domingo, 27 de dezembro de 2015

Olavo Bilac (1865-1918) III – Meus poemas preferidos



Olavo Bilac
Não serão provavelmente os melhores poemas de Bilac, apenas os que mais gostei de ler, pela beleza da forma e pelo significado. Como em qualquer seleção de poesia a subjetividade é determinante, mesmo assim procurei explicar o porquê da escolha de cada um dos poemas. 
Não incluí alguns dos poemas mais famosos de Olavo Bilac, como o Língua Portuguesa, mas considerem esta série de três pequenos artigos, que aqui termina, apenas como um aperitivo para ler com maior detalhe a obra do poeta.

O primeiro poema que escolhi é Sagres, do qual gosto principalmente do final, ao qual poderíamos chamar O Sonho do Infante. A conquista dos caminhos oceânicos e de novas terras, as riquezas por encontrar, constituem uma visão idílica, que Bilac acredita ter sido o sonho do infante Dom Henrique, origem da epopeia das descobertas. Sagres, o promontório sagrado, foi na realidade o “berço de um mundo novo”.

Sagres (parcial)

Sonha, - afastado da guerra,
Infante!... Em tua fraqueza,
Tu, dessa ponta de terra,
Dominas a natureza!..."

Longa e cálida, assim, fala a voz da Sereia...
Longe, um roxo clarão rompe o noturno véu.
Doce agora, ameigando os zimbros sobre a areia,
Passa o vento. Sorri palidamente o dia...
E súbito, como um tabernáculo, o céu
Entre faixas de prata e púrpura irradia...

Ténue, a princípio, sobre as pérolas da espuma,
Dança torvelinhando a chuva de ouro.
Além, invadida do fogo, arde e palpita a bruma,
Numa cintilação de nácar e ametistas...
E o olhar do Infante vê, na água que vai e vem,
Desenrolar-se vivo o drama das Conquistas.

Todo o oceano referve, incendido em diamantes,
Desmanchado em rubis. Galeões descomunais,
Crespas selvas sem fim de mastros deslumbrantes,
Continentes de fogo, ilhas resplandecendo,
Costas de âmbar, parcéis [1] de aljofres [2] e corais,
- Surgem, redemoinhando e desaparecendo...

É o dia! - A bruma foge. Iluminam-se as grutas.
Dissipam-se as visões... O Infante, a meditar,
Como um fantasma, segue entre as rochas abruptas.
E impassível, opondo ao mar o vulto enorme,
Fim de um mundo sondando o deserto do mar,
- Berço de um mundo novo - o promontório dorme.

[1] Parcel - Banco de areia encoberto a pequena altura pela água do rio ou do mar.
[2] Aljofre - Pérola

Em As Viagens



O humanismo de Bilac é expresso com brilhantismo no poema que se segue. O Homem no centro do universo porque pensa e porque sente, apesar de perante o incomensurável cosmos, ser minúsculo, fisicamente quase nada. Carl Sagan se o lesse, haveria de gostar.

Microcosmo

Pensando e amando, em turbilhões fecundos
És tudo: oceanos, rios e florestas;
Vidas brotando em solidões funestas;
Primaveras de invernos moribundos;

A Terra; e terras de ouro em céus profundos,
Cheias de raças e cidades, estas
Em luto, aquelas em raiar de festas;
Outras almas vibrando em outros mundos;

E outras formas de línguas e de povos;
E as nebulosas, géneses imensas,
Fervendo em sementeiras de astros novos;

E todo o cosmos em perpétuas flamas...
- Homem! és o universo, porque pensas,
E, pequenino e fraco, és Deus, porque amas!

Em Tarde



Os sonetos XII e XIII de Via-Láctea são extraordinários. Olavo Bilac diz que “só quem ama” pode dialogar com as estrelas. É só meia verdade, porque Bilac diz que “tudo” lhe falou, e assim ouve também os pássaros e o luar. Ora nós sabemos que isso só é possível acontecer nas histórias infantis e na poesia.

XII

Sonhei que me esperavas.
E, sonhando, saí, ansioso por te ver: corria...
E tudo, ao ver-me tão depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da ramaria,
Dos despertados pássaros o bando:
"Vai mais depressa! Parabéns!" dizia.

Disse o luar: "Espera! que eu te sigo:
Quero também beijar as faces dela!"
E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!"

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
 "Como és feliz! como és feliz, amigo,
Que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!"

XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Em Via-Láctea 


Marabá, 1882, de Rodolfo Amoedo (1857-1941).

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