domingo, 7 de abril de 2013

A doença de Davos

Antero de Figueiredo


Observar a doença de raiz económica do dólar e do euro, agravada pelas barbaridades financeiras, fez-me lembrar um texto sobre Davos, Suíça, de Antero de Figueiredo (1866-1953) do livro “Recordações e Viagens” de 1905.
Davos foi uma conhecida estância suíça de sanatórios para tratamento de tuberculosos durante os finais do século dezanove e a primeira metade do século vinte. Tendo Davos por ambiente, Thomas Mann escreveria a sua obra-prima “A Montanha Mágica”, talvez o melhor romance do século passado.
Antero de Figueiredo conheceu bem a Suíça, onde viveu com a sua segunda mulher. Antes disso, Davos já não lhe seria desconhecida, pois pelo menos o seu amigo António Nobre tinha estado lá em tratamentos, poucos meses antes de falecer. Nos nossos dias, Davos é a sede do World Economic Forum, a mais importante reunião anual a nível mundial onde se discutem os problemas económicos. Faz com que pareça que a velha doença de Davos se propagou à economia.

Davos-Platz
por Antero de Figueiredo
[Notas entre parêntesis retos da responsabilidade deste blogue]

Como na «Lucrécia Bórgia» [ópera de Donizetti], alguém poderá clamar do alto desse vale:
«Estais todos envenenados!»
Todos! Uma população inteira de três ou quatro mil almas — de três ou quatro mil doentes! Há os doentes ricos, cercados de conforto, a quem nada falta; mas há também os doentes pobres, que trabalham para servir e distrair esses doentes ricos. O alfaiate que prova o fato vai ajeitando o pano ao corpo do freguês, e tossindo; a modista de vestidos sabe, por experiência própria, que tem de enchumaçar nas covas das clavículas a blusa que talha; o farmacêutico avia receitas e aconselha, com conhecimento de causa, os remédios preferidos; e médicos há que consolam os doentes, a quem de um dia para o outro subiu bruscamente a temperatura, mostrando-lhes o assustador boletim na sua própria febre!
«... todos envenenados!»
O dono do hotel, o merceeiro, o homem do estanco [tabacaria], o barbeiro, o livreiro, a florista foram estabelecer-se aí, quando já não podiam lutar com o ar podre das cidades, onde os seus pulmões começaram a adoecer; para as repartições públicas vieram, a pedido, empregados de cara assobiada e peito cavado; e nos postigos dos Bancos, ao trocardes vossos cheques, servir-vos hão dedos hipocráticos folheando notas, tamborilando no dinheiro! Servidos e servidores — todos doentes! Nesta comédia da Morte, os que representam no palco são espetadores dos que na plateia os vêm representar. Todos andam combinados para essa ilusão: os hoteleiros, inventando divertimentos que disfarcem tristezas; a luz intensa, bebendo as sombras das faces encovadas; e o ar da montanha, vivo e extremamente seco, cobrindo a todos com a máscara rosada da saúde, para que ninguém se reconheça e se desestime nesse fúnebre carnaval!

Imagem de carta de António Nobre para
Antero de Figueiredo
Todos os anos sobem aí milhares de pessoas, que vão fazer a estação de cura, ou acompanhar seus doentes. Esses são os que se divertem como amadores fotográficos, parceiros do «tennis», do «croquet», das excursões ao Frauenkirch, à garganta de Fluela, ao planalto de Clavadel, a Kloster-sche-Stütz, ascensões que se repetem depois da queda das neves, aproveitando o declive para o escorregamento vertiginoso do «toboggan», do «bobsleigh» e do «skeleton», que, com a patinação no lago gelado de Davos-Doerfli e no Curverein, são os desportos prediletos dos estrangeiros. Logo que chegam — ingleses, russos, espanhóis, suecos, de toda a parte — procuram as relações feitas no ano anterior, para repetir, ao ar livre esse programa de divertimentos, que um ou outro amoroso altera, preferindo a tais correrias enlanguescer, enamorado, entre uma chávena de chá preto e uma frase de música clássica, à tarde, nos cantos amáveis dos jardins de inverno dos grandes hotéis. Também os doentes, ao chegar, perguntam pelas pessoas amigas com quem, no último inverno, fizeram relações, se fotografaram em grupo e confidenciaram tristezas... Alguém, então, informa: Miss *** falecera, um mês depois de haver deixado Davos, numa aldeia perto de Bristol; aquele francês, que usava um grande casaco de peles e se sentava à cabeceira da mesa do meio, morrera de uma prolongada hemoptise em seguida a uma ascensão nas montanhas de Méran; Mr ***, engenheiro belga, morto; também havia falecido aquela senhora polaca, que patinava lindamente, sempre enlaçada num rapazola ruivo, seu patrício e talvez seu noivo; o holandês dos olhos verdes, muito sufocado pela tosse, e que à noite era parceiro certo ao «ramse», morrera, em Abril, em viagem para o seu país; Madame ***, cabelos brancos, cujo fino sorriso prendia, e fora no inverno passado a organizadora da comissão de benefício da igreja católica de Davos, viu morrer sua filha, a quem ternamente acompanhava, e falecera também em Paris, havia pouco; e de outros sabe-se, vagamente que foram morrer para as suas terras!...; e nesses grupos fotográficos, tirados em passeio, vão rareando os vivos! O doente ouve, cala, e, com o coração oprimido, levanta-se de onde está, para ir esconder dos outros os seus olhos rasos de mágoas; mas como a tosse lhe arranha a garganta e gorgoleja no peito, põe-se também a ocultar a tosse, como ocultou as lágrimas!
Fora, a neve cai no ar mudo; e as árvores imóveis sofrem, resignadas, esse castigo lento que lhes sufoca a vida e a frescura de seus ramos verdes. E o doente não tem para que apelar: o céu é de cinza, a terra, estrangeira, e tudo, à volta de si, impregnado de tristes apreensões!

