quarta-feira, 9 de março de 2016

Venceslau de Morais e o Japão II – Vida em Kobe e em Tokushima


Venceslau de Morais
em Tokushima
De 1898 a 1929, ano do seu falecimento, Venceslau de Morais vive no Japão, numa primeira fase até 1912, enquanto cônsul de Portugal, na cidade de Kobe, depois quando sai do consulado muda-se para a cidade de Tokushima onde ficará a viver definitivamente. Como foi a sua vida no Japão, melhor que nós, vejamos do que dele disseram os seus anfitriões japoneses:

De folheto escrito por Jiro Yumoto, da Prefeitura de Tokushima, de Junho de 1936.
Citado em “Os Amores de Wenceslau de Moraes”, 
Ângelo Pereira e Oldemiro César, 1937, Editorial Labor, Lisboa.

(...) Diz-se ainda hoje, entre a gente de Tokushima, que Morais, com a sua expressão doce e risonha, e acariciando a longa barba branca, amimava as crianças que o rodeavam. Nos seus últimos anos, a mãe de Ko-Haru, que vivia perto, costumava ir de manhã e à tarde a sua casa para fazer a comida e o serviço pessoal. Ele falava sofrivelmente o japonês e os assuntos principais da sua conversa eram os fenómenos naturais das estações do ano, parecendo que nunca se referia a assuntos intelectuais. Diz-se também que Morais falava muito bem o inglês e o francês, e numerosos livros nestas duas línguas foram encontrados no seu espólio.

Teve profunda afeição por suas mulheres Ó-Yoné e Ko-Haru, e há até três obras dele intituladas com estes nomes. Depois da morte de Ko-Haru, todas as vezes que tinha qualquer indisposição, atava, á maneira de Sukeroku [herói de famosa peça teatral japonesa] em volta da cabeça, uma tira rasgada do fato de fazenda kurumegasuri [tecido tradicional japonês] , de Ko-Haru. Poder-se-á  com isto avaliar o sentimento de Morais. Homem que tanto amava a natureza, tanto se afeiçoava á gente humilde e de alma tão compassiva, já não era um simples português, era antes um japonês que adquirira o espírito oriental, ou um peregrino de virtude universal.

É naturalmente difícil revelar neste pequeno folheto a grande admiração que temos por Venceslau de Morais. A coisa que a seu respeito maior impressão moral nos deixou foi o venerável preceito da sua vida, como de um japonês. Vivia como um homem que se tornou completamente nosso. No quarto de oito tatâmis [cerca de treze metros quadrados], que era simultaneamente de estudo e para dormir, tinha centenas de livros, secretária, cadeira, mesa, cómoda, armário e objetos de toda a qualidade, ocupando grande espaço. A sua casa, com os tetos muito baixos, incomodava-o demasiadamente para o seu corpo enorme. Tinha toda a razão de dizer num trecho do Bon-Odori em Tokushima que era necessário muitíssimo cuidado para não bater com a cabeça no teto.

Dedicava-se à meditação, à leitura e à escrita, geralmente sentado naquela secretária modesta, em frente da qual estava colocado para sua adoração o retrato do Imperador Meiji. por cima, á direita, o talismã de Amaterasu-Omikami [deusa principal do panteão xintoísta, da qual diz-se que descende a casa imperial japonesa] , e à esquerda o Meiji-Jingu [santuário xintoísta dedicado ao falecido imperador Meiji]. Guardava também um cigarro com brasão imperial num tubo de vidro fechado com grande esmero.
Este objeto foi arrecadado na Biblioteca Prefeitural Kokei [biblioteca municipal da cidade de Tokushima]. Factos são estes. que nos comovem profundamente. Morais não era um simples examinador do Japão e imitador dos japoneses. Foi realmente um verdadeiro japonês, fiel e sincero, e entusiasta apologista do Japão (...).

Não são poucos os estrangeiros que estudam o Japão ou o louvam. Contudo, Morais que, adquirindo perfeitamente o espírito nipónico, viveu como um verdadeiro japonês e muito louvou o Japão, investigando-o piedosamente, é muito distinto daqueles que querem escrever sobre o Japão só com interesse, observando-o superficialmente. Seria bom chamar-lhe Morais do Japão, nascido em Portugal, em vez de chamar-lhe português.

Morais! Morais! Venceslau de Morais, do Japão!
Que a tua alma descanse em paz eterna no nosso Japão das cerejeiras que tanto amaste, em companhia das tuas queridas Ó-Yoné e Ko-Haru! (...)”

Como tão bem disse Jiro Yumoto, Venceslau de Morais adquiriu “perfeitamente o espírito nipónico”, vivendo “como um verdadeiro japonês”, por isso, sobre a vida e a cultura japonesa vale a pena ler os seus escritos. Claro que hoje o Japão, como Portugal, é um país muito diferente daquele observado há cem anos. Mas é precisamente por ali estarem muitos dos aspetos mais tradicionais do povo e do país que Morais tanto admirou e entre o qual viveu, que a leitura se torna mais interessante. 


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