quarta-feira, 23 de março de 2016

Venceslau de Morais e o Japão III – Alma japonesa


Pintura de Yumeji Takehisa (1884-1934)
Um dos livros mais interessantes de Venceslau de Morais chama-se “Relance da Alma Japonesa”, de 1925. Nessa altura Morais residia no Japão há 27 anos e por isso conhecia muito bem os seus usos e costumes. Tinha abandonado a vida ocidentalizada em 1912, quando saiu do consulado português em Kobe, e vivia desde essa altura em Tokushima, como um verdadeiro japonês.

O capítulo do livro que mais me interessa é o oitavo, “O Amor”. Desde o meu tempo de adolescente, deveria ter 13 ou 14 anos, vivia uma japonesa na minha rua. Nunca troquei uma palavra com ela, mas desenvolvi uma daquelas paixonetas platónicas de adolescente. As únicas emoções cardíacas que tive com ela durante os quase dois anos de fixação, foi a de trocarmos três ou quatro vezes um olhar e um sorriso meio envergonhado, ao passarmos um pelo outro. Depois, descobri que a família tinha ido morar para outro local e nunca mais a vi. Fiquei destroçado, mas naquela idade reciclamos e redirecionamos os nossos afetos com uma velocidade espantosa. No entanto, deixou-me a lembrança de uma figura muito feminina, delicada, de modos suaves, e principalmente despertou em mim a curiosidade em saber mais coisas sobre a vida afetiva no Japão.

A sociedade japonesa mudou muito desde o tempo de Venceslau de Morais, por isso, devemos procurar em primeiro lugar uma informação recente. O jornal diário “Japan Times” de Tóquio, é o mais importante jornal de língua inglesa no Japão. Em Fevereiro de 2011, publicou um artigo de opinião da senhora Kaori Shoji intitulado “O casamento tem pouco a ver com o amor romântico”, do qual se segue uma síntese:

Se quisermos saber porque é que casamos e namoramos cada vez menos, temos de compreender que embora saibamos, em teoria, o que é o amor ou a paixão amorosa, a verdade nua e crua é que não somos suficientemente românticos.
Vejamos o caso de Mitsue, 37 anos e segundo as suas próprias palavras, no auge da sua aparência, disposta a arrumar os seus sapatos altos e a assentar. Ela não está interessada em ter um namorado, mas simplesmente viver com alguém a quem possa chamar “família”. Durante este período de São Valentim planeia usar os seus amadurecidos encantos para conseguir um marido, e está disposta a sacrificar muito – inclusive o seu sonho romântico mantido desde os tempos da juventude.
“Os homens japoneses não compreendem o romantismo” diz Mitsue - que tem escolhido preferencialmente como namorados, americanos e asiáticos do sudeste – “mas paciência, não podemos exigir romance na nossa própria família”.

E aqui está o fulcro da questão. Há esta ideia enraizada de que qualquer coisa cor de rosa, apaixonada ou abertamente sexual, não faz parte do casamento japonês, e consequentemente, no lar da família japonesa. É quase uma regra que os maridos procurem sexo fora de casa, uma vez que esse território pertence à esposa e às crianças e portanto é sagrado. É estranho e é até perverso. Mas essa forma de pensar é prevalente mesmo nas novas gerações, existindo a tendência para se distinguir entre o que é o amor familiar (kazokuai, 家族愛) e o amor relacional (renai, 恋愛). O primeiro diz respeito à vida do dia a dia (seikatsu, 生活 ), o segundo diz respeito ao prazer pessoal, satisfação física, paixão, carinho e outras coisas gratificantes. Há mesmo a noção que se casarmos com a pessoa que amamos, vamos acabar por ficar desapontados e acaba tudo em divórcio. A minha avó tinha uma máxima favorita para esta situação: “escolhe a quinta pessoa da tua lista para parceiro de casamento”. O habitual pedido de casamento do homem japonês é particularmente cru: “queres fazer a minha sopa de missô?”. Há uma fórmula mais antiga mas igualmente questionável: “queres partilhar a minha campa comigo?”.

Mitsue diz que não se importa com estas coisas. Depois de mais de uma década a ouvir declarações de amor ardentes em três línguas diferentes, para ver depois essas relações esboroarem-se, procura agora um compromisso sólido de longo prazo. Ela sabe ao que vai – a vida de casada consiste em comprar ao fim de semana suficiente papel higiénico ou molho de soja para a dispensa e em sacrificar boa parte do tempo de férias a visitar familiares: “mesmo assim quero casar”.
Ela conta casar e seguir uma abençoada vida de dona de casa sengyō shufu (専業主婦), num 2EJC (dois quartos, sala de estar, casa de jantar e cozinha) com um empréstimo a vinte anos. Espera também dormir em quartos separados, como fazem muitos casais japoneses: “Não me importo de partilhar a mesma campa, mas o meu limite é dormir na mesma cama”.

Como descreve Venceslau de Morais o casamento japonês em 1925?

(...) o japonês não casa por amor. O japonês casa para ter um filho, um descendente, um herdeiro, que perpetue o nome da família pouco a pouco desaparecida, à qual então se presta culto no altar dos mortos. Por seu turno, o infante herdeiro casará em tempo próprio, para ter um filho, com iguais garantias e encargos, e assim se irá procedendo sempre, de geração em geração. Curiosos fatos, este do homem branco se lançar inconscientemente, de olhos vendados, apenas impelido por um vago impulso amoroso, na senda do matrimónio, e este do japonês, ignorando o amor, caminhando direito ao seu fim, pedindo à esposa, antes exigindo, uma só coisa: um filho!... O casamento, no Japão, é pois um sentimento profundamente, exclusivamente religioso, derivado do culto da família, do culto dos antepassados (...). Em regra, não há japonês celibatário. Todos casam, e cedo.

