sábado, 10 de setembro de 2016

O Padre António Vieira e a Gestão


Padre António Vieira [1608-1697]
Os textos do Padre António Vieira estão carregados de sensatez e de observações interessantes. Existe na internet um enorme número de pequenas citações extraídas dos seus textos. As citações são úteis, porque despertam curiosidade para a leitura da obra, mas são quase sempre insuficientes. A frase fora do contexto é mais pobre do que se for entendida tal como foi pensada e escrita, integrada na lógica do raciocínio completo. Por isso optei por selecionar, não citações ou frases curtas, mas textos um pouco mais extensos, retirados de alguns dos seus sermões, onde melhor se pudesse compreender o que o Padre António Vieira pretendia transmitir.

Procurei recortes que se relacionassem com assuntos de Gestão. Pareceu-me ser uma forma diferente da habitual de mostrar a sua atualidade.


SOBRE COMO DECIDIR

O primeiro texto é sobre a guerra, mas pode-se generalizar a todos os gestores que têm de decidir sobre assuntos complexos que envolvem os destinos de grandes grupos de pessoas, como são as empresas, as instituições do estado ou mesmo as nações. Conseguir ter segurança quanto às decisões a tomar é por vezes muito difícil.
O Sermão de Santa Cruz foi apresentado na Festa dos Soldados, em 1638, na Bahia, Brasil, perante a Armada Real e muita nobreza:

“(...) O maior perigo e perdição da guerra é cuidarem os doutores desta arte que sabem tudo. Os sábios em qualquer faculdade mais sabem ouvindo que discorrendo, e mais acompanhados dos que sós. “Meliores aestimantur qui soli non omnia praesumunt” — diz o grande político Cassiodoro [1]: que sempre “Foram estimados por melhores os que de si só não presumem tudo”. — Já se a presunção do saber se ajunta à soberania do poder, como em Nicodemos [2] que era mestre e príncipe, nestes dois resvaladeiros [3] está certo o precipício e a ruína. Para conseguir efeitos grandes, e para levar ao cabo empresas dificultosas, mais segura é uma ignorância bem aconselhada que uma ciência presumida [sublinhado nosso].

A primeira vitória para alcançar outras muitas é sujeitar o juízo próprio quem não é sujeito ao mando alheio. Perguntado Alexandre Magno com que indústria ou com que meios em tão breve tempo se fizera senhor do mundo, diz Estrobeu [4] que respondera estas palavras: “Consilii, eloquentia et art imperatoria”: “Com os conselhos, com a eloquência, e com a arte de governar exércitos”. No último lugar pôs a arte, e no primeiro o conselho, porque o conselho é a arte das artes, e a alma e inteligência do que ela ensina. A arte prescreve preceitos em comum, o conselho considera as circunstâncias particulares; a arte ensina o que se há de fazer, o conselho delibera quando, como e por quem (...) .”

Decisões complexas, implicam avaliar a realidade, saber quais as alternativas disponíveis para a ação e escolher a melhor. Dificilmente uma única pessoa consegue isoladamente, reunir as melhores destas competências. Por isso, é preferível fazer participar nas decisões os que as têm de pôr em prática. Fazer outros participar nas decisões é além disso criar união de propósitos e valores, comprometer com a ação e motivar a vontade.
A decisão individualista pode parecer mais simples, mais rápida e com menos dificuldades do que fazer participar pessoas com diferentes perspetivas, mas o risco de fracasso é maior.


SOBRE O PLURIEMPREGO DAS ELITES

Um outro texto do Padre António Vieira de 1655, proferido em plena Capela Real em Lisboa, o Sermão da Terceira Dominga [5] da Quaresma, remete-nos para um tema interessantíssimo:

“(...) Há sujeitos na nossa corte que têm lugar em três e quatro tribunais: que têm quatro, que têm seis, que têm oito, que têm dez ofícios [sublinhado nosso]. (...) Não era cristão Platão, e mandava na sua república que nenhum oficial pudesse aprender duas artes. E a razão que dava era porque nenhum homem pode fazer bem dois ofícios. Se a capacidade humana é tão limitada que para fazer este barrete são necessários oito homens de artes e ofícios diferentes, um que crie a lã, outro que a tosquie, outro que a carde, outro que a fie, outro que a teça, outro que a tinja, outro que a tose [6], e outro que a corte e a cosa; se nas cidades bem ordenadas, o oficial que molda o ouro não pode lavrar a prata, se o que lavra a prata não pode bater o ferro, se o que bate o ferro não pode fundir o cobre, se o que funde o cobre não pode moldar o chumbo nem tornear o estanho, no governo dos homens, que são metais com uso de razão, no governo dos homens, que é a arte das artes, como se hão de ajuntar em um só homem, ou se hão de confundir nele, tantos ofícios? (...)”.

