. Mas perante a jarretice dum: avie-me aí um quartilho de aguardente: o diálogo recompôs-se. Falavam do padre Vilaguicha. Uns acusavam, outros defendiam o homem como sacerdote. Mas todos eram unânimes em condená-lo como filho ingrato.
— Não traz garrafa?
— Não. Mas talvez o senhor me possa arranjar uma?
O taberneiro demorou. Entrementes, ouvi coisas espantosas.
— Não me venham com água benta! O triste Vilaguicha passou as passas do Algarve: fomes, trabalhos, doenças, vergonhas... Por último, nem segurava as urinas... E para quê, digam-me lá? Para ordenar um malandro, que já em seminarista se envergonhava do pai.
— Que se metia nojo aos cães, era para trazer o menino asseado...
— E se abusava do golito, tinha boas razões para o fazer...
— E, mal se apanha de coroa e missa, abandona o velho entrevado numa enxerga e safa-se para o Brasil. Há direito?
— Toda a ambição do Vilaguicha era um filho padre!
— Sucedeu-lhe como o que cevou e não matou...

Deixei a tasca perturbado. Eu não conhecia o jovem padre Vilaguicha, filho serôdio e único do meu velho parceiro do trauto dos pimentos e dos figos. Mas ainda me lembrava da primeira vez que o Vilaguicha pai, pelas férias do natal, pouco antes de eu embarcar, entrara festivamente em Penas-Covas com o seu estudante em cima do burro engrinaldado de colcha branca — a mesma com que, nesse dia, as velhas alindavam o catre imundo. Recordava o garoto inocente no fatinho escuro e absolvia-o de todas as faltas de que na praça era acusado. Sursum corda! [da liturgia em latim do Missal Romano significa “corações ao alto!”] Um moço capaz de vencer a muralha de preconceitos erguida à volta da sua juventude por três lustros de seminário e dois milénios de cristianismo, de calcar aos pés o terror aos superiores, a maledicência farisaica, e, principalmente, as ilusões do velho pai, valia bem um presépio alumiado por uma estrela e um cântico de esperança dirigido pelos anjos do céu aos homens de boa vontade. Hossana ao padre Vilaguicha, redentor de si mesmo! — gritei em pensamento, onde, alegres, se puseram a bailar algumas interrogações: e o ar feliz do velhote? Teria, finalmente, o meu antigo parceiro descoberto a vaidade e o pó das grandezas deste mundo? Teria, afinal, compreendido que o filho escolhera o melhor caminho? A luzinha de entendimento, que persiste em tingir-lhe o rosto de malícia, não estará agorinha mesmo a interrogar-se: quantos dos abades, cuja riqueza tanto cobicei, terão chegado à hora derradeira com a minha tranquilidade e com apenas um desejo: dez tostõezinhos de aguardente para a viagem?
Neste ponto, meti a galope, de garrafa estendida.

Eu a entrar em casa do Vilaguicha e as duas mulheres a debruçarem-se para o catre, muito surpreendidas:
— Como um passarinho...
— Que morte santa!
— Parece tão feliz...
— Este ano foi ouvir as Três Missinhas do Natal ao céu...
Debrucei-me também: na verdade, o rosto sombreado de malícia do meu velho amigo tinha reflexos de bem-aventurança.

Do livro «Contos de Gostofrio»

[Fim da segunda e última parte do conto]

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