sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Dia 2 de Fevereiro, Groundhog Day - Dia da Marmota e ainda Chekov

Quando era miúdo nos anos 60, não festejávamos feriados hoje na moda, importados dos EUA. Isto foi um país muito complicado até ao 25 de Abril. Um pequeno exemplo anedótico: a Coca-Cola era proibida. Mas tudo é feito de mudança. Primeiro apareceu o Dia de São Valentim, depois veio o Dia das Bruxas e agora até há o Black Friday. Como entendo que todos os dias são Dia dos Namorados, e acreditem ou não é mesmo assim, não me importava de comemorar só o 2 de Fevereiro, o Dia da Marmota, porque é o dia do meu filme favorito. Perdoem-me os que nestas datas fazem negócio, os namoradeiros e as crianças que adoram o Halloween.

Sobre o filme “Groundhog Day” (Dia da Marmota) de 1993,  ou o “O Feitiço do Tempo” na versão portuguesa, realizado por Harold Ramis com Bill Murray no papel principal.

O tema do filme é sobre alguém, particularmente vaidoso e egoísta, que por um castigo sobrenatural acorda todos os dias de manhã, sempre no mesmo sítio, no mesmo dia do mesmo ano, a 2 de Fevereiro na pequena cidade de Punxsutawney , no estado norte americano da Pensilvânia.

Cartaz de boas vindas a Punxsutawney, nome
dado pelos Índios Delaware. Significa
 "Cidade dos Mosquitos".
Punxsutawney,  é a localidade dos Estados Unidos onde se festeja o mais famoso Dia da Marmota, uma tradição secular trazida pelos colonos europeus, com base nas festas cristãs das candeias e nas tradições ancestrais dos índios. A cada 2 de Fevereiro, uma marmota – uma espécie de esquilo gigante que hiberna, é retirada do seu abrigo, e consoante a sua reação, uma comissão formal, empossada para avaliar o seu comportamento, anuncia ritualmente a previsão para o Inverno. A previsão poderá ser ou não o prolongamento do Inverno [ver NOTA FINAL]

A marmota de Punxsutawney é a meteorologista mais famosa da América.

Bill Murray encarna a personagem de um apresentador de uma estação de televisão, Phil Connor, que detesta a celebração: detesta as pessoas daquele local e detesta as provincianas festividades do Dia da Marmota que considera absurdas. Destacado para ir a Punxsutawney relatar o anúncio da marmota, vê-se preso naquele dia, onde só para si, todos os dias quando acorda, são sempre o 2 de Fevereiro, Dia da Marmota. Phil fica prisioneiro no tempo e no espaço. Um forte nevão cortou as estradas que estão bloqueadas pela polícia e as comunicações igualmente afetadas estão reduzidas ao mínimo.

Apenas Phil Connor tem consciência da repetição. Todos os outros habitantes da pequena comunidade fazem exatamente as mesmas coisas que fizeram no “dia anterior”. Para se libertar daquele feitiço do tempo, Phil Connor tudo tenta, inclusive o suicídio, mas acaba sempre por acordar na sua cama, no pequeno hotel onde está alojado, sempre às seis da manhã, ao som de “I Got You Babe” de Sonny and Cher.

Nunca chegamos a compreender quem é responsável pela terrível maldição. Algum poder divino terá essa capacidade. O que é interessante no filme não é a origem da maldição mas o caminho interior que Phil tem de percorrer: tem de alterar o seu comportamento e, mais importante e mais difícil ainda, tem de modificar os seus sentimentos e a forma como encara os outros.

Superficialmente, um filme que parece uma comédia ligeira sem pretensões, com relativo desinteresse da crítica e do público na sua estreia, com o passar dos anos transformou-se literalmente se num filme de culto. É hoje estudado em universidades e inúmeras vezes citado.

Na fase final do filme, na sua reportagem televisiva ouvimos um Phil Connor completamente transformado dizer que:

“Quando Chekhov viu o longo inverno, viu um inverno triste e escuro, sem esperança. Mas nós sabemos que o inverno é só mais um passo no ciclo da vida, e ao estar aqui entre as pessoas de Punxsutawney, beneficiando do calor das suas lareiras e dos seus corações, não imagino melhor destino que um longo e brilhante inverno”. 

A mensagem do filme é de uma moral simples: a nossa atitude quando somos mais empáticos com os outros e menos egocêntricos, acaba por nos beneficiar. Ficamos mais positivos, melhoramos a nossa capacidade de realização, a nossa criatividade e a nossa relação social e com isso aumentamos a nossa auto estima. Mas o mais interessante do filme é como a lição é dolorosamente aprendida com o passar do tempo, gradualmente: 
É uma analogia brilhante sobre a aprendizagem dos anos e o percurso que fazemos durante a vida.

Anton Chekov, grande escritor russo, celebrizado pelos seus contos e peças de teatro, 1860-1904.

Curiosamente, a referência a Chekov, embora o inverno russo seja terrível, talvez possa não ser a mais adequada. Numa carta ao irmão [ver em inglês o texto completo da carta, aqui] que era um boémio mal comportado, Chekov assinalava as atitudes que as pessoas civilizadas deveriam ter:

Retrato de Anton Chekov, 1898,
por Osip Braz, 1873-1936.
“1. Respeitam o individual e são por isso sempre indulgentes, gentis, educados e conciliadores. Não reagem com raiva às críticas ou aos pequenos contratempos. (...); 2. A sua compaixão não se limita aos mendigos e aos gatos abandonados (...); 3. Respeitam a propriedade alheia e pagam as suas dívidas (...); 4. São sinceros e temem a mentira como a praga (...); 5. Não se menorizam com o objetivo de despertar simpatias (...); 6. Não se preocupam com coisas vãs, como quem exibe falsas joias e se vangloria de amizades com pessoas célebres (...), e 7. Se têm talento, respeitam-no. Sacrificam conforto, mulheres, vinho e vaidade a ele (...). 8. Cultivam a sua sensibilidade estética. Não dormem de noite com a roupa do dia (...).” 

E acrescentava que: “(…) não é suficiente ler os Documentos de Pickwick [romance de Dickens] e memorizar um monólogo de Fausto (...). É necessário melhorar constantemente, dia e noite. Nunca se deve deixar de ler, estudar aprofundadamente e ter força de vontade. Cada hora é preciosa (...).”

Através desta carta, ficamos com mais uma pista para melhor compreender o filme. A  “maldição” de Phil Connor foi na realidade uma benção: deu-lhe literalmente todo o tempo do mundo para mudar para melhor. Cada um de nós não tem essa possibilidade: o nosso tempo real é escasso e Chekov bem o sabia.

NOTA FINAL: como é hábito não perderei o anúncio da marmota; será às 7:25 hora local, 11:25 hora de Portugal; stream em direto aqui; ouvirei também o clássico das festas, a Pennsylvania Polka de Frank Yankovic. Será um dia divertido. