domingo, 14 de junho de 2015

Bolacha Piedade de Setúbal: a melhor bolacha de Portugal.


Sou um normalíssimo consumidor de bolachas, particularmente as do tipo mais tradicional. Em miúdo adorava as bolachas baunilha, principalmente em avulso, dentro de um saco de plástico transparente, que um senhor trazia da fábrica e que a minha mãe comprava, estaladiças, fresquíssimas, a desfazerem-se na boca. Sempre que podia comprava também línguas de gato, na taberna ou na mercearia, que existiam em cada esquina de Lisboa nos anos 60. Hoje compro-as embaladas do supermercado, pois claro.
Depois, tinha as bolachas feitas pela minha mãe, redondas, torradinhas, com uma amêndoa no meio. Devo ter comido quilos dessa bolacha. É verdade, tenho de pedir mais à minha mãe pois acabaram-se na semana passada. A senhora, com mais de 80 anos de idade, ainda tem de vez em quando a pachorra de mas fazer.
Em garoto comia principalmente  a bolacha “Maria”, como muita gente do meu tempo, especialmente com manteiga, pois nunca fui apreciador de mel ou doce de fruta. Nessa altura em Portugal, não existiam “belgas”, “wafers”, “crackers”, de que aliás nunca consegui gostar. Gostos não se discutem. Existiam apenas as bolachas de água e sal, que sempre julguei ser uma espécie esquisita de bolacha, cuja utilidade nunca compreendi muito bem.

Agora na minha opinião, a rainha das bolachas era e continua a ser, a Bolacha Piedade de Setúbal (1). Como a família da minha mãe era setubalense, habituei-me desde sempre a ir à Feira de Sant’Iago de Setúbal (2) e ir para a bicha da venda da Bolacha Piedade. Como eu me lembro, a coisa funcionava assim: a partir do fim da tarde a feira começava pouco a pouco a ganhar animação, mas a abertura da loja de venda da Bolacha Piedade era tardia, e à hora de abertura já se encontrava uma montanha de gente à espera para as comprar. Depois começavam a aparecer os lojistas carregados com uns grandes tabuleiros vindos do forno, onde estavam as bolachas ainda pegadas umas às outras. As bolachas eram vendidas, nós avançávamos na bicha, mas atrás de nós, parecia sempre que o número de pessoas ia aumentando. Nunca chegavam bolachas para todos e quando acabavam tinha de se esperar pela próxima fornada que vinha da fábrica, não sei de onde, dali de Setúbal. Cheguei a estar muito tempo à espera. Era criança e aquilo parecia-me uma eternidade, mas era só ali que se podia comprar a bolacha.

Bolacha Piedade desde 1855

















Quem não sabe e não conhece, fica a pensar que é estranho ficar numa bicha para comprar uma...bolacha. E para mais a Bolacha Piedade não tem nada de exteriormente muito elaborado, não tem recheios, não tem camadas, é uma simples bolacha, espalmada, um quadrado mal desenhado de aspeto artesanal, seca e dura, às vezes bem dura (3). Então o porquê deste desejo, desta necessidade de tanta gente querer comprar uma bolacha? Posso afirmar que aquele era o sítio da Feira de Sant’Iago onde mais gente esperava mais tempo para ser atendida e que durante muitos anos se repetia ritualmente esta situação.
Bichas para comer semelhantes a esta, só conheci na minha vida, as dos turistas nalguns dias de verão para os Pastéis de Nata de Belém ou as do Leitão da Bairrada na Mealhada, nos almoços de fim de semana.

Isto dá para perceber que a Bolacha Piedade não é uma bolacha “normal” e o mistério todo reside no sabor e claro, no prazer que dá comer o raio daquela bolacha, que é tão boa. A sua receita continua a ser um segredo.
Estarei eternamente grato, enquanto viver, aos meus queridíssimos tios de Setúbal, que me aturaram muitas das minhas insuportáveis traquinices infantis e juvenis em várias temporadas de férias passadas naquela cidade, e que mesmo assim, quando vêm a Lisboa me trazem um saquinho da abençoada bolacha. Uns santos.

Incrivelmente, a Bolacha Piedade não é suficientemente conhecida e consumida no país inteiro, como já merecia ter sido. Talvez porque Setúbal, sendo uma terra de muito boa comida, é famosa sobretudo pelo peixe. Alguns grandes restaurantes de Lisboa gabam-se que o seu peixe é de Setúbal, e conheço muito alfacinha, que mesmo que tenha de percorrer mais de trinta quilómetros de autoestrada com portagens, sempre que pode vai a Setúbal comer um peixinho.

Geralmente a nossa melhor doçaria deriva da tradição conventual, mas a história da Bolacha Piedade é a história de uma invenção gastronómica familiar, local, de 1855, como vem relatado na embalagem que acima reproduzimos. Sim, hoje em dia é uma bolacha embalada. É que no século XXI a Bolacha Piedade já se compra higienicamente acondicionada, ASAE oblige, e é vendida e fabricada o ano inteiro e distribuída para fora da cidade de Setúbal.
Se não conhece esta bolacha e for a Setúbal - a pastelaria é mesmo no centro da cidade, na grande Avenida Luísa Todi, nº 502 - ou se a encontrar à venda noutro local, faça a prova. É a melhor bolacha de Portugal.

A Pastelaria Bolacha Piedade




























Notas:

(1) Que fique aqui registado que nada me liga à pequena empresa familiar que fabrica esta bolacha e que este blogue não aceita nem nunca aceitou publicidade. Sou livre de dizer o que muito bem me apetece, sem quaisquer dependências, obrigações ou encomendas, sejam quais forem os produtos ou as marcas em causa.
(2) Neste ano de 2015, a Feira de Sant’Iago de Setúbal realizar-se-á entre os dias 24 de julho e 2 de agosto.
(3) Tenho saudades da Bolacha Piedade duríssima, daquela de roer, que coexistia com a “normal” no processo de fabrico antigo. Se eu fosse dono da Bolacha Piedade, depois de conquistar o país e o mundo com esta bolacha, criava uma segunda variedade, mais grossa, “dura de roer”. Um grande abraço para Setúbal.

2 comentários:

  1. Boa noite, sendo eu um dos membros da família Piedade, agradeço profundamente esta publicação tão bem elaborada, saudosista e tão conhecedora da nossa história familiar, no que diz respeito à nossa Bolacha Piedade. Desde Já os nossos cumprimentos, e aguardamos uma visita sua à nossa Pastelaria, a fim de termos o prazer de o conhecer pessoalmente. Um grande bem-jaja.

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    1. Cara Paula Martins,

      Muito obrigado pelas suas palavras e pelo convite. Mas como cliente, agradeço principalmente à família Piedade ter continuado o fabrico da tradicional Bolacha. Os que não a conhecem, não fazem a mínima ideia do que têm estado a perder.

      Melhores cumprimentos

      Ricardo Esteves

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