sábado, 26 de janeiro de 2013

Lendo Poesia sem terra à vista


O que procuramos ao ler poesia? Procuramos a estética, uma qualquer beleza no texto e nas rimas; procuramos a música silenciosa do ritmo das palavras; procuramos a imagética criativa das metáforas e da fantasia; procuramos a inteligência dos raciocínios ou o brilhantismo de uma conclusão inesperada; procuramos por vezes sensibilizar-nos apenas com a expressão de um estado de alma. Não damos o nosso tempo por perdido porque há qualquer coisa de dádiva na poesia, como em todas as artes, e por um qualquer mecanismo ou magia, elas são capazes de nos enriquecer.

Creio que ninguém consegue conceber a história e a vida humana sem Arte. Especificamente a poesia, tem uma carga de intimidade que não acredito que a prosa consiga atingir, e talvez por isso, Eugénio de Andrade (poeta, 1923-2005) escreveu que “o ato poético é o empenho total do ser para a sua revelação”(1) .  Mas deixemo-nos de tentativas de explicação e vamos aos poemas.


Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)















PRECE 
(Adolfo Casais Monteiro)

A máscara ri ou chora,
O ser olha, e impassível,
Deixa cair sobre tudo
Um olhar que diz:
Não importa.

Olhos de aflição
Querem fingir um sorriso,
Calar ao menos a mágoa
Não aflijam alguém...
O ser olha, e só murmura:
Não importa.

Senhor!
Dai ao meu ser interesse,
Por grandes, pequenas misérias,
Da minha vida real!
Dai-lhe ódio, amor, piedade,
Crueza, ternura – vida!
Não deixeis que eu assim viva,
Tendo em mim um indiferente
De tudo sempre distante!

O poeta pede a Deus que lhe dê sentimentos, que o façam mudar da sua posição de frieza, de quem não se está para ralar e ser incomodado com os problemas dos outros, para que esteja mais integrado na vida (dos que estão) à sua volta. O poema seguinte, corresponde, de alguma forma ao problema oposto, de quem se sente preocupado com tudo em demasia.


Olavo d'Eça Leal (1908-1976)














VAMOS ANTES A PARIS 
(Olavo d’Eça Leal)

Quem me dera ser simples e vulgar,
Pensar como o vizinho merceeiro...
Juntar no Montepio algum dinheiro
E fazer-me por todos respeitar.

Normal no porte, feio e regular,
Ter casa própria já, com jardineiro...
Vazio de ilusões, e bom caixeiro,
Ensinar o meu filho a continuar...

Assim envelhecer devagarinho,
Perfeitamente parvo, mas feliz,
E certo de seguir por bom caminho.

Dirás leitor: “a quem você o diz!
Beber também eu queria desse vinho...”
- Não bebas... vamos antes a Paris!

Este desabafo sentido, dá mesmo vontade de ir a Paris. Mas esse merceeiro será assim tão parvo e não terá nenhum valor? No fundo, se calhar, acabamos por ter de dar razão a Miguel Torga no poema seguinte, e ter de olhar para tudo com mais simplicidade. É com coisas pequenas que se constroem as grandes obras.


Miguel Torga (1907-1995)














BUCÓLICA 
(Miguel Torga)

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra duma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

E assim vou navegando na noite fria dum sábado chuvoso, de poema em poema, sem terra à vista. 

(1)    Os Afluentes do Silêncio, Eugénio de Andrade.

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