domingo, 10 de fevereiro de 2013

Descobrindo Cecília Meireles II – Paradoxal


"Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade."
Cecília Meireles

Cecília Meireles
Parece existir bastante coerência quando se diz, e ela própria o afirma, que em muito da sua vida e dos seus escritos, subsiste frequentemente a noção da transitoriedade da vida. A morte prematura dos pais, colocaram-na desde muito cedo perante essa dura realidade. O seu misticismo religioso que comentámos na passada semana, complementa este dualismo de uma vida curta e de uma alma eterna. Mas o paradoxo emerge, quando nos apercebemos que Cecília não aceita completamente o facto de a vida ser curta como é. Não lhe parece ser justa esta tão grande limitação. Vejamos por exemplo em “Viagem”, que interpreto como a viagem do ente espiritual pela vida terrena, marcada por 13 epigramas, que funcionam como um tic tac de relógio que marcam o tempo da vida do princípio ao fim.

O "Epigrama nº12", o penúltimo antes do final, lamenta a inexorável passagem do tempo que põe termo à vida:

A ENGRENAGEM trincou pobre e pequeno inseto.
E a hora certa bateu, grande e exata, em seguida.

Mas o toque daquele alto e imenso relógio
dependia daquela exígua e obscura vida?

Ou percebeu sequer, enquanto o som vibrava,
que ela ficava ali, calada  mas partida?

No poema “Feitiçaria” da mesma “Viagem”, só mesmo um feitiço poderia fazer parar o tempo, evitando Caronte e as Parcas (ou seus imitadores).

Não tinha havido pássaro nem flores
o ano inteiro.
Nem guerras, nem aulas, nem missas, nem viagens
e nem barca e nem marinheiro.

Nem indústria ou comércio, nem jornal nem rádio,
o ano inteiro!
Nem cartas nem modas. Tudo quanto havia
era o feitiço de um feiticeiro
que toldava o mundo e melancolia.

Chegaram agora pássaros e flores,
e de novo guerras, aulas, missas, viagens,
e marinheiros com remos e barcas
vêm saindo lá do horizonte.

Brotam de novo antigas imagens
das coleções de fotografia...
- moços com roupas de Caronte
e meninas iguais às Parcas.

Por isso é que se tem saudade
do tempo da feitiçaria.

E é devido a este paradoxo que Cecília Meireles encarna aquilo que acho mais sentido na sua poesia: o seu profundo humanismo.

O CICLO DO SANGUE. Óleo de Margarida Cepêda.




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