domingo, 31 de julho de 2016

Porque é que os portugueses se lançaram ao mar e iniciaram os Descobrimentos?


Gomes Eanes de Zurara.
Padrão dos Descobrimentos, Lisboa.
É um assunto que ainda levanta discussões entre os historiadores. Sabe-se que o arranque inicial, a partir da primeira metade século XV, é liderado pelo Infante D. Henrique. É ele que organizadamente envia embarcações para conhecer a costa africana, e dá início ao que é designado por “Descobrimentos”.

O cronista da época, próximo do Infante D. Henrique, Gomes Eanes de Zurara diz explicitamente nas suas “Crónicas da Guiné” que “(...) imaginamos que sabemos alguma coisa quando conhecemos o seu fazedor e o fim para que ele fez tal obra (...)”, após o que nos expõe as “(...) cinco razões porque o senhor infante foi movido de mandar buscar as terras da Guiné (...)”.  

Zurara não poderia ser mais claro, conhecia bem o Infante e ia dizer-nos o porquê das suas descobertas. Mas os escritos de Zurara carecem de aceitação generalizada.

O livro recentemente reeditado de Peter Russel, “Henrique, o Navegador”, é justamente considerado o que de melhor se tem escrito sobre a pessoa do Infante D. Henrique e os primeiros passos dos Descobrimentos. De realçar que Peter Russel não só tem consigo o grande prestígio da direção dos Estudos Portugueses de Oxford, como foi especialista em história medieval ibérica e socorreu-se profusamente para elaboração do seu livro do melhor que poderiam oferecer alguns dos mais conhecidos e respeitados historiadores portugueses. Peter Russel faleceu em 2006 com 92 anos. Logo na introdução do seu livro, escreve o seguinte sobre Zurara:

“Foi em Portugal, ainda no tempo de D. Henrique e com a sua própria participação ativa, que a personalidade e os feitos do Infante começaram a afastar-se da realidade e a assumir os primeiros contornos do mito. As crónicas do seu coetâneo e devoto admirador, Zurara, orientam fortemente a biografia de D. Henrique nesse sentido. Foi ele quem primeiro tentou retratá-lo no triplo papel de Infante exemplar, cruzado dedicado contra o Islão e savant solitário.”
Mais adiante acrescenta que  Zurara “é para o historiador moderno um biógrafo muito menos satisfatório do que esperaríamos de alguém que esteve tão perto do seu objeto. Fiel à tradicional visão medieval do dever oficial de um cronista, nunca supôs que devia apresentar o Infante de forma objetiva, defeitos incluídos.”

É-me difícil aceitar que Zurara não seja um cronista competente, “menos satisfatório do que esperaríamos” ou pouco “objetivo”. Em especial, a crítica de não incluir os “defeitos” do Infante parece-me deslocada, atendendo a Zurara ser um cronista do século XV, algo que não pode ser comparado a um historiador moderno.

Socorri-me também do extraordinário Dicionário da História de Portugal, a grande enciclopédia histórica dirigida por Joel Serrão,  onde talvez pudesse descobrir mais coisas sobre o cronista. Tenho a edição de 1985 da Figueirinhas, sendo a última entrada do último volume, o sexto, precisamente “Zurara (Gomes Eanes de)”:

“Em contraste com as do seu antecessor [Fernão Lopes], as crónicas de Zurara são constituídas por narrativas elogiosas das proezas guerreiras de grandes personagens. Na Crónica da Tomada de Ceuta declara que averiguou diligentemente as ações de todos os guerreiros nobres, “conhecendo bem que a vontade de el-rei meu senhor é saber perfeitamente todos os merecimentos de seus naturais para honrar a memória dos mortos e remunerar os vivos pelos trabalhos de seus pais e deles mesmos”. Esta conceção da história, repetida em vários outros textos de Zurara, coincide com o reforço do poder senhorial no reinado de D. Afonso V e com a ideologia cavaleiresca então dominante. A fonte principal de Zurara é o testemunho oral das personagens biografadas. Assim, para os feitos do Infante D. Henrique, é o próprio Infante, chefe e protetor de Zurara. Este método não é propício à objetividade histórica (...)”.

Mas se Zurara vai escrever sobre a obra do Infante, tendo-o ali a seu lado e podendo falar com ele sobre o assunto, se o fizer é criticado por não ter “objetividade histórica”? Então que dizer da grande maioria das biografias e autobiografias dos últimos cem anos? Parece-me uma crítica injusta. A verdadeira razão da má vontade contra Zurara descubro-a na continuação do texto:

“(...) as crónicas de Zurara são quase omissas acerca dos fenómenos coletivos e dos aspetos económicos e sociais, muito desenvolvidos por Fernão Lopes. A opinião do vulgo, sempre depreciada, só aparece em contraste com a razão do herói. As duas grandes ideias que norteiam Zurara são, por um lado, a “honra” cavaleiresca e, por outro, a dilatação da Fé, a qual teria sido o móbil do Infante no descobrimento da costa africana (...)”

Repare-se no condicional em “teria sido o móbil do Infante”. Quer dizer-nos que pode não ter sido esse o motivo. Mas não compreendo como se pode concluir que, sendo Zurara apoiante do poder da época, mesmo que omita factos considerados importantes pelos historiadores atuais, da área social e económica, tenha em consequência disso errado a exposição dos motivos das descobertas henriquinas. Mais parece é que alguns historiadores, incluindo Russel, adotaram uma atitude anti-Zurara, o que não deixa de ser curioso de constatar, pois passaram mais de cinco séculos.

