sábado, 29 de outubro de 2016

Janela aberta para o mundo (sobre a Janela do Capítulo do Convento de Cristo em Tomar)


Janela do Capítulo

Quando o Grão-Mestre templário Gualdim Pais [01], companheiro de armas de Afonso Henriques, construiu o Castelo de Tomar e o Convento de Cristo no século doze, fixando Tomar como quartel general da Ordem dos Templários em Portugal, não poderia imaginar que desta instituição, dois séculos mais tarde designada por Ordem de Cristo (Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo), iria nascer a grande realização épica que foram os descobrimentos.  Além do Infante D. Henrique, muitos dos grandes navegadores foram membros da Ordem de Cristo: Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães, etc.

É neste local mítico que encontramos a mais elaborada peça escultórica em pedra que existe em Portugal; construída ao longo do século dezasseis é símbolo maior das descobertas marítimas dos portugueses: a Janela do Capítulo do Convento de Cristo.

Quem com grande conhecimento e brilhantismo descreve a janela e a fachada ocidental da igreja do Convento de Cristo é Vieira Guimarães, de seu nome completo, José Vieira da Silva Guimarães (1864-1939). Ilustre nabantino, fez um pouco de tudo. Que saibamos, foi médico-cirurgião, professor de geografia e história no Liceu de Lisboa, sócio correspondente da Real Associação dos Arquitetos e Arqueólogos Portugueses, vice-secretário da secção de história e vogal da secção de excursões cientificas da Sociedade de Geografia de Lisboa, Comendador da Ordem de N. S. J. Cristo, deputado, historiador e escritor ensaísta, com múltiplas obras publicadas [02]. Deixou como herança à sua querida Tomar a Casa Vieira Guimarães. O edifício fica junto ao rio Nabão e a intenção de Vieira Guimarães era que após sua morte, pudesse servir como espaço cultural da cidade. Propriedade da câmara municipal de Tomar, até hoje a Casa Vieira Guimarães tem sido usada para esse fim. Aí se realizam exposições, conferências, etc. É sede da comissão das Festas dos Tabuleiros.

Excerto de “A Missão de Portugal e o Monumento de Tomar” de Vieira de Guimarães [03]

(...) A fachada do poente ostenta a mais alta, a mais simbólica expressão do génio artístico de uma raça. Se no egrégio mestre da ilustre Ordem de Cristo, o imortal D. Henrique, cristalizou a irresistível tendência do povo português para desvendar os segredos do Oceano, nesta fachada soberba está em rendilhadas pedras, em motivos nacionais e estranhos, essa mesma patriótica intenção, esse famoso pensamento, essa elevada missão que custou 80 anos e que foi realizada com maior esforço DO QUE PROMETIA A FORÇA HUMANA. No todo dela avulta uma página grandiosa, sublime, portuguesa como nenhuma outra, que se levanta no glorioso solo da nossa pátria.

É vê-la; pois vendo-se é que se faz ideia desta portentosa joia arquitetónica, que enche de orgulho os portugueses, que nela provam o intenso grau da sua sentimentalidade e estética. Não são pedras, são letras; não é uma estrofe, é um poema, é uma epopeia. Se desaparecessem Os Lusíadas, o que jamais sucederia, aqui está esta fachada a cantar altisonantemente as nossas empresas gloriosas, imortais, homéricas, que fizeram do povo português o mais ilustre das idades modernas.
Ladeiam-na dois altos botaréus [04], que são como que a moldura do grande quadro, e no género obras-primas, ricamente ornamentados com guarnições de corais. As do lado do sul emolduram estátuas, que as divisas dos escudos denunciam ser de D. Afonso Henriques, D. Dinis e D. Manuel; as do lado do norte figuras de anjos, que seguram as divisas do rei Venturoso.
Por baixo destes quadros de corais arrimam-se troncos de sobreiros com as raízes pendentes, amarrados às fachadas, uns por uma grossa corrente e outros por uma graciosa correia, que enfia numa formosíssima fivela, talvez símbolo do grau da Cavalaria da Jarreteira, que D. Manuel possuía.

Vieira Guimarães [1864-1939]
Na parte superior adelgaçam-se os botaréus; cinco festões de papaver somniferum [05] com seus frutos quebram as esquinas e fazem como que base a uns formosos pináculos coroados pela cruz de Cristo.
Ao centro, abre-se a celebérrima janela do baixo coro; e nela e à roda dela, que se vos patenteia? As letras rendilhadas com que os geniais artistas do grande João de Castilho [06] escreveram o poema das nossas navegações POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS. 
As notas vibrantes da marcha triunfal do progresso, em que a alva bandeira de Cristo flutuava ao sol radioso da nossa glória sobre mastros de mil navios; quadro soberbo em que respira a alma da nossa pátria, em que palpita a intensa vida do nosso século XV, e que canta com toda a força e verdade a sublime missão histórica de Portugal.

