quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O Fantástico Religioso I – na Bíblia: a Transfiguração de Jesus.

Transfiguração, quadro de Rafael, 1520.
Imagem da Wikipedia. Ver NOTA FINAL.
Embora com educação católica sou meio agnóstico meio ateu, mas o fantástico sempre me interessou, tanto o do presente como o do passado. Frequentemente somos confrontados com testemunhos de acontecimentos que a serem verdade, não sabemos - ou não sabemos ainda – explicar.

A Bíblia inclui inúmeros desses episódios e as nossas igrejas têm por todo lado, altares, paredes e tetos cheios de cenas fantásticas, que povoam não só a mente dos crentes mas também toda a nossa cultura de raiz predominante judaico-cristã. Uma delas é a chamada Transfiguração de Jesus. A maioria dos meus conhecidos católicos, e alguns são praticantes, têm quando muito uma ideia superficial do que foi a Transfiguração de Jesus [1].


A Transfiguração de Jesus

Em miúdo fiz a catequese e a primeira comunhão, mas só muito recentemente soube o que é o episódio do Novo Testamento que se designa por Transfiguração de Jesus. A minha admiração resulta da ideia que antes tinha da relação entre o Novo e o Antigo Testamento. O Novo Testamento seria essencialmente constituído pelos evangelhos relatando a vida de Jesus. Não digo que as outras partes que se seguem não sejam importantes, mas são já consequência da “vinda do Messias”, vinda essa anunciada no Antigo Testamento por vários profetas, ver por exemplo Isaías [2]

A relação entre as “profecias” e a “vinda” do Messias era para mim o principal eixo de ligação entre o Antigo e o Novo Testamento, o que permitia juntar os dois grupos de textos num conjunto coerente, a Bíblia. Ora, a chamada Transfiguração de Jesus permite uma ligação direta entre personagens do Antigo e do Novo Testamento e é apresentada em três evangelhos:

MATEUS 17, 1-13

1 Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte.
2 Transfigurou-se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
3 Nisto, apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele.
4 Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.»
5 Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o.»
6 Ao ouvirem isto, os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados.
7 Aproximando-se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo.»
8 Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém.
9 Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes: «Não conteis a ninguém o que acabastes de ver, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.»
10 Os discípulos fizeram a Jesus esta pergunta: «Então, porque é que os doutores da Lei dizem que Elias há-de vir primeiro?»
11 Ele respondeu: «Sim, Elias há-de vir e restabelecerá todas as coisas.
12 Eu, porém, digo-vos: Elias já veio, e não o reconheceram; trataram-no como quiseram. Também assim hão-de fazer sofrer o Filho do Homem.»
13 Então, os discípulos compreenderam que se referia a João Baptista.


MARCOS 9, 2-13

2 Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e levou-os, só a eles, a um monte elevado. E transfigurou-se diante deles.
3 As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim.
4 Apareceu-lhes Elias, juntamente com Moisés, e ambos falavam com Ele.
5 Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Mestre, bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias.»
6 Não sabia que dizer, pois estavam assombrados.
7 Formou-se, então, uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o.»
8 De repente, olhando em redor, já não viram ninguém, a não ser só Jesus, com eles.
9 Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do Homem ter ressuscitado dos mortos.
10 Eles guardaram a recomendação, discutindo uns com os outros o que seria ressuscitar de entre os mortos.
11 E fizeram-lhe esta pergunta: «Porque afirmam os doutores da Lei que primeiro há de vir Elias?»
12 Jesus respondeu-lhes: «Sim; Elias, vindo primeiro, restabelecerá todas as coisas; porém, não dizem as Escrituras que o Filho do Homem tem de padecer muito e ser desprezado?
13 Pois bem, digo-vos que Elias já veio e fizeram dele tudo o que quiseram, conforme está escrito.»


LUCAS 9, 28-36

28 Uns oito dias depois destas palavras, levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao monte para orar.
29 Enquanto orava, o aspeto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes tornaram-se de uma brancura fulgurante.
30 E dois homens conversavam com Ele: Moisés e Elias,
31 os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da sua morte, que ia acontecer em Jerusalém.
32 Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com Ele.
33 Quando eles iam separar-se de Jesus, Pedro disse-lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Não sabia o que estava a dizer.
34 Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados.
35 E da nuvem veio uma voz que disse: «Este é o meu Filho predileto. Escutai-o.»
36 Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham visto.