Estou convencido que Zurara referiu precisamente aquilo que na sua opinião foram as principais razões do arranque dos descobrimentos, e que essas razões não se fundamentaram apenas em aspetos de interesse direto, social ou económico, que Zurara não deixa de referir, mas também outros, de caráter ideológico, religioso e geoestratégico. 

Rosa de Santa Maria
Importa sublinhar que os anos iniciais das descobertas vistas pelo prisma económico, são um desastre. A primeira descoberta de relevo, a passagem do Bojador por Gil Eanes em 1434 [Ver NOTA FINAL], demorou anos a conseguir, depois de muitas tentativas frustradas. Quando Gil Eanes finalmente teve sucesso e voltou para Portugal, a única coisa que trazia consigo eram exemplares de uma planta das regiões semidesérticas - que batizaram com o nome de “Rosa de Santa Maria”. 
Para quê manter tal empreendimento, de descobrir novas terras, sem benefícios que minimamente pudessem compensar custos de embarcações e vidas perdidas? Seria certamente algo de difícil compreensão sobretudo para a sua própria época, especialmente depois da tentativa falhada da conquista Tanger em 1437, desastre em que o Infante tinha grandes responsabilidades.

Vejamos então as cinco razões adiantadas por Zurara para explicar as descobertas henriquinas:

1º Curiosidade
Não é uma curiosidade qualquer, a de querer conhecer o mundo, embora Zurara a transmita de forma simples dizendo que o Infante “(...) tinha vontade de saber quais as terras que estavam para além das Ilhas Canárias e de um cabo, que se chama Bojador (...)”. Ao mesmo tempo lamenta que “(...) nem mareantes nem mercadores (...)” tentariam começar com essas viagens, “(...) porque claro está que nunca nenhuns deles se trabalham de navegar senão para donde conhecidamente esperam proveito (...)”.

2º Comércio
Para a sustentabilidade a prazo da empresa era necessário encontrar formas de obter algum tipo de rendimento,  por isso Zurara adianta a relevância dessa possibilidade “(...) se fosse encontrada alguma povoação ou porto cristão (...) poderiam ser levadas muitas mercadorias que teriam bom mercado, pois [além dos portugueses] os naturais (...) não teriam outras pessoas com quem tratar (...)”.

3º Avaliar a área de influência dos mouros
Em permanente conflito com os mouros, tendo por responsabilidade o controlo de Ceuta, e a chefia de uma armada, percebe-se a preocupação do Infante, daí Zurara indicar que “(...) trabalhou o dito senhor de mandar saber, para determinadamente conhecer até onde chegava o poder daqueles infiéis (...)”.

4º Encontrar aliados 
O Infante “(...) queria saber se se achariam naqueles lugares alguns príncipes cristãos, em que a caridade e amor por Cristo fosse tão forte, que quisessem ajudar [no combate] contra aqueles inimigos da fé (...)”. Acreditava-se poder encontrar reinos cristãos longínquos em África, como o de Preste João, a quem Zurara faz uma referência explícita no capítulo XVI das Crónicas da Guiné, revelando que além da costa africana, o Infante disse que desejava ter conhecimento “(...) das Índias e da terra de Preste João (...)”.  

5º Dilatação da fé cristã
A última razão referida por Zurara, é o “(...) grande desejo que havia de acrescentar na santa fé de nosso senhor Jesus Cristo, e trazer a ela todas as almas que se quisessem salvar, conhecendo que todo o mistério da encarnação, morte e paixão de nosso senhor Jesus Cristo, foi obrado a este fim (...)”.

Estas razões parecem facilmente entendíveis e lógicas. Na História de Portugal coordenada por Rui Ramos, no capítulo VII da Primeira Parte – Idade Média (séculos XI-XV), da responsabilidade de Bernardo Vasconcelos e Sousa, sob o título “A exploração da costa africana”, expõem-se resumidamente as “cinco razões” de Zurara, ajuizando-se entre outras considerações, que delas “ressalta uma perspetiva coerente para a ação do infante D. Henrique”.


Também sobre as “razões” que Zurara atribui ao Infante, Damião Peres na sua “História dos Descobrimentos Portugueses” de 1943, uma das obras fundamentais sobre os descobrimentos, declarava que “no seu conjunto, as afirmações de Zurara correspondem a uma visão clara e integral da ação do Infante, bem preferível a qualquer das apreciações modernas. O cronista não no-lo mostra como extrema personificação do espírito de cruzada, nem como a mais perfeita expressão dum miserável interesse mercantil; pelo contrário, situando-se entre os extremos dum elevado ideal ou de inferiorizantes aspirações materiais, criados por autores unilateralmente apaixonados, deixa claramente entrevê-los como alguém em cujo espírito ecoavam todos os anseios, todas as aspirações, todos os interesses que constituíam a vida europeia de então”.

NOTA FINAL:
Estamos no reinado de D. Duarte I, que termina com o seu falecimento em setembro de 1438. D. Duarte, filho de D. João I, era o irmão mais velho do Infante D. Henrique e pai de Afonso V. 

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