A admiração do Padre António Vieira coincide com a nossa, principalmente por já existir no século XVII o fenómeno dos cargos dirigentes em circuito fechado. Esta prática tem sido associada ao sistema económico moderno [7], mas é bem mais antiga. Já no tempo de Vieira existia uma elite que preenchia os cargos mais importantes do poder, em sistema de pluriemprego.


SOBRE A MENSAGEM

Como o anterior sermão, o famoso Sermão da Sexagésima, é do mesmo ano de 1655 no mesmo local, a Capela Real. É um sermão magnífico, mesmo para pessoas não religiosas, como é o meu caso:

Sobre a falta de eficácia da pregação junto dos índios do Brasil, perguntava o Padre António Vieira “(...) Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? (...).” E recomendava que o “estilo há de ser muito fácil e muito natural e que o “sermão há de ter um só assunto e uma só matéria[sublinhados nossos].

“(...) Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem?(...)”.

O pior para quem comunica é empregar maneirismos, percorrer desvios ou usar apartes, que atrapalhem e anulem a concentração dos ouvintes sobre o assunto principal que se pretende transmitir. Evitar complexidades desnecessárias e ser direto, conciso, objetivo, claro e nunca demasiado prolongado, são conselhos que ouvimos sempre dos especialistas em comunicação. Um dos princípios mais conhecidos sobre eficácia da comunicação é o KISS (Keep It Simple and Stupid – Mantém Isso Simples e Estúpido).


SOBRE PALAVRAS E AÇÕES

Outro texto também do Sermão da Sexagésima, quando o Padre António Vieira explica que a questão fundamental da falta de eficácia da pregação não eram as palavras:

“(...) A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? – o conceito que de sua vida têm os ouvintes (...). Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem [sublinhado nosso] (...).”

A palavra, o discurso, é menos eficaz do que possamos por vezes pensar. Um dos campeões de vendas dos livros de gestão, o canadense Malcolm Gladwell [8], esclarece no seu livro “Blink”: “(...) toda a gente sabe que é melhor ter um especialista para mostrar-lhe – e não apenas dizer-lhe – como se joga o ténis ou o golfe, ou se toca um instrumento. Aprendemos pelo exemplo e pela experiência direta, porque existem limitações à capacidade da instrução verbal [sublinhado nosso] (...)”.
A aprendizagem académica ou profissional, em aula, apenas pela leitura ou com meios audiovisuais, é retida pelo ser humano em menos de 20% dos casos, enquanto que por exemplo a aprendizagem prática, é retida com sucesso em mais de 75% dos casos. Os pedagogos defendem que as crianças aprendem mais pelo exemplo, do que pela retórica dos educadores, pais e professores [9]


Usei apenas três sermões, todos com mais de 350 anos, mas o Padre António Vieira, tem muitos outros escritos: só sermões e cartas são às centenas. Este exercício poderia prolongar-se até onde desejássemos sobre os mais variados temas.  


NOTAS:
[1] Flávio Magno Aurélio Cassiodoro (490 — 581), político e escritor romano.
[2] Nicodemos - fariseu que viveu no tempo de Jesus. Era membro do Sinédrio e Mestre da Lei. Segundo o Evangelho de João, apoiava Jesus.
[3] Resvaladeiros – lugares inclinados e escorregadios onde se resvala com facilidade.
[4] “Estrobeu” não encontrei. Poderá ser Estrabão (64 a.C.- 24 d.C.), geógrafo grego que na sua “Geografia” tem inúmeras referências a Alexandre Magno.
[5] Dominga – domingo.
[6] Tosar – aparar a felpa do pano.
[7] Ver na Wikipedia “Elite theory” e como fenómeno relacionado “Interlocking directorate”. Poderá ter interesse, ver também na Wikipédia “Revolving door”. Aconselho a leitura destes assuntos na Wikipédia em inglês. Em português, ou não existem ou não estão suficientemente desenvolvidos.
[8] Malcolm Gladwell é escritor e jornalista. Todos os seus livros entraram na lista dos livros mais vendidos do New York Times.

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