No entanto, quem às seis horas da tarde entrar nas salas de jantar desses grandes hotéis «Kurhaus» e «Belvedere», onde se assentam duzentos hóspedes, representantes de quase todas as nações do mundo, não se põe a considerar que eles estão ocupando lugares que nos últimos cinco ou seis anos foram ocupados por pessoas que, na maior parte, já não existem; pois as risadas e o burburinho de conversas alegres logo afastam de tais considerações e tristezas. Mas como essa alegria deve magoar certos doentes, nostálgicos da pátria, nostálgicos da saúde que outrora os enchia de riso! E esse quarteto, gargalhando Offenbach, entre dores, é como uma charanga que tocasse numa enfermaria! Por isso, bem fazem os doentes, fugindo para os terraços e para as galerias — largos eirados abertos ao ar livre, que há em todos os sanatórios e hotéis, para se apanhar sol e respirar o ar puro da montanha. Desde que o sol desce ao vale, pelas dez horas no mês de Fevereiro, até que se esconde por detrás do Schatzalp, os terraços e as galerias estão sempre cheias de doentes deitados em cadeiras de verga e cercados de almofadas, de mantas e de esquentadeiras que os aconchegam e defendem do frio intenso. Uns leem, alguns conversam, outros dormitam. Que de sonhos andam no ar! Ai de quem está só!... Noivos rasgam o céu com súplicas, porque Iá na sua terra uma noiva espera. Mundanas, vindas da folia que lhes laivou de morte a face linda, gritam, impacientes, pela saúde, porque Paris excitantemente as chama. Rapazes, que começam agora a viver, e quase não acreditam que a vida lhes falte, instintivamente elevam os braços à saúde. Velhos, contando os anos pelos dedos, só pedem os precisos para terem tempo de arranjar a sua vida e dispor o que lhes falta. Príncipes, herdeiros de um trono, desceram do norte e pousaram aí a sua tenda, como também essa desbotada princesa, que desde menina ouviu que um dia seria rainha! Oh, se a saúde se comprasse a peso de oiro ou a troco de vossas joias... preciosa noiva a quem o sol dessas montanhas não quer colorir a face, que, decerto, não será um dia beijada pela boca de nenhum rei, porque dizem ser de mau agoiro vir a neve desfazer-se nos cabelos quentes de alguém que dorme, e houve quem visse que os ventos, das bandas do Tirol, traziam pelo ar até vós farrapos de neve caída dos braços nus das árvores deste vale! Agoiro! É a hora dos presságios que empolgam as almas despercebidas na tibieza das irresoluções. Não há ateus nos terraços dos doentes; os que o foram sentem agora delinear-se no cérebro a imagem do Deus que o temor inventa!

Em volta, a neve branca estende-se desde o fundo do vale, pelas encostas, por sobre a rama dos pinheiros alpestres, alastrando--se até o céu, que no recorte dos montes desmaia em leite, como nos céus de Corot [pintor francês famoso pelos seus quadros de paisagens]. A neve abafa todos os sons e pára todas as alegrias: não ri pelo ar um canto de ave, as árvores do vale são sempre outonais, e tudo é gosto desfeito nesta paisagem, que tem o sorriso doloroso do médico amigo, a animar com esperanças o doente de quem já antemarcara a hora derradeira!
Vai esmaecendo a luz do dia, como cai a conversa de dois velhos, após longas recordações que os emudecem... Algumas nuvens, poucas, formam o poente, lívido e frio, de onde começa a soprar uma viração aterradora. As tendas levantam-se, os terraços e as galerias ficam varridos, e pelas sendas de neve, que descem nos montes de ao redor, veem fugindo os doentes, como se a essa hora uma pavorosa ave negra, de fúnebres asas, nascida da tinta crepuscular, passasse por aquele canto da terra, em busca de olhos humanos, para lhes beber a vida incerta. Então, no entardecer silencioso dessa luz que se apaga, ouve-se, agoirento como um uivo, o silvo da locomotiva que parte, descendo o vale. Um vagão vai selado com uma cruz branca: é uma câmara ardente! Dentro, talvez, o cadáver de um filho, que um criado de hotel amortalhou à pressa, e despachou em grande velocidade à casa paterna. Para onde? Para a Rússia? Para a Alemanha? Para a Inglaterra? Para a Escócia? Para as areias de Portugal?
Sabe Deus para onde!...

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