terça-feira, 24 de novembro de 2015

O Fantástico Religioso II – na História de Portugal: o Milagre de Ourique.


A aparição de Jesus a D. Afonso Henriques antes da batalha de Ourique em 1139, é considerada pelos historiadores, pelo menos desde Alexandre Herculano (História de Portugal, 1846), uma fantasia tardia, inventada para justificar a legitimidade divina da monarquia portuguesa [1]. Creio que o Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão em “Ourique, Milagre de” faz um bom resumo do porquê da não aceitação da veracidade do episódio.

No entanto, por absurdo, consideremos o episódio como verdadeiro. Durante muito tempo ele é contado como verdade absoluta. Por exemplo, naquela que é considerada a “primeira História de Portugal”, de Fernando Oliveira (sec. XVI), pode ler-se que durante a maior parte da noite anterior à batalha de Ourique esteve “Dom Afonso Henriques (..) em oração”, como era então costume, e depois acrescenta: “Por todos geralmente se diz que, então,  lhe apareceu Cristo crucificado e lhe deu firme esperança da vitória que logo houve. E dizem que ele para animar os seus, lhes contou publicamente como Cristo lhe aparecera e lhe prometera vitória.” Mas o texto de Fernando Oliveira é elaborado com o propósito de exaltar Portugal e denegrir seus inimigos. Oliveira conta que ao Conde de Castela Fernão Gonçalves - um personagem mítico e glorificado nas canções de gesta em Espanha por ter sido o primeiro a conseguir autonomizar Castela do Reino de Leão no século X e originar a linhagem dos futuros reis de Castela – lhe apareceu Nosso Senhor, na batalha de Hazinas, mas que por soberba “desafiou a Deus quando D. Garcia Abarca rei de Navarra, o prendeu em Cervenha” [2]. Bons princípios para Portugal, maus princípios para Castela.

A melhor descrição do milagre e das suas circunstâncias parece-me ser a de Frei António Brandão (1584-1637),  que foi cronista-mor do reino, monge de Cister, e autor das 3ª e 4ª partes da “Monarquia Lusitana” (terminadas em 1632) que incluíam a crónica de Dom Afonso Henriques. É preciso acrescentar que Brandão era minucioso, verificando quão credíveis eram as suas fontes e manifestando dúvidas sempre que não se sentia com suficiente segurança. Por isso, ele é elogiado pelos historiadores modernos. Por exemplo Herculano, sempre muito desconfiado, e ao contrário de outros cronistas, anteriores e posteriores a Brandão, chamou-lhe “o sincero e crítico cisterciense” [3]. Vejamos então o que o cronista escreveu:

Do aparecimento de Cristo, nosso Salvador, ao Infante D. Afonso, a noite antes da batalha; como foi levantado por Rei.[4]

Não eram de qualidade as coisas que trazia entre mãos o esforçado príncipe D. Afonso Henriques que lhe consentissem tomar muito repouso, nem os pensamentos ocupados na grandeza do negócio presente davam lugar a se poder quietar e tomar alívio. E assim, para divertir de algum modo aquela moléstia, lançou mão de uma Bíblia sagrada, a qual tinha em sua tenda e, começando a ler por ela, a primeira coisa que encontrou foi a vitória de Gedeão, insigne capitão do povo judaico, o qual, com trezentos soldados, rompeu os quatro reis Madianitas [5] e seus exércitos, passando à espada cento e vinte mil homens, sem outros muitos que morreram no alcance. Alegre o infante com tão bom encontro, e tomando desta vitória prognóstico feliz da que esperava, se confirmou mais na resolução de dar batalha e, com o coração inflamado e olhos postos no Céu, rompeu nestas palavras:

Bem sabeis vós, meu Senhor Jesus Cristo, que por vosso serviço, e pela exaltação do vosso santo nome, empreendi eu esta guerra contra vossos inimigos; vós, que sois todo poderoso, me ajudai nela, animai e dai esforço a meus soldados, para que os vençamos, pois são blasfemadores do vosso santíssimo nome.

