quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Ceticismo, uma posição pessoal II: (C) As “Medicinas Alternativas” e (D) Abiogenesis, evolucionismo e criacionismo


Árvore da Vida
Na continuação do texto anterior selecionei dois assuntos frequentemente discutidos pelo movimento cético que são as “medicinas alternativas” e a crítica ao criacionismo.

(C) As “Medicinas Alternativas”

Embora se perceba pelas aspas que não considero as “medicinas alternativas” como verdadeiras alternativas à medicina convencional, gostaria de esclarecer que não sou completamente acrítico às limitações da medicina convencional. Tem sobretudo muitas coisas boas mas também há coisas menos boas. 

Medicina Convencional

1– Aspetos positivos

As terapêuticas modernas exigem demonstração científica. No caso por exemplo das terapêuticas medicamentosas essa demonstração é apresentada em revistas científicas especializadas com estudos e ensaios pré-clínicos e clínicos e ainda perante as autoridades de saúde competentes que decidem da autorização de uso do medicamento. Esta medicina está dependente da demonstração de “evidência” de resultados eficazes para a prevenção e para o tratamento das doenças e sintomas e também da demonstração de “evidência” de resultados sobre segurança [01].
                 
      2– Insuficiências, erros e aspetos negativos

A medicina pela “evidência” como todas as obras humanas está sujeita a erros, vive com recursos que são limitados e a ciência médica, apesar dos avanços dos últimos 100 anos, ainda não sabe tudo o que se passa no organismo humano. Continuando com o exemplo dos medicamentos: 
(A) Os ensaios não conseguem prever todos os efeitos tóxicos de longo prazo nem efeitos secundários graves de pequena incidência – por exemplo, a morte de 1 doente por 1.000.000 doentes tratados é dificilmente detetável; 
(B) Podem existir interesses – públicos ou privados – que “favoreçam” ou “desacreditem” os resultados dos ensaios consoante o pretendido. Nem todos os medicamentos usados nos EUA são aceites para utilização na União Europeia e o contrário também é verdadeiro, e mesmo dentro dos países da UE encontramos diferenças significativas na avaliação e na aprovação; 
(C) A “evidência” não é favorável para 100% dos doentes. Há sempre uma percentagem de doentes, na maioria dos casos relevante, onde não se consegue demonstrar qualquer benefício ou que apresentam efeitos secundários que obrigam à desistência do tratamento. A área da psiquiatria, é um exemplo onde parece ser muito difícil a obtenção de resultados favoráveis da terapêutica medicamentosa, visto que para a maioria dos doentes não se consegue compreender a etiologia (estudos das causas ou da origem) dos principais “síndromas” (conjunto de sinais ou de sintomas que ocorrem juntos) da doença mental.

“Medicinas Alternativas” 

Aproveitam-se da ingenuidade dos doentes e das insuficiências da medicina convencional para prometerem segurança e tratamento de muitas doenças. As “medicinas alternativas” mais em voga são talvez a Homeopatia e a Acupuntura, mas muitas outras existem, como a Aromaterapia, a Naturopatia, a Quiroprática, o Herbalismo, etc.
Apenas relativamente às duas primeiras, que nos parecem mais importantes, vejamos:

1- Acupuntura

Segundo os crentes da Acupuntura, a energia vital do corpo (Qi) circula através de canais chamados meridianos, que têm ligações aos principais órgãos do corpo. As doenças são atribuíveis às perturbações do Qi. O tratamento é aplicado inserindo agulhas em locais específicos designados como pontos de acupuntura ou acupontos. Originariamente existiam 365 pontos, correspondentes ao número de dias do ano, mas o número aumentou até aos cerca de 2 mil pontos atuais.
Nada disto é confirmado pelos conhecimentos científicos dos nossos dias. A acupuntura é uma modalidade de tratamento sem provas científicas e os doentes que dizem sentir melhorias, foram provavelmente sugestionados por uma combinação de mecanismos psicológicos, semelhantes aos que estão na origem dos efeitos de um placebo [02].

2- Homeopatia

A Homeopatia surge com o médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843), que acreditava na possibilidade de se tratar uma doença, com pequenas quantidades de uma substância que produzisse sintomas similares ao dessa doença. Usava por isso substâncias enormemente diluídas, dizendo que quanto menor a dose, mais forte seria o efeito.
Estas híper diluições [03]  contradizem a ciência farmacológica, que relaciona a dose com o efeito.

