domingo, 2 de agosto de 2015

Manuel Teixeira Gomes (1860-1941) e o gosto pela caça


Cão: o meu animal preferido
(pormenor do quadro “O Hóspede Inconsolável”,
 óleo sobre tela, 1884, de José Júlio de Sousa 
Pinto, da soberba coleção de pintura naturalista 
do Millenium BCP, em exposição no Museu 
Condes de Castro Guimarães, em Cascais, 
até 20 de Setembro – com ingresso gratuito).
Cecil, o leão do Zimbabué, foi morto por um dentista americano com uma “grande paixão pela caça” - segundo palavras de um amigo, o mesmo amor que levou o velho rei de Espanha há uns anos atrás a deixar-se fotografar com o seu troféu de caça, um elefante. Para o meu espírito urbano, faz-me alguma confusão este gosto. Compreendo que noutras circunstâncias a caça fosse um modo de vida e de sobrevivência das populações do campo, e entendo o sentido de oportunidade de alguns empresários que fazem criação e abrem terrenos especialmente preparados para a caça, mas não partilho desse antiquíssimo gosto de aristocratas, burgueses e populares. Se é pelo desafio de acertar num alvo em movimento, não chegaria praticarem o tiro aos pratos?

A minha sensibilidade no entanto, não é tanta que me possa transformar em vegetariano, mas aceitaria uma fiscalização mais rigorosa ao tratamento, transporte e morte dos animais que comemos, para que se evitassem sofrimentos desnecessários. Por isso, sou incapaz de comer “foie gras”, pela crueldade infligida sobre patos e gansos para a sua produção. Além disso, as armas de fogo dos caçadores, as vulgares “caçadeiras”, são usadas com frequência para toda a espécie de crimes e provocam acidentes entre os próprios caçadores e seus familiares. Sei que há gente séria a praticar legalmente a caça. Respeito o seu direito e tenho amigos caçadores, mas só seria capaz de ir à caça, com espingarda e tudo, por montes e vales, como foi Manuel Teixeira Gomes em Pegos Verdes, no Algarve:

(...) O refúgio, o bucólico sanatório indispensável às minhas crises de melancolia, era então a horta dos Pegos Verdes, oásis de laranjeiras sepultado num vale da serra, entre estevais sem fim. Ali haviam demorado por vários séculos alguns monges autênticos, de cuja pobreza os restos do convento — acanhadíssima construção térrea de pedra e barro — perpetuavam o atestado suficiente.
Eu ia para lá a pé, de espingarda a tiracolo, calculando a hora da partida de modo que chegasse ao nascer do sol, quando o hortelão, o sr. Elisiário, já andava nas leiras (1), com a enxada, a abrir caminho à água.
A levada de alvenaria (2) passava ao portão; sentava-me, descansando um instante a escutar o murmúrio da água, e logo, numa dessas frequentes e profundas acalmias da madrugada na serra, que um trilo (3) de rouxinol perturba e magoa, eu cortava subitamente o silêncio com o meu grito:
— “Elisiário!...”
Da obscuridade rescendente (4) onde o pomar tufava, acudia sem demora a voz do velho, tenebrosa, ao rés-do-chão:
— “Ora muito bons dias a vossenhoria... — E em seguida, mais aguda e livre: — Ó Custódia, ó Custódia... cá temos o patrão...”

Era o sossego de duas vidas consagradas ao amanho da leiva (5) generosa que perfazia a paz solene daquele ambiente de solidão, e eu entrava nela tão naturalmente que nunca a trilhava...
A minha presença em nada alterava a norma de existência ao casal de velhos que para ali viera pouco depois da voda (6), quarenta anos atrás. Não tinham filhos nem os haviam desejado e, encantoados no egoísmo daquela quietação cobiçada e realizada imperturbavelmente, as minhas poucas palavras eram-lhes indício de uma velhice precoce por onde nos emparelhávamos e assim conseguia eu vencer a sua hostilidade latente, mas sempre alerta, 'por tudo quanto revelasse tumultos e petulâncias da mocidade.
À minha cama e o meu quarto arranjavam-se todos os dias, que eu Iá estivesse ou não, e esses cuidados conservavam-lhes na memória a minha lembrança; quando eu chegava recebiam-me singelamente, como a alguém que se espera depois de curta ausência, embora sucedesse passarem-se às vezes anos inteiros sem que me vissem aparecer. Do que eles comiam comia eu também, de sorte que nem mesmo o lado material da sua vida sofria modificaçâo.
O velho era malicioso, com grande queda para a zombaria cujo exercício a surdez da mulher baldava (7) naquele escampado e sobre mim gostosamente incidia, mais ou menos velada, enquanto por lá me tinha. A velha, verdadeira pobre de Cristo, calada e obediente, ia-se dobrando para o chão como um compasso que se fecha pouco a pouco, emperra e já não abre; parecia feita de barro amarelecido e gretado, com duas inextinguíveis pinceladas de carmim nas faces.

O pretexto à minha demora dava-o a caça, e de espingarda ao ombro subia eu todas as manhãs muito cedo à cumiada das serras por onde me deixava ficar horas esquecidas, mas a caçar, de preferência ou exclusivamente, perspetivas e horizontes... A espingarda, no entanto, escudava-me a reputação já abalada e que fatalmente se faria de doido varrido ao vincar a suspeita de que não era pela caça que eu levava os dias inteiros a bater mato.

Manuel Teixeira Gomes
(ver em http://agostoazul.wordpress.com/)
Umas vezes por outras disparava a espingarda para o ar ou atirava ao alvo; os tiros ecoavam pelas quebradas dos montes e ouviam-se no convento, provocando, ao regresso, grande cópia de perguntas irónicas e sorrisos de mal disfarçada mofa (8) no meu caseiro, que me via voltar de mãos vazias, e cujo auxilio e companhia nas minhas inocentes explorações 'campestres eu terminantemente recusava. As alusões, pouco respeitosas, do socarrão á minha má estrela venatória — ele não me punha em dúvida a perícia — eram invariáveis, sem nunca falharem e divertindo-me sempre. Depois, como se isso lhe fosse indispensável e seguro introito à exposiçâo das suas habilidades e façanhas — para fixar o contraste entre a minha impotência e o seu valor — com bastante pitoresco, embora muito sóbrio de gestos, descrevia as manhas dos coelhos assustadiços e os variados voos com que perdizes e rolas se levantavam fugindo ao caçador inexperiente. “Tricas de escapar” — chamava-lhes, mas ajuntando Jogo — comigo não brincam os passarinhos e se vossenhoria aqui viesse no tempo da caça proibida, que é quando vale a pena dar um tiro, ou nos meses em que eu posso largar a rega, veria então... Que eu bem sei que vossenhoria no parado acerta como ninguém...
— “Pois, tio Elisiário, amanhã trago-lhe a bolsa cheia...”
— “Vossenhoria anda com pouca sorte. Aos tiros que lhe tenho ouvido já não devia haver bicho com vida numa légua em redor...”

E o caso era que os bichos tão pouco pareciam acatar-me a destreza. Os coelhos miravam-me com aprazível e tranquila curiosidade, da entrada das suas luras (9) e uma vez que eu esquecera espingarda sobre umas pedras fui encontrá-la feita poleiro, donde uma perdiz vigiava a ninhada.
Mas atirar a uma ave, símbolo da graça inofensiva e da elegância mimosa!... Vê-las voar, tão leves, e vê-Ias poisar, num declive tão doce, como que no ponto certo onde a curva do seu voo encontra a imaginária tangente...
Na liberdade daquela solidão tudo era gozo para os meus sentidos, sempre despertos e ávidos: o ar impregnado pelas exalações resinosas das estevas; o pesado, quase palpável perfume das moitas de rosmaninho; os gorjeios que a passarinhada solta como isolados fios de pérolas cristalinas; o ruído, o remurmúrio de colmeia de que a vida dos insetos repassa o mato espesso; as borboletas ardendo na luz intensa, como pequeninas chamas verdes que se perseguem, e caindo nas sombras com a opacidade das flores de enxofre... E os vastos horizontes, familiares, mas duma tão perpétua novidade, abrangendo no mar faiscante o recorte sinuoso da costa, lá da Ponta do Altar às rochas do Cabo, com os estuários do Arade e das rias de Alvor, e, a norte, a perspetiva circular das serras que fecham o Algarve, imponentes, e até importunas, quase, nas altíssimas ondulações da Foia e da Picota, mas morrendo em linhas azuladas, como que esvaídas, direito ao mar e acamando, a levante, em aveludadas ondas de musselina (10)...
Singular e pacificador panorama por onde, com a alma, a vista se me alongava infinitamente apaziguada!
 Não, não era para verter sangue que eu ia aos Pegos Verdes (...).

“Gente Singular”, 1ª edição de 1909, de Manuel Teixeira Gomes (que foi Presidente da República entre 1923 e 1925). Extraí o texto da 2ª edição, Seara Nova, 1931, corrigindo algumas palavras para o português de hoje.


Notas:
(1)   Leiras – as leiras são os montes de terra que se formam junto aos sulcos do arado; em sentido lato, Manuel Teixeira Gomes pretendia dizer que o caseiro estava nas terras de cultivo.
(2)   Alvenaria – creio que seria uma parede lateral da levada feita com pedra, para irrigação.
(3)   Trilo – trinado ou gorjeio dos pássaros.
(4)   Rescendente – que cheira bem.
(5)   Leiva – sulco do arado.
(6)   Voda – Boda do casamento.
(7)   Baldava – inutilizava, tornava inútil.
(8)   Mofa – troça.
(9)   Luras – tocas, covas.
(10) Musselina – tecido leve e fino, feito de fibras de algodão.

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