segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Descobrindo Cecília Meireles I – Mística


Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901 e faleceu com cancro, ainda relativamente nova, em 1964. Estamos a falar de uma das maiores figuras das letras brasileiras e da língua portuguesa de sempre, que em consequência, é justamente uma das grandes poetisas do século XX.

Darcy Damasceno na introdução de Obra Poética de 1958, explica a evolução e os cambiantes da multifacetada poesia de Cecília Meireles. Mas o que primeiro me chamou a atenção, diz respeito à carga espiritual e mística, da sua poesia. Por exemplo no famoso poema “Noções”, onde Cecília procurando a sua essência, pressente a própria alma:

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efémero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...

Ela atribui uma função específica a esse outro ser espiritual. Descubro essa função espiritual, por exemplo neste pequeno poema de “Viagem”.

 Epigrama Nº11

A VENTANIA misteriosa
passou na árvore cor-de-rosa,
e sacudiu-a como um véu, na sua mão.

Foram-se os pássaros para o céu.
Mas as flores ficaram no chão.


O amor como sentimento apenas humano, não espiritual, é aqui relativizado e minimizado, num triste desabafo:

INSCRIÇÃO NA AREIA

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

Mas nesta outra poesia sem título, de SOLOMBRA (ver Nota no final), o amor, se no campo espiritual e liberto das amarras materiais, renasce:

Quero uma solidão, quero um silêncio,
uma noite de abismo e a alma inconsútil,
para esquecer que vivo - libertar-me

das paredes, de tudo que aprisiona;
atravessar demoras, vencer tempos
pululantes de enredos e tropeços,

quebrar limites, extinguir murmúrios,
deixar cair as frívolas colunas
de alegorias vagamente erguidas.

Ser tua sombra, tua sombra, apenas,
e estar vendo e sonhando à tua sombra
a existência do amor ressuscitada.

Falar contigo pelo deserto.

Nota:
Perdoem-me todos aqueles que opinarão de forma contrária, mas para mim, humilde leitor não-especializado, “solombra”, em Cecília Meireles, não é, como já li, a dicotomia entre por um lado o sol ou a luz e por outro a sombra, mas apenas “sombra”, uma sombra individual, pessoal, ensimesmada. Então porquê “solombra” e não apenas “sombra”?  Porque “solombra” é uma sombra solitária, exclusiva de si própria, é o espírito/alma. (Para uma interpretação da etimologia das palavras “sombra” e “solombra ou selombra”, ver por exemplo o que diz o professor Fernando Rodrigues de Almeida no seu blogue “O Outro Lado da História”, aqui)

SOU ENTRE MIM E MIM O INTERVALO*. Pintura de Margarida Cepêda.
(*) Citação de Fernando Pessoa


















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