quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Olavo Bilac (1865-1918) I – Crónicas


Olavo Bilac
Falar de Olavo Bilac (Rio de Janeiro, 1865-1918) não é fácil porque ele próprio era um inconstante. Mudou de curso no 5º ano de Medicina, escolhendo Direito, que também não terminou. Tinha vida de boémio e era um apoiante ativo de causas políticas, por isso esteve escondido e foi preso em 1891 durante o governo autoritário de Floriano Peixoto. Nem mesmo na hora da morte abafou o seu desassossego e pediu um café, porque pretendia escrever. Faleceu cedo, aos 53 anos de idade.
Há também o seu lado sério e realizador: foi inspetor escolar, secretário da Liga de Defesa Nacional, jornalista, tomou parte na fundação da Academia de Letras, foi sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e foi um enormíssimo poeta. O maior poeta brasileiro do seu tempo. Por isso é recordado.

Nos seus escritos encontramos de tudo um pouco e o seu contrário: idealismo e piada,  erotismo e seriedade, crítica e veneração, ou como ele próprio intitula o seu livro de crónicas, ironia e piedade. Com enorme talento, a sua adesão ao erudito e difícil estilo parnasiano nunca impediu que apresentasse a vida de uma forma direta e acessível na poesia, e como poucos na prosa, que retratasse tão bem a época que viveu.
Começo pelas suas crónicas de jornal. Selecionei “Contra a Eletricidade”, de 1905.

Durante milhares de anos a noite tinha sido completamente escura, de breu, que só era interrompida pela escassa claridade que escapava das gretas das casas iluminadas com candeias e velas. Noites claras, só à luz das estrelas e da lua, quando as nuvens não cobriam a abóboda celeste, ou nas festas, em que se acendiam fogueiras e tochas.
A iluminação pública que se generalizou durante o século dezanove alterou por completo a vida da cidade. Primeiro com os candeeiros de azeite e depois com os candeeiros a gás.
Foi possível abandonar o hábito do recolher noturno e deitar cedo, começando a fazer à noite coisas que antes só se faziam de dia. Criou-se a indústria noturna com tertúlias nos cafés e restaurantes, espetáculos teatrais e musicais, e claro, surgiu toda uma classe de burgueses noctívagos que integrava Olavo Bilac.
Mas mesmo os candeeiros a gás tinham uma luminosidade relativamente fraca. Foi com a introdução da lâmpada elétrica na iluminação pública no início do século vinte, com luz muito mais forte e brilhante, que a noite deixou verdadeiramente de existir.


CONTRA A ELETRICIDADE

Certo amigo meu odeia e amaldiçoa a eletricidade: abomina-a, como assassina da poesia, como distribuidora de uma luz excessiva e escandalosa, que já não deixa gozar a melancolia das penumbras, em que medra tão bem a delicada flor do sonho.
Foi anteontem, sexta-feira, que ele se desmanchou, depois de um calmo jantar, em invetivas contra a luz elétrica.
Sexta-feira agoniada, em que muita gente, forçada a sair à noite, teve de ressuscitar o uso daquelas lanternas de que se serviam os cariocas de 1820, quando, caso raro, tinham de atravessar a cidade depois do toque de recolher.
Jantáramos juntos, quatro amigos, num amplo terraço deslumbradoramente iluminado por festões de lâmpadas elétricas. Tendo começado a jantar ao cair da noite, não sabíamos que a cidade lá fora estava ás escuras, amortalhada na treva espessa. Descemos, saímos : e doeu-nos nos olhos a escuridão, pondo-nos na alma um vago susto.
Seria uma revolução?

Raros lampiões estavam ainda acesos: um pequenino ponto luminoso, trémulo e vago, piscando, de espaço a espaço, nas ruas lúgubres, cheias do espantado vozeio da multidão invisível. O céu, coberto de nuvens negras, pesava sobre a cidade. Trevas em cima, trevas em baixo; e cada rua era um túnel, onde os passos dos transeuntes soavam funereamente.
Somente a Avenida Central, região encantada, onde impera a Fada Eletricidade, conservava o seu habitual esplendor: e a faiscação das suas altas lâmpadas, e a ornamentação fulgurante dos cinematógrafos, que a bordam de um lado e de outro, contrastavam impressionadoramente com o negror do resto da cidade.

Toda a multidão afluía para a grande via esplêndida. A multidão tem medo da treva... Os cafés transbordavam gente; e, à porta de cada cinematógrafo, uma longa cauda de povo se formava, assaltando a bilheteria. Toda aquela turba queria ficar fora de casa : a casa, sem gás, é um túmulo.
Nós quatro, conversando, comentávamos o caso.
Não era a mashorca [1], felizmente. Havia, apenas, uma parede dos operários da companhia do gás. Parede pacífica e platónica, que bem depressa acabaria, como as outras, continuando os pobres trabalhadores a contentar-se com promessas, e prestando o Estado o auxilio da sua força ao Capital, com essa solidariedade que une todos os tiranos numa inquebrantável aliança ofensiva e defensiva...

Dos quatro, que passeávamos, um era um velho carioca, já cinquentão, e tão amigo da sua cidade que nunca daqui saiu, — nem para ir a Mendes ou à Barra do Piraí.
E enquanto os outros, com entusiasmo, entoávamos um coro de louvores à fada eletricidade, ele caminhava, resmungando cousas incompreensíveis.
Louvávamos a grande fada, que suspendia sobre as nossas cabeças aqueles globos fulgurantes, e estendia ao longo dos prédios aqueles pendões de luminárias brancas, amarelas, verdes, vermelhas, formando letras e dísticos, aglomerando-se em estrelas e crescentes, dando á Avenida um aspeto de zona de milagre, dotada de uma vegetação fantástica de flores e frutos de fogo.

Mas, levados pelo acaso do passeio, enveredámos por uma das ruas transversais, e de novo a noite nos cobriu, nos rodeou, nos embrulhou no seu manto sinistro. E foi então que o nosso companheiro cinquentão falou, combatendo o nosso entusiasmo:
— A eletricidade! Se vocês soubessem que alívio é para mim um passeio como este, por uma rua trevosa! Já estou cansado de tanta luz... Ainda sou do tempo dos lampiões de azeite. A cidade era pobre, paupérrima. E, como pobre, e honesta, não tinha luxos. Todos jantavam, em casa, ás quatro da tarde. Depois, um pequeno passeio, uma partida de gamão e uma discussão política nas boticas, uma ou outra novena, uma ou outra visita, e, de longe em longe, um fogo de artifício. Jesus! Atualmente, o fogo de artifício é quotidiano e perpétuo! Esta orgia de luz embebeda-me, alucina-me, cega-me! Abençoada seja esta parede, que nos vem dar um pouco de repouso aos olhos e ás almas! Continuemos a passear por aqui, por estas calmas ruas que ainda os postes da Light não invadiram... Tenho a impressão de estar revivendo o tempo antigo. Antigamente, todo o Rio era assim....

Em vastas áreas já não é possível observar os céus
de forma natural, sem poluição luminosa noturna.
Brasil e Europa. Ver aqui.
Um de nós bocejou:
— Não sei que poesia se pode achar na treva. . . O cinquentão inflamou-se:
— Quer você saber qual é o grande crime da eletricidade no Rio? Matou a poesia do luar! Os nossos luares, neste céu incomparável, sempre foram famosos. No inverno carioca, uma noite de lua cheia, no céu escampo, em que desfalecem e morrem todas as estrelas ofuscadas, é uma maravilha sem par, cuja contemplação dá poesia e imaginação a todas as criaturas, — até aos muares das carroças do lixo e aos cachorros vagabundos. O luar do Rio! foi por causa dele que esta cidade teve tantos poetas, no tempo em que ainda havia poetas. Agora, h a . . . cronistas e burocratas, como este que aqui vai connosco, e que é adorador da eletricidade. Quem faz caso do luar, hoje? Nem o podemos ver ; nem levantamos os olhos para o céu; as avenidas e as lâmpadas elétricas cativam toda a nossa atenção; vivemos a olhar o asfalto ignóbil que calcamos aos pés. E ninguém mais vê o luar, quando ele cascateia em rios de prata pelo pendor das montanhas, e mergulha gládios rutilantes na face arrufada do mar, e chora chuveiros de pérolas entre os ramos das árvores. A Eletricidade matou o luar!

Tínhamos chegado ao velho largo do Paço [2]. O jardim, Osório [3], o chafariz histórico, tudo dormia, sob a capa das trevas. Mas, de repente, rasgou-se uma larga brecha na muralha das nuvens que forravam o céu; e um luar admirável, límpido, de uma brancura e de uma maciez de arminho, suavemente se espalhou sobre a dormente amplidão dos canteiros, dos relvados, das calçadas de cimento. Os oitis [4] animaram-se, bracejaram, vestidos de prata viva. Osório agitou-se sobre o cavalo de bronze, nessa existência fictícia que a fantasmagoria do luar dá sempre ás cousas inanimadas. O mar, ao longe, resplandeceu, retalhado por uma larga faixa fúlgida e tremente. Ficámos os quatro extáticos, suspensos, gozando o espetáculo magnífico. E o cinquentão exclamou, abrindo os braços, com um ar de beatitude na face:

— Abençoada seja a parede dos gasistas, que nos permite ver em toda a sua majestade divina, sem o contraste odioso e concorrência indigna da luz artificial, a tua luz incomparável, ó Diana formosa, caçadora de estrelas, mãe de todas os sonhos, consoladora dos tristes!
Todos nós dissemos:
— Amém!
Cerrou-se de novo o véu das nuvens. Dura tão pouco o que é belo!...
Retrocedemos, e enfiámos os passos pela rua da Assembleia, escuríssima; longe, irradiava o clarão da Avenida. E o nosso amigo, cerrando o punho, bradou, naquela mesma voz tonitruosa com que o padre Júlio Maria [5] amaldiçoa o pecado e os pecadores:
— Maldita sejas, fada perversa, inimiga do luar, Satânia abominável, filha de Belzebu!

Crónica publicada na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em 1905, incluída em Ironia e Piedade, ed. Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1916.

NOTAS da responsabilidade deste blogue:

[1] Desordem.
[2] Praça Quinze de Novembro.
[3] Estátua equestre do General Osório.
[4] Árvore também denominada goiti ou oitizeiro.
[5] Creio que se trata do Padre Júlio Maria, republicano, pregador inconformista, pseudónimo  de  Júlio César Morais Carneiro, nascido em Angra dos Reis, 1850-1916.

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