A Transfiguração de Jesus é assim chamada porque a aparência de Jesus alterou-se: face (LUCAS 9, 29 “Enquanto orava, o aspeto do seu rosto modificou-se”) e vestes (MARCO 9, 3 “tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim”).  No entanto ainda mais fantástico foi o aparecimento de Moisés, de Elias e do próprio Deus (Pai). Moisés e Elias parecem ter tido uma longa conversa com Jesus, tão longa, que Pedro se ofereceu para fazer tendas na montanha (MARCOS 9, 5). Por sua vez os discípulos ouviram a voz do próprio Deus (Pai) vinda de uma “nuvem luminosa” (MATEUS 17, 5).

O aparecimento de Moisés e de Elias a Jesus e aos apóstolos é um caso único do Novo Testamento e o acontecimento que julgo fazer melhor a ligação entre o Antigo e o Novo Testamento. É além disso surpreendente para os apóstolos Pedro, Tiago e João, a revelação de que João Batista seria de fato Elias (MATEUS 17, 12-13). Um elo mais de ligação entre o Antigo e o Novo Testamento.

As palavras diretamente atribuídas a Deus (Pai) nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas são igualmente fundamentais porque legitimam perante os apóstolos, a natureza divina da missão de Jesus. Reforçando esta ideia, mais à frente no Novo Testamento, vale a pena ler o que diz Pedro na sua segunda carta:

2ª CARTA DE PEDRO 16-18

16 De facto, demo vos a conhecer o poder e a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, não por havermos ido atrás de fábulas engenhosas, mas por termos sido testemunhas oculares da sua majestade.
17 Com efeito, Ele foi honrado e glorificado por Deus Pai, quando a excelsa Glória lhe dirigiu esta voz: Este é o meu Filho, o meu muito Amado, em quem Eu pus o meu encanto [3].
18 E esta voz, vinda do Céu, nós mesmos a ouvimos quando estávamos com Ele na montanha santa.

Pedro atribui a este episódio a importância de uma prova decisiva, com testemunhos presenciais, entre os quais o seu.  


UM ELOGIO:
Já anteriormente neste blogue tinha referido o excelente “site” dos Franciscanos Capuchinhos, em http://capuchinhos.org/, que uma vez mais me foi de grande auxílio, neste caso para consulta do texto bíblico que recomendo a todos, crentes e curiosos.


NOTAS:

[1] Transfiguração de Jesus, sua importância – do que li sobre o tema pareceu-me que a Igreja Ortodoxa lhe dá grande importância e visibilidade, ainda mais do que a Igreja Católica. Ver por exemplo aqui.

[2] Isaías – Ver por exemplo ISAÍAS 7, 14. Isaías é um dos grandes profetas do Antigo Testamento, também venerado pelo Corão. Dedicou-se especialmente a lutar contra a adoração do Deus fenício Baal. Ver o espetacular e sangrento episódio do Monte Carmelo (1º LIVRO DOS REIS 18, 16-41).

[3] Pai e filho –  Estas palavras de Deus (Pai) parecem dar crédito às posições dos que criticam o trinitarianismo - a interpretação cristã dominante, que Pai, Filho e Espírito Santo, a Trindade, são o mesmo Deus - pois a voz de Deus (Pai) refere-se a Jesus como “filho predileto” em LUCAS 9, 35 ou como “meu filho muito amado” em MARCOS 9, 7 em MATEUS 17, 5 e na 2ª CARTA DE PEDRO 17, ou seja Deus (Pai) refere-se de forma clara a outra pessoa, Jesus. As críticas anti-trinitárias são comuns não apenas a muçulmanos e judeus, mas a várias correntes cristãs, umas históricas, como arianos e cátaros, outras mais recentes como os unitarianistas e as testemunhas de Jeová.

Esta posição crítica anti-trinitária é fortemente refutada pela esmagadora maioria dos cristãos, que ao dizerem “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” entendem a Trindade, como 3 “emanações” distintas, individualizadas é certo, mas tendo por essência uma mesma entidade, o Deus único. 

NOTA FINAL:
Quadro de Rafael, Transfiguração. Está no Museu do Vaticano. É apresentado no L’Osservatore Romano como “o mais belo quadro do mundo”. Ver mais informações na Wikipedia.

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