sexta-feira, 16 de maio de 2014

O livro digital substituirá o livro em papel




















Eu sei que para os amantes dos livros em papel, como é o meu caso, a frase de título que escolhi, é algo de difícil digestão. A relação que tenho com os meus livros é afetiva, mas o mundo não pára e o futuro não tem contemplações com os saudosismos, remetendo-os para os museus.

O livro digital (ou "ebook") apresenta muitas vantagens decisivas versus o livro em papel. Aqui vai um conjunto de algumas dessas vantagens:

(1) É mais barato e ecológico, visto que o circuito de distribuição do livro digital até ao leitor é reduzido, e a produção da edição em papel não existe; 

(2) Tem uma apresentação alterável conforme as circunstâncias: posso escolher as cores de fundo e das letras, o tipo de letra, o tamanho de letra ou o brilho do ecrã. Assim, posso adaptar a leitura do livro digital às condições de luminosidade e de visibilidade; 

(3) Recebo o livro digital em casa ou em qualquer local, como uma aldeia remota em África, onde tenha acesso à internet. Tenho-o no momento em que o desejo ou necessito. A edição do livro digital não "esgota";

(4) Nas lojas virtuais posso pesquisar livros digitais por categorias temáticas, por autores, por títulos ou por preço com muita facilidade; 

(5) Posso anotá-los ou sublinhá-los, tal como no papel e ainda selecionar e copiar partes do livro. As virtualidades do multimédia permitem também que os livros digitais incluam videos e links de acesso imediato e possibilitam a qualquer pessoa escrever e publicar digitalmente um livro;

(6) O espaço de armazenagem do livro digital em disco ou numa "cloud" é infinitamente menor que o de uma livraria caseira. Posso transportar comigo milhares de livros digitais, facilmente.

Existem também importantes desvantagens do livro digital em relação aos livros em papel: 

(1) É ainda muito limitado o universo de livros digitais em português. Mesmo em inglês ou francês, ainda é muito vasto o universo de livros não digitalizados; 

(2) A minhas queridas livrarias, lojas que amo visitar, e as editoras tradicionais, sofrem com a diminuição das compras de livros em papel. Serão cada vez menos; 

(3) Gosto de deambular ao acaso pelas livrarias, e tenho descoberto assim muitos livros com interesse. Não é fácil fazer isso através das lojas virtuais, embora estas também apresentem os seus destaques, listas de mais vendidos e por vezes, comentários dos leitores. Mas nunca é a mesma coisa que uma livraria, onde podemos pegar no livro e ler um ou dois parágrafos; 

(4) O livro antigo ou alfarrábio, em papel, é uma preciosidade. Há livros antigos digitalizados, alguns muito antigos até, mas não é o mesmo que possuir um livro de alfarrabista. Um livro antigo em papel é uma joia, quando digitalizado, é apenas a imagem da joia; 

(5) Há um valor de transmissão própria do livro em papel. Oferecer um livro pelo aniversário ou pelo Natal, legá-lo a uma biblioteca ou recebê-lo por herança, é algo que neste momento só concebemos fazer com um livro em papel; 

(6) Há um valor de posse do objecto físico que perdemos. A relação com um objeto virtual é pela sua natureza mais distante e efémera. Muitas bibliotecas digitais perder-se-ão simplesmente, nas catacumbas das memórias de anónimos servidores, depois do esquecimento ou do desaparecimento dos seus proprietários. Serão modernos "cemitérios de livros esquecidos" (ver A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón).         

Estou convencido que o livro digital veio para ficar e que irá ocupar o espaço do clássico livro em papel, na cultura e na educação. O livro em papel acabará por ficar como peça sem uso comum, de antiquário, por muito que me custe. Tal como aconteceu com os discos de vinil e já está a acontecer com os CDs, com os DVDs e com jornais e revistas impressos. É uma questão de tempo.

Com o desaparecimento da palavra impressa em papel não acredito que diminua o número de leitores de obras de ficção ou outras, pelo contrário. Acredito que os livros digitais se tornarão mais acessíveis e mais lidos que os livros em papel.

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