Ainda há poucos dias, me dizia um japonês de não vulgar cultura, que, para qualquer dos seus compatriotas, o fato de não ter um filho é considerado uma desgraça. Assim é, e assim foi sempre. Antigamente remediava-se tal desgraça pelo divórcio. A esposa, julgada estéril (muitas vezes injustamente), saía do lar, vindo outra substituí-la. Em todo o caso, antigamente como agora, oferece-se o remédio, embora deixe a desejar alguma coisa, da adoção de filho estranho na família. O sistema de filhos adotivos foi sempre e é muito seguido no império, gozando eles, pelas leis e pelos costumes,  de todos os direitos, e obedecendo a todos os deveres, como legítimos.

Chegado à idade de casar-se, o moço japonês pouco ou nada se ocupa do assunto. Não o interessa. O casamento é, com efeito, e por mais estranho que pareça, mais um evento de família do que um evento dele próprio. É a família que lhe procura noiva, que marca o dia para a festa nupcial; procedendo no caso, em regra, não diretamente, mas por meio de intermediários, que previamente se informam das qualidades morais e outras circunstâncias referentes à futura esposa e dão igualmente informações sobre o noivo à família da noiva. Muitas vezes combina-se um encontro entre a noiva e o noivo, em casa dos intermediários por exemplo, de modo a que se fiquem conhecendo antes das núpcias, e possivelmente se rejeitem um ao outro, no caso muito improvável de surgirem da entrevista repugnâncias invencíveis. E finalmente casam-se, lá vão os dois formar família...

No Japão de hoje já não são as famílias a combinar os casamentos, mas é compreensível que a aceitação por parte da família ainda seja um aspeto de grande relevância para os noivos. A carga religiosa viu também grandemente diminuída a sua importância comparativamente com os anos vinte, algo comum em quase todo o mundo civilizado. O que me pergunto é: serão os japoneses menos sensíveis relativamente aos sentimentos amorosos que os ocidentais, como sugere o artigo do Japan Times? Venceslau de Morais não era nada dessa opinião quando escreveu sobre o assunto nos idos anos vinte do século passado.

O japonês é tão suscetível de sentir o amor passional, com todos os seus transportes afetivos, como o homem branco; ou antes, muito mais suscetível do que este. O exemplo do shinjû, confirma amplamente o que avancei. O que é o shinjû? Vou explicar (...). Um moço qualquer entra em relações de intimidade com uma mulher de má nota, uma dessas raparigas caídas em desgraça, arrastadas ao vício, excluídas ao convívio dos lares calmos e honestos. Surge um motivo, - falta de recursos pecuniários, rumores que a família do mancebo cuida em procurar-lhe noiva, etc. – Vê-se então este compelido a ir confessar aos seus parentes a grave história que o perturba, pedindo-lhes consentimento para casar com a única mulher que ele estima neste mundo. O consentimento é-lhe perentoriamente negado, claro está. Então, ele e ela, - ela talvez, pobrinha sem vontade, submetendo-se passivamente à vontade do homem que a domina, - combinam o último encontro, e suicidam-se juntamente, por qualquer forma.
Chama-se shinjû a este suicídio duplo, não raro no Japão. Parece presidir a este trágico desfecho uma ideia religiosa, falsa; o budismo condena o suicídio, como condena todos os amores desordenados; mas eles, os louquinhos, fabricam um budismo para seu uso, crentes que renascerão para uma nova vida, limpos de impurezas humilhantes e então unidos para sempre...

Mas encontram-se casos ainda bem mais extraordinários; e ides julgá-los. Há apenas uns seis anos, certo professor numa escola primária, na província de Fukuoka, enamorou-se ao mesmo tempo de duas raparigas, professoras também na mesma escola. Resultado final: - suicidaram-se os três, juntamente, num hotel. – Direis, talvez, que se trata de um caso de loucura, ou antes, de três casos de loucura; e direis muito bem, porque a todas as paixões, elevadas aos seus mais tremendos paroxismos, cabe este nome, que nos induz a pôr de parte qualquer investigação que nos perturbe. Em todo o caso, o episódio, tremendamente alucinante, calha bem neste lugar; e vem provar a que estado de efervescência passional, derivada do amor, pode chegar a alma japonesa!...

Deve ainda mencionar-se um processo indireto de ir estudar, agora com deleite, o amor japonês, pelo que a lenda, a poesia e a literatura em geral nos dizem dele. A voz da lenda ou a palavra do autor não contam em geral o que viram; devanearam, contam o que sentem, nada mais; mas sentir uma coisa implica já uma afirmação de possibilidade. A lenda japonesa e a literatura japonesa oferecem-nos interessantes revelações acerca do delicadíssimo sentimento afetivo, que é o amor; levando-nos à plena convicção de que o filho e a filha do país do Sol Nascente sabem amar, como toda a gente sabe amar, universalizando-se o amor.

Reunidos os vários argumentos e considerando as distâncias e as diferenças temporais, parece-me que Venceslau de Morais é mais sensato e tinha razão. A generalização negativa do artigo do Japan Times é certamente exagerada. Mas admito também que quero acreditar, que aquela adorável japonesa da minha juventude, voltou para a sua terra natal  e aí tem sido feliz.

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