Nesta fachada gloriosa vemos os polipeiros de coral, as vieiras das praias descobertas, os ramos retorcidos dos nossos seculares sobreiros, as ondas dos mares por nós sulcados, as guizeiras dos nossos solípedes [07], as correntes das nossas naus, os cabos boiados das nossas redes, folhas e cápsulas das nossas dormideiras, cordas, uma ancora, argolas, algas, pranchas de cortiça dos nossos sobreirais, cães, ratos, a lendária mantichora [08], um marinheiro agarrando um carvalho pelas raízes, talvez para utilizar o gigante roble [09] na fabricação da sua nau, as velas arfantes e risadas dessas elegantes caravelas que nos levaram às risonhas plagas [10] indianas: tudo aqui se consubstancia, se avulta, se estiliza, representando uma ideia grandiosa, augusta, épica.

Esta fachada, encerra toda a historia dos nossos gloriosos séculos XV e XVI no que eles têm de grande, heroico, cavalheiresco, navegante e conquistador. É uma bela página em que se cristaliza todo o sentir da nacionalidade portuguesa, e padrão glorioso que podemos apresentar orgulhosos ao mundo inteiro, pois é «a obra mais eloquente, mais convicta, mais entusiasticamente patriótica, mais estremecidamente portuguesa que jamais realizou em nossa raça o talento de esculpir e de fazer cantar a pedra», como diz o grande escritor e português Ramalho Ortigão [11]. O monumento de Tomar é nesta igreja e principalmente nesta fachada, a mais sublime expressão, a mais nacional, a mais simbólica, a mais representativa, das nossas navegações, do gloriosíssimo triunfo, sobre os mares, da nossa querida pátria (...).

Esta janela pode apresentar um duplo sentido, conforme a perspetiva: para quem está dentro, para os cavaleiros da ordem, transmitir a ideia de missão, de expansão da fé cristã e de manter e alargar o império; para o observador externo, apercebemo-nos que a origem, o ponto central e nevrálgico das descobertas, encontra-se aqui, na Ordem de Cristo em Tomar. E foi sob as velas com a cruz desta ordem, que se percorreu o mundo e ficámo-nos a conhecer todos uns aos outros.

                
NOTAS:

[01] Gualdim Pais (1118-1195) – Foi o terceiro Grão-Mestre da Ordem do Templo (Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão) em Portugal e transferiu a sua sede de Soure para Tomar em 1160.

[02] Obras de Vieira Guimarães sobre Tomar e a Ordem de Cristo: A Missão de Portugal e o Monumento de Tomar; O poema de pedra de João Castilho em Tomar; Tomar Arqueológica e Artística do Monumento de Cristo e das Igrejas de Santa Maria dos Olivais, de Santa Iria e de S. João; A cruz da ordem de Cristo nos navios dos descobrimentos portugueses; O monumento de Cristo, em Tomar, e as missões religiosas; Tomar e o além-mar; Marrocos e três mestres da ordem de Cristo; O Século XII e a Fundação do Castelo de Tomar; A trilogia monumental de Alcobaça, Batalha, Tomar e o caminho de ferro; A Ordem de Cristo; O claustro de D. João III em Tomar.

[03] O subtítulo é “Conferência realizada no Convento de Cristo no dia da excursão científica da Sociedade de Geografia de Lisboa à cidade de Tomar”. Usei a versão original de 1905, edição da Tipografia da Empresa da História de Portugal, com as correções ortográficas necessários do português atual. Socorri-me ainda da adaptação do texto original, feita pelo próprio Vieira Guimarães, que integrou o livro para os três primeiros anos do Ensino Secundário “Leituras Portuguesas” da responsabilidade de J. Barbosa Bettencourt, edição da Aillaud e Bertrand, 1907, páginas 300-303, “133- Fachada ocidental da igreja do Convento de Cristo, em Tomar”.    

[04] Botaréu – contraforte de reforço para sustentação de arcos ou de paredes (como é este o caso).

[05] “papaver somniferum” – papoila-dormideira ou dormideira.

[06] João de Castilho (1470-1552) – Embora nascido na Cantábria, fez a sua carreira principalmente em Portugal. É por isso considerado um dos maiores arquitetos da nossa história, e um dos grandes da Europa do renascimento. Autor de uma vasta e notável obra construída, João de Castilho encontra-se ligado à edificação de cinco monumentos históricos classificados pela UNESCO como Património Mundial, com grande destaque para o Mosteiro dos Jerónimos e o Convento de Cristo, onde a sua ação foi determinante. Entre muitas outras obras de sua responsabilidade, teve também intervenção no Mosteiro de Alcobaça, no Mosteiro da Batalha e na construção da fortaleza de Mazagão, igualmente classificados como Património Mundial. Ver na Wikipedia.

[07] Solípedes – Diz-se do animal mamífero que possui os dedos unidos num único casco: os equídeos como o cavalo e o burro, são solípedes.

[08] Mantichora – criatura mitológica, semelhante à esfinge egípcia, com cabeça de homem, afiadas fileiras de dentes do tipo do tubarão e voz trovejante; tem corpo de leão  e cauda de escorpião ou de dragão, podendo possuir asas ou não.

[09] Roble – Carvalho

[10] Plagas – Região, território.      

[11] O Culto da Arte em Portugal de Ramalho Ortigão, edição António Maria Pereira, 1896.

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