domingo, 28 de fevereiro de 2016

Venceslau de Morais e o Japão I – Primeiras impressões


Venceslau de Morais, com
35 anos, altura da sua
primeira visita ao Japão.
Venceslau José de Sousa de Morais nasce em Lisboa em 1854. Aos 21 anos completa o curso da Escola Naval e começa uma vida de embarcadiço na Marinha Portuguesa. Conheceu Moçambique, Macau, Timor e Japão. Em 1895, fixa-se em Macau. É imediato na Capitania do Porto de Macau e inicia aulas no Liceu de Macau, acabado de inaugurar.

Vai pela primeira vez ao Japão em 1889. Em 1897 acompanha o Governador de Macau em visita ao Japão, conhecendo o Imperador Meiji. Apaixona-se por aquele país e é desse ano o seu primeiro livro dedicado ao Japão, "Dai-Nippon" [O Grande Japão]. O que o terá levado a gostar tanto daquela terra encontra-se explicado no seu livro:

“(...) o que mais impressiona, mais cativa, mais consola, mais talvez do que em qualquer outro canto do mundo, é o prestígio ridente de tudo que nos rodeia, de tudo que os nossos olhos alcançam, como que numa festa perene da Criação. O Japão é um país feito de risos, ou antes de sorrisos; ao Criador, que tudo pode, não admira que bastasse esta subtil matéria prima para a elaboração das suas maravilhas. Tudo sorri. Sorri o céu, em doces cambiantes de azul nunca sonhados; sorri a vegetação, em doidas ramarias curvando ao peso de delicadas florescências; sorriem as colinas caprichosamente acavalgadas [umas sobre as outras], com as suas bastas cabeleiras de garotos, feitas de musgos e de capilarias [de capilares; vegetais ou restos vegetais com a aparência de finos fios]; sorri a paisagem fresca das ribeiras, serpeando pelas campinas verdes; sorriem as casinhas garridas das aldeias, surgindo dos campos de lotos cor de rosa; sorriem os pássaros em gorjeios e os insetos em palpitações de élitros [capas protetoras das asas]; sorriem as crianças, mimosas de carinhos e de louçanias [encantos]; sorri o aldeão, sorri o operário, em doces fisionomias de gente sem cuidados; e sorriem as musumés, as raparigas, frescas, deliciosas de perfis e adoráveis. Lágrimas, meus amigos, creio que só do orvalho aqui logram gotejar. A alegria, disfarçando-se num ambiente de encantos que envolve tudo e todos, assentou aqui decididamente poisada; e tão pródiga, a santa, que nem ao forasteiro regateia algumas horas de maravilhoso enlevo, quando ele vem, farto de si e do mundo [creio que era o caso de Venceslau de Morais], aquecer-se a este sol.

O Japão possui o segredo de tornar-se querido de qualquer que venha da Europa, ainda impressionado pelo fausto das grandes capitais, e ainda saudoso do ninho pátrio que deixou. Quando a gente vem, nem mesmo sabe de onde, de uma longa vagabundagem em terras pestíferas, coalhadas de miséria, consequentemente mais lhe quer. Dissipam-se sonhos negros, langores de misantropo. Assim como os japoneses entram nos templos, largando à porta as sandálias poeirentas, e purificando em santas abluções as mãos e a boca, assim a gente, ao entrar no Japão, deixa à porta a poeira dos amargores passados, e sente em si a alma leve e o espírito impressionável a todas as seduções.”

Venceslau de Morais aos 43 anos de idade em 1897, quando publica "Dai-Nippon", era já homem maduro, viajado e experiente. Atraído pelo país, fica a viver no Japão a partir de 1898, fixando-se inicialmente em Kobe e ocupando a posição de consul português na cidade.

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