Ditas estas palavras lhe sobreveio um grande sono, e começou a sonhar que via um velho de venerável presença, o qual lhe dizia que tivesse bom ânimo, porque sem dúvida venceria aquela batalha, e com evidente sinal de ser amado e favorecido de Deus veria com seus olhos antes de entrar nela o Salvador do mundo, o qual o queria honrar com sua soberana vista. Estando o infante neste alegre sonho, nem bem dormindo, nem de todo acordado, entrou na tenda João Fernandes de Sousa, de sua câmara, e lhe fez saber como a ele chegara um homem velho, o qual pedia audiência e, segundo dava a entender, era sobre negócio de muita importância. Mandou o infante que entrasse sendo cristão, e, tanto que o viu reconheceu ser o mesmo que acabava de  palavras que em sonho tinha ouvido, e certificando-o da vitória e aparecimento de Cristo, acrescentou que tivesse muita confiança no Senhor por ser dele amado, e que nele, e em seus descendentes, tinha postos os olhos da sua misericórdia até à décima sexta geração, em que se atenuaria a descendência, mas nela ainda nesse estado poria o Senhor os olhos, e haveria. Que da parte do mesmo Senhor o avisava que, quando na seguinte noite ouvisse tocar o sino da sua ermida, na qual morava havia sessenta anos, guardado com especial favor do Altíssimo, saísse fora ao campo, porque lhe queria Deus mostrar a grandeza de sua misericórdia.

Ouvindo o católico príncipe tão soberana embaixada, tratou o embaixador dela com veneração e deu a Deus com profundíssima humildade infinitas graças. Saiu fora da tenda o bom velho tornou a sua ermida, e o infante, esperando pelo sinal prometido, gastou em oração afervorada todo o espaço da noite até à segunda vigia, na qual ouviu o som da campainha; armado então com seu escudo e espada saiu fora dos arraias, e, pondo os olhos no Céu, viu da parte oriental um resplendor formosíssimo, o qual a pouco e pouco se ia dilatando e fazendo maior. No meio dele viu o salutífero sinal da santa Cruz, e nela encravado o Redentor do mundo, acompanhado em circuito de grande multidão de anjos, os quais em figura de mancebos formosíssimos apareciam ornados de vestiduras brancas e resplandecentes, e pode notar o infante ser a Cruz de grandeza extraordinária, e estar levantada da terra quase dez côvados [6].

Com o espanto de visão tão maravilhosa, com o temor e reverência devidos à presença do Salvador, pôs o infante as armas que levava, tirou a vestidura real, e descalço se prostrou em terra e, com abundância de lágrimas, começou a rogar ao Senhor por seus vassalos, e disse:

Que merecimentos achastes, meu Deus, num tão grande pecador como eu para me enriquecer com mercê tão soberana? Se o fazeis para me acrescentar a fé, parece não ser necessário, pois vos conheço desde a fonte do Batismo por Deus verdadeiro, filho da  Virgem sagrada, segundo à humanidade, e do Padre Eterno por geração divina. Melhor seria participarem os infiéis da grandeza desta maravilha, para que, abominando seus erros, vos conhecessem...

O Senhor então com suave tom de voz que o príncipe pôde bem alcançar, lhe disse estas palavras:

Não te apareci deste modo para acrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração nesta empresa, e fundar os princípios de teu Reino em pedra firmíssima. Tem confiança, porque, não só vencerás esta batalha, mas todas as mais que deres aos inimigos da Fé católica. Tua gente acharás pronta para a guerra, e com grande ânimo pedir-te-á que com título de rei comeces esta batalha; não duvides de o aceitar, mas concede livremente a petição porque eu sou o fundador e destruidor dos Impérios do mundo, e em ti e tua geração quero fundar para mim um reino, por cuja indústria será meu nome notificado a gentes estranhas. E porque teus descendentes conheçam de cuja mão recebem o reino, comprarás as tuas armas do preço com que comprei o género humano, o daquele porque fui comprado dos judeus [7], e ficará este reino santificado, amado de mim pela pureza da Fé e excelência da piedade.

O infante D. Afonso, quando ouviu tão singular promessa, se prostrou de novo por terra e, adorando ao Senhor, lhe disse:

Em que merecimentos fundais, meu Deus, uma piedade tão extraordinária como usais comigo? Mas já que assim é, ponde os olhos de vossa misericórdia nos sucessores que me prometeis, conservai livre de perigos a gente portuguesa, e, se contra ela tendes algum castigo ordenado, peço-vos o deis antes a mim e a meus descendentes, e fique salvo este povo, a quem amo como único filho.

A tudo deu o Senhor resposta favorável, dizendo como nunca dele, nem dos seus, apartaria os olhos de sua misericórdia, porque os tinha escolhidos por seus obreiros e segadores [8], para lhe ajuntarem grande seara em regiões apartadas. Com isto desapareceu a visão, e o infante D. Afonso, cheio de fortaleza e júbilos de alma, quais se deixam entender, fez volta para os arraiais e se recolheu em sua tenda.

Aclamação de D. Afonso Henriques, Arquivo Histórico Militar
O texto de Frei António Brandão prossegue com o relato dos últimos preparativos da batalha e a aclamação de D. Afonso Henriques como Rei de Portugal. No capítulo seguinte encontramos uma descrição da batalha de Ourique e de como os portugueses a venceram.

A aparição de Cristo a D. Afonso Henriques antes da batalha de Ourique faz lembrar outras visões místicas, como a de Constantino antes da batalha da Ponte Mílvia em Roma, em 312, uma batalha decisiva para que Constantino [9] tomasse para si o poder imperial, e para que mais tarde, por sua iniciativa, o cristianismo se tornasse a religião oficial do Império Romano. Também neste caso são dadas instruções a Constantino para o uso de um símbolo específico nas armas do seu exército (“in hoc signo vinces”=“com este sinal vencerás”).

Os relatos de visões místicas antes de importantes batalhas não são de forma alguma exclusivas do cristianismo. Por exemplo antes da grande batalha de Little Bighorn, em 1876, que opôs o exército americano comandado pelo general George Armstrong Custer a uma grande aliança de tribos sioux e cheienes, o chefe índio sioux Touro Sentado durante uma cerimónia religiosa, a Dança do Sol, dedicada ao Grande Espírito, terá tido uma visão da vitória indígena, vendo muitos soldados americanos mortos [10]. E porque é que o Grande Espírito não terá estendido a sua proteção aos índios para além desta batalha específica? Não consegui confirmar, mas diz-se que Touro Sentado ficou alegre pela vitória mas triste ao mesmo tempo, pelo saque que os vencedores fizeram aos corpos dos soldados americanos mortos. O Grande Espírito teria exigido a Touro Sentado para que não se tocasse nos mortos após a batalha e essa ordem não teria sido respeitada. Assim, a resistência dos sioux seria completamente destruída na “batalha” de Wounded Knee, em 1890, um verdadeiro massacre, precisamente contra o mesmo regimento que Custer tinha comandado em Little Bighorn, o Sétimo de Cavalaria.
Uma interpretação possível é que desafiar a vontade divina é fatal. Conta-se que os operários do estaleiro naval onde o Titanic foi construído, terão inscrito no navio a frase “We defy God to sink her”.

Uma interpretação mais comezinha das vitórias e derrotas é a do estudioso medieval Charles Oman [11]“Arrogance and stupidity combined to give a certain definite color to the proceedings of the average feudal host. The century and the land differ, but the incidents of battle are the same: El Mansura (A.D. 1249) is like Aljubarrota (A.D. 1385); Nicopolis (A.D. 1396) is like Courtrai (A.D. 1302)”, em The Art of War in the Middle Ages [12]. Arrogância e estupidez são uma combinação quase sempre fatal para os poderosos, por isso nem sempre vencem as forças mais numerosas ou aparentemente superiores, e não apenas na Idade Média. O falhanço das três invasões francesas em Portugal, no início do século XIX, ou as desastrosas intervenções, já em pleno século XX, dos militares Americanos e Soviéticos no Vietname e no Afeganistão, enfrentando as guerrilhas desses países, são outros exemplos.

Mas voltando a Afonso Henriques, pode ser que os exércitos mouros em Ourique fossem mais numerosos mas estivessem excessivamente confiantes, divididos e não muito bem organizados. Por exemplo os contingentes das ordens militares religiosas que integravam o exército ao serviço de Afonso Henriques eram forças disciplinadas, provavelmente melhor preparadas e equipadas, motivadas e experientes.

Em termos da interpretação histórica atual, Bernardo Vasconcelos e Sousa [13] escreve que Afonso Henriques em 1139 “organizou uma forte expedição que se internou por terras islâmicas e culminou na que ficaria conhecida como Batalha de Ourique, (...) que se saldou por uma vitória” e que “as consequências desta vitória foram decisivas, tanto a curto como a médio e longo prazos. No seguimento da batalha e do triunfo nela alcançado, Afonso Henriques passou a intitular-se rei dos portugueses (portugalensium rex)”. E sobre o milagre escreve que “o caráter maravilhoso da vitória de Ourique e o carisma de Afonso Henriques seriam definitivamente fixados com a lenda cujo primeiro registo conhecido data de 1416, segundo a qual Cristo teria aparecido ao primeiro rei português antes da batalha, inspirando o seu triunfo e a missão que lhe era confiada. O episódio de Ourique e o milagre que lhe foi associado constituíram um dos elementos centrais na construção da memória mítica sobre a origem da monarquia portuguesa e sobre a missão transcendente do seu primeiro rei”.

Adolfo Simões Müller, na Historiazinha de Portugal, de 1944, o seu livro de maior sucesso, comentava com graça: “Dizem que Nosso Senhor apareceu em Ourique aos portugueses. É possível que não. O que é certo é que Portugal apareceu, então, a Cristo. E foi esse, talvez, o verdadeiro milagre de Ourique”.

NOTAS:

[1] Grandes polémicas envolveram Alexandre Herculano sobre o tema. Além da sua História de Portugal, ver também Opúsculos III: Controvérsias e Estudos Históricos, Tomo I, aqui

[2] O Mito de Portugal de José Eduardo Franco, Fundação Maria Manuela e Vasco de Albuquerque D’Orey, Lisboa-2000, página 442.

[3] História de Portugal de Alexandre Herculano. Ver em NOTAS DE FIM DE VOLUME, XVI-BATALHA DE OURIQUE.

[4] Crónica de D. Afonso Henriques de Frei António Brandão.  Editora Livraria Civilização, 1945.

[5] Madianitas eram um povo de Canaã, descendentes de Madiã, filho de Abraão. Eram inimigos dos israelitas. Ver passagem na Bíblia da vitória de Gedeão no Antigo Testamento em Juízes 7, aqui.

[6] Neste link da Universidade do Porto, ver no estudo de Mário Jorge Barroca sobre medidas medievais portuguesas: o côvado teria 66cm, assim 10 côvados seriam 6,60m.

[7] 30 moedas de prata, que foi o preço pago a Judas Iscariotes pela denúncia de Jesus, deveriam ser inscritos nas armas de D. Afonso Henriques e dos seus exércitos. Camões nos Lusíadas, Canto terceiro, estrofes 53 e 54 explica essa simbologia:

- Canto 3, estrofe 53  
Já fica vencedor o Lusitano,
Recolhendo os troféus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Três dias o grão Rei no campo fiei.
Aqui pinta no branco escudo ufano,
Que agora esta vitória certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos,
Em sinal destes cinco Reis vencidos,

- Canto 3, estrofe 54
E nestes cinco escudos pinta os trinta
Dinheiros por que Deus fora vendido,
Escrevendo a memória em vária tinta,
Daquele de quem foi favorecido.
Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
Porque assim fica o número cumprido,
Contando duas vezes o do meio,
Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

E porque gosto muito da forma como Camões explica as quinas portuguesas nos Lusíadas, introduzi o seu texto como fundo do título deste blogue, já lá vão uns anos.

[8] Que ou quem sega ou trabalha na ceifa = ceifador, ceifeiro. In Dicionário Priberam 

[9] O bispo cristão do século IV Eusébio de Cesareia descreve o milagre – afirmando ter ouvido a história contada pelo próprio Constantino (ver o capítulo XXVIII de A Vida de Constantino de Eusébio de Cesareia, aqui

[10] Sobre Touro Sentado ver aqui.

[11] Ver Charles Oman (1860-1946) na Wikipedia aqui

[12] Charles Oman citado aqui

[13] Bernardo Vasconcelos e Sousa, História de Portugal coordenada por Rui Ramos (ed. 2009), em Parte I, Capítulo I, Afonso Henriques – de príncipe a rei.

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