Carl Sagan e Fred Hoyle: grandes
cientistas e divulgadores da Ciência.
Concordo plenamente com a posição do movimento cético contra as “medicinas alternativas”, e sinto falta de maior controlo e assertividade informativa da comunidade médica e das autoridades de saúde, perante essas “alternativas”. Ainda no passado dia 3 de Abril de 2017, o jornal gratuito “Destak” informava existirem 16 mil estudantes e recém-diplomados das terapêuticas alternativas “impedidos de trabalhar legalmente” em Portugal. Tenho pena desses estudantes, mas espanto-me como foi possível a existência de cursos com estes conteúdos. Os Ministérios da Educação e da Saúde não terão uma responsabilidade a este nível?

A influência das teorias "alternativas" sobre saúde na net, na tv e nos jornais é tal, que alguns encarregados de educação mais influenciáveis não vacinam os filhos e outros impõem-lhes regimes alimentares radicais, inadequados ao desenvolvimento das crianças.  Existem grupos que “lutam” pela legalização da marijuana como droga recreativa, cegos aos riscos para a saúde já demonstrados pelo seu uso [04] e poucos são os que se manifestam contra. Parece-me que infelizmente certos assuntos saltaram da esfera científica para a esfera política. É a única explicação plausível que encontro para o silêncio face a estes disparates.


(D) Abiogenesis, evolucionismo e criacionismo

Abiogenesis e evolucionismo

Tradicionalmente a ciência oficial do século vinte defendeu que os primeiros organismos vivos, muito simples inicialmente, surgiram no nosso planeta – abiogenesis - e gradualmente, num processo que durou milhões de anos, se transformaram em seres cada vez mais complexos, culminando com o aparecimento dos seres humanos – evolucionismo.

Os principais protagonistas do movimento cético defenderam sempre o evolucionismo e num primeiro momento, até pelo menos 2010 a abiogenesis. No entanto a abiogenesis não está provada cientificamente. Apesar das muitas teorias e das muitas experiências realizadas em laboratórios, nunca, a partir de matéria inerte, por nenhum processo conhecido, se conseguiu criar vida. Não estou a afirmar que não seja possível um dia qualquer, um laboratório conseguir realizar essa proeza,  simplesmente não o fizeram, pelo que hoje ainda não existem as necessárias provas científicas.
O próprio evolucionismo contém lacunas por preencher na clássica “árvore da vida”. Por exemplo, não obstante o número de registos fósseis e estudos nesta área, a evolução dos insetos ainda está em grande parte por explicar, quando são eles que constituem a maior biomassa de todos os animais terrestres, cerca de 10 quadriliões de indivíduos ou o número 1 seguido de dezanove zeros - 10.000.000.000.000.000.000 [05].

Criacionismo

Também nunca existiram provas científicas que provassem o criacionismo: a criação dos seres humanos por terceiros, que todas as religiões defendem por atribuição a(os) Deus(es). Só que neste caso, não é verosímil que qualquer religião se apetreche dos estudos científicos necessários para produzir qualquer prova. A religião baseia-se na fé dos seus crentes, não propriamente em dados científicos.


Há pelo menos duas leituras que aconselho, pois ajudaram-me a pensar sobre a origem da vida e a sua evolução no tempo:

1)    O Universo Inteligente de Fred Hoyle [06] - o livro que disponho é da ed presença, 1984. O tema é a chamada “panspermia” - uma tese com origem na Grécia antiga, retomada no início do século vinte pelo sueco Svante Arrhenius [07] e desenvolvida por Hoyle: as “sementes” da vida na Terra vieram do espaço através de “poeira cósmica” e de meteoritos.
A insuficiência desta tese é não resolver a questão da origem da vida, limitando-se a transferir essa origem para um outro corpo celeste. No entanto, Hoyle tem razão quando afirma que a abiogenesis ao limitar a origem da vida ao nosso planeta, representa uma visão desnecessariamente limitada e de certa maneira, geocentrista.

É curioso verificar que, apesar de ter sido durante muito tempo ridicularizada, a panspermia tenha vindo a ser admitida, sobretudo nos últimos anos, como plausível por uma grande parte da ciência oficial, constando inclusive dos modernos livros de ensino da biologia.

(2)    Forbiden Archeology de Michael Cremo e Richard Thompson [08]. O tema do livro é que múltiplas descobertas arqueológicas de relevo têm sido escondidas/desprezadas pela arqueologia moderna por não se encaixarem na teoria dominante sobre a evolução humana. É um livro de 900 páginas, cheias de artefactos e provas que fazem recuar o aparecimento do homem moderno para umas dezenas de milhões de anos atrás. O livro é criticado pela maioria dos arqueólogos por ser pseudo científico, mas não é essa a impressão deixada a quem o lê.

Fiquei com sérias dúvidas sobre a atitude da arqueologia oficial depois de ter tido conhecimento do caso ocorrido com a arqueóloga Virginia Steen-MacIntyre a propósito de Hueyatlaco, no México [09]. Os fatos descritos deixam-nos pelo menos apreensivos, relativamente à oposição das instituições e revistas científicas colocadas perante dados novos que não se encaixam dentro do quadro das opiniões e teses maioritárias. Não querer saber de dados novos não é próprio de quem se intitula cientista.

Tanto no caso do livro “Forbidden Archeology” como no caso de Hueyatlaco não me interessam tanto as teorias que possam ter Michael Cremo e Richard Thompson ou Virginia Steen-MacIntyre, mas muito mais nas provas por eles apresentados.

Não sendo ateu mas agnóstico, não poderia em coerência ser adepto da abiogenesis ou do criacionismo, muito embora apesar das suas lacunas, julgar que o evolucionismo está razoavelmente provado para muitas espécies. Certezas tenho, que a abiogenesis e o criacionismo carecem de prova científica e que ainda não passam de hipóteses teóricas por demonstrar.


Comentário final:

Poderia ainda falar de vários outros temas que preocupam (e ocupam) o movimento cético. Perspetivas com as quais estou de acordo, como por exemplo sobre o preconceito racista ou a falsidade das “artes divinatórias”, e menos de acordo ou ainda com muitas dúvidas, como por exemplo sobre a antropogenia das chamadas “alterações climáticas”, onde ainda há muito por esclarecer, e sobre a inexistência dos OVNIS [10]. O meu ceticismo pessoal não é do tipo ortodoxo.

Em todos estes assuntos procuro manter-me fiel a algumas ideias gerais de Carl Sagan [11]. Ele afirmava que a “verdade  pode ser difícil de compreender, pode ser contraintuitiva e pode negar as nossas crenças mais profundas. Pode não estar de acordo com aquilo que gostaríamos que fosse. Mas as nossas preferências não determinam a verdade” (...) e que “o que conta, não é aquilo que gostaríamos de acreditar, nem aquilo que uma ou duas testemunhas afirmam, mas só o que é comprovado por provas concretas, examinadas rigorosa e ceticamente. Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”.

Embora pareça lógico, não é fácil pensar desta forma. Todos temos dificuldade em viver com dúvidas. É muitas vezes mais confortável inventar falsas verdades e viver com as ilusões.

Mas porque não somos apenas máquinas biológicas racionais, temos também sentimentos e somos instintivamente emotivos sobre aquilo em que acreditamos. Todos temos convicções e talvez precisemos de acreditar em algo que possa estar para além do nosso conhecimento atual e da nossa experiência direta. Cada um de nós tem legitimamente direito a ter a sua visão e Carl Sagan também a tinha:
Foto da órbita de Saturno da sonda Cassini da NASA.
O pequeno ponto com a seta é o nosso planeta.
“Acredito que o nosso futuro depende do quão bem conhecemos este cosmos, no qual flutuamos, como uma partícula de pó no céu matinal”.


NOTAS:

[01] Sobre a medicina pela evidência consultar por exemplo o sítio da Cochrane 

[02] Sobre o importante efeito placebo ver artigo da Vox

[03] Sobre a homeopatia ver aqui 

[04] Sobre efeitos nefastos da cannabis, ver por exemplo na revista WorldPsychiatry 

[05] Sobre o número de insetos ver aqui

[06] Ver sobre panspermia e Fred Hoyle

[07] Ver sobre Svante Arrhenius 

[08] Ver sobre Forbiden Archeology


[10] O assunto dos OVNIS continua a preocupar os militares dos EUA. Ver por exemplo as recentes notícias relacionadas do New York Times e do Yahoo

 [11] Sobre Carl Sagan, que dispensa grandes apresentações recomendaria ver por exemplo no site do Smithsoniam e pelo menos não perder a leitura do seu livro “Um mundo infestado de demónios”, tradução portuguesa da coleção Ciência Aberta da editora Gradiva.

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