terça-feira, 5 de maio de 2015

Lisboa, o Algarve e o Reino de Portugal no século XIII


Europa na segunda metade do século XIII: só Portugal
manteve as suas fronteiras quase sem alterações até hoje.
Lisboa é uma das cidades mais antigas da Europa Ocidental. Muito mais antiga que Londres, Paris, Madrid ou Roma. Existem inúmeros vestígios pré-históricos da presença humana no local. É obrigatório para um alfacinha que se preze uma visita ao Museu da Cidade, no Campo Grande em Lisboa.

Existem várias teorias sobre a origem de Lisboa e do seu nome. As análises críticas mais interessantes, encontrei-as nos estudos sobre a cidade de José-Augusto França (1) e Arlindo de Sousa (2). O seu nome fenício era Allis Ubbo, Enseada Amena ou Porto Seguro. Os fenícios compreenderam a posição estratégica da cidade, de frente ao Atlântico, ligação entre o Mediterrâneo e o norte da Europa e foram provavelmente os seus fundadores, talvez cerca de 1200 a.C. (3), ao estabelecerem nesse local o que se julga poder ter sido um entreposto comercial. Ao rio Tejo, chamaram-lhe rio Dagui ou rio da Pesca Abundante (4).

O Algarve é uma região diferenciada do restante território de Portugal Continental. Orlando Ribeiro classifica o Algarve, devido ao clima, como a “última terra mediterrânica” (5). A separação do Algarve do restante território da península é óbvia: a oeste e sul, tem o oceano Atlântico, a leste, o grande rio ibérico Guadiana, e a norte, duas cadeias montanhosas com as serras de Monchique e do Caldeirão que o separam do Alentejo.

Também do ponto de vista do povoamento, o Algarve tem as suas características próprias. Desde cedo a região teve importantes contactos com os fenícios e a cidade de Cádis (6), com gregos e cartagineses (7) e muito especialmente com os evoluídos vizinhos turdetanos (8). Por isso não é de admirar que a tribo dos cónios que dominava o sul de Portugal, Algarve incluído, ao tempo dos lusitanos, fosse um povo organizado com escrita própria. Os cónios eram poderosos rivais dos lusitanos.

O nome dado pelos romanos ao Algarve, era Cineticum (de cinetes ou cónios), que após a conquista romana foi integrado na província da Lusitânia.

De várias formas a cidade de Lisboa esteve relacionada com o território algarvio, mas é com o processo de consolidação do Reino de Portugal no século XIII que melhor compreendi como essa ligação se tornou politicamente decisiva (9).

No início do século XIII grande parte do sul da península ibérica estava ainda sob domínio dos mouros, tornando perigosa a crescente navegação comercial cristã entre o Mediterrâneo, a península Ibérica e o norte da Europa (10). É notável por exemplo, que já existisse uma feitoria portuguesa em Bruges, anterior ao século XIII, a mais antiga estabelecida na Flandres (11) e que em 1226, em Inglaterra, existissem mais de uma centena de autorizações para a atividade dos mercadores portugueses (12). A generalização de novas técnicas navais como a roda de leme ou timão (13), e a “agulha de marear” (14), permitiram tornar mais fácil a pilotagem e aumentar a tonelagem dos navios (15).

Aos cruzados vindos do Norte por barco a caminho da Terra Santa era também necessário assegurar costas marítimas e trajetos que oferecessem segurança na via marítima de acesso ao Mediterrâneo. A segurança dos reinos cristãos do sul e oeste do continente europeu exigia a tomada da península Ibérica aos mouros, e por isso, o apoio do papa e dos cruzados em trânsito marítimo, a organização das chamadas “Cruzadas de Espanha”, o papel das ordens religiosas, não deixam dúvidas quanto ao caráter de guerra santa internacional do projeto da Reconquista (16).

Os reis cristãos da Península, em especial os de Portugal, Leão, Castela e Aragão, competiam para alargar terra conquistada ao sul. Os reis de Portugal, em particular, compreenderam que se não tomassem a iniciativa da conquista algarvia, a importância de Portugal poderia ser facilmente menorizada no contexto peninsular (17). O litoral marítimo ao sul de Lisboa mais o litoral algarvio aumentaria significativamente a extensão da costa e assim, a importância estratégica do reino.

O projeto de reunificação de Leão e Castela de Dom Fernando III e o impulso por ele dado à reconquista cristã, tomando importantíssimas cidades como Múrcia, Córdoba e Sevilha, criaram um sentido de urgência aos reis portugueses para a conquista do Algarve. Infelizmente Sancho II revelou-se um rei inepto (18), tendo sido necessário aguardar pela coroação de Afonso III para concluir esse desiderato.

Sendo coroado em finais de 1248, Afonso III empreende rapidamente a tomada de Faro (assumindo os monarcas portugueses daí em diante, até ao derrube da monarquia em 1910, o título de Rei de Portugal e dos Algarves). Agravou-se então o já difícil conflito de interesses com o rei de Leão e Castela que se julgava no direito à posse do Algarve, que datava do pacto de Sahágun de 1158, assinado entre os reis de Castela e de Leão, mas o inteligente incentivo ao estabelecimento de ordens militares no Alentejo e no Algarve e a falta de apoio do papa às pretensões castelhano-leonesas, criaram uma situação “de facto”, que possibilitou que o reino português pudesse agora oferecer guarida num conjunto importante de portos, aos navios comerciais e militares que se deslocavam entre o Atlântico Norte e o Mediterrâneo (19).

Em 1255 Afonso III desloca a capital, transferindo-a de Coimbra para Lisboa. As intenções do rei com este ato, não podiam ser mais claras: tratava-se de garantir a soberania territorial e costeira a sul.
Para resolver o conflito entre portugueses e castelhanos-leoneses, um primeiro tratado foi celebrado em 1267, em Badajoz, por Dom Afonso III e um segundo tratado assinado por Dom Dinis, em 1297, em Alcanizes, que assim ainda alargou e consolidou as fronteiras legadas por seu pai. Estavam definitivamente estabelecidas as fronteiras de Portugal quase sem alterações até aos nossos dias (20). Dom Dinis acabaria por ser, no início do século seguinte, o fundador da Marinha Portuguesa. A história de Portugal ficaria para sempre ligada ao mar.

A barca transportando S.Vicente
que é emblema de Lisboa

 O Algarve e o Brasão de Lisboa.

São Vicente foi um santo mártir, cruelmente torturado e morto pelos romanos no século IV em Valência. Acredita-se que os restos mortais do santo teriam sido escondidos e ido parar ao Algarve no tempo dos mouros, e que Dom Afonso Henriques teria encontrado as supostas relíquias na zona de Sagres e providenciado transporte por barco até Lisboa. Conta a lenda que corvos o guardavam e lhe fizeram companhia durante a viagem. Essa imagem dos corvos numa barca que transporta o santo, é o brasão de Lisboa. Muitos alfacinhas julgam ser o muito popular Santo António o patrono de Lisboa, mas não, é São Vicente o santo padroeiro da cidade desde 1173. Celebra-se a 22 de Janeiro.

Referências bibliográficas:
  1. Lisboa, História Física e Moral de José-Augusto França, 2ª ed. Livros Horizonte, 2009.
  2. Novos Elementos para o Estudo da Origem do Nome Lisboa de Arlindo de Sousa, col. Biblioteca de Estudos Olisiponenses, ed. CML, 1968.
  3. História de Lisboa de Dejanirah Couto, 2ª ed. Gótica, 2003.
  4. Lisboa Antiga e Lisboa Moderna, Elementos Históricos da sua Evolução de Angelina Vidal, 2ª ed. Vega, 1994
  5. (...) é ao longo da costa portuguesa que, por transições cuidadosamente graduadas, se passa da última terra mediterrânica – o Algarve – para a primeira terra atlântica – o Minho (...) em Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro, col. Universitàs, ed. Coimbra Editora, 1945.
  6. Ver por exemplo o estudo "A Gaditanização do Algarve” de Elisa Sousa e Ana Margarida Arruda do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras em www.academia.edu/512918/A_gaditanização_do_Algarve
  7. “O Coberto Vegetal do Algarve Interior e Pressões no Território”, 3.7 Evolução da ocupação humana no território, I Jornadas sobre a Flora e Vegetação do Sul de Portugal, de Carlos Pinto Gomes, Ricardo Quinto Canas, Carlos Vila-Viçosa, Rodrigo Paiva Ferreira e Ana Cano, Universidade de Évora, 2011. É uma apresentação que julgo muito interessante para todos aqueles que se interessam pela gestão ambiental da zona Algarvia.
  8. Pelas suas perspetivas diversas ver “Paleoetnologia do Centro e Sul de Portugal” de Teresa Júdice Gamito da Universidade do Algarve e “Etnogeografia da Fachada Atlântica Ocidental da Península Ibérica” de Jorge de Alarcão da Universidade de Coimbra, ambos os artigos publicados na revista Complutum da Universidade Complutense de Madrid, em 1992 e em 1994, respetivamente.
  9. Um dos aspetos interessantes, que não desenvolvo neste texto, encontra-se na História de Portugal de Rui Ramos: a oposição entre a organização feudal e a concelhia, no norte e no sul do reino, durante o século XIII, e a importância política desta diferenciação.
  10. Une histoire des techniques de Bruno Jacomy, ed. Seuil, França, 1990.
  11. Flandre et Portugal de Émile Vanden Bussche, ed. C. de Moor, Bélgica, 1874.
  12. The commercial relations of England and Portugal de Violet Mary Shillington, ed. G.Routledge, Reino Unido, 1907.
  13. De la Marine Antigue a la Marine Moderne de Lebèbvre de Noettes, ed. Masson, França, 1935.
  14. Ciência e experiência nos Descobrimentos portugueses de Luís de Albuquerque, ed. Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1983.
  15. Épocas de Portugal Económico de J. Lúcio de Azevedo, ed. Cássica Editora, 1947.
  16.  Ver vol. II, “Cruzadas de Espanha” e “Cruzados na conquista de Portugal” em Dicionário de História de Portugal de Joel Serrão, ed. Figueirinhas, 1985.
  17. História Diplomática Portuguesa, Constantes e Linhas de Força de Jorge Borges de Macedo, Instituto da Defesa Nacional, ed. Revista Nação e Defesa, 1985.
  18. De Sancho II diz Camões no Canto III dos Lusíadas: Morto depois Afonso, lhe sucede; Sancho segundo, manso e descuidado; Que tanto em seus descuidos se desmede; Que de outrem, quem mandava, era mandado; De governar o Reino, que outro pede; Por causa dos privados foi privado; Porque, como por eles se regia; Em todos os seus vícios consentia.
  19. Batalhas da História de Portugal, vol. 2, Definição das Fronteiras, de Margarida Ventura, Academia Portuguesa da História, ed. QuidNovi, 2006. 
  20. História de Portugal de A.H. de Oliveira Marques, ed. Ágora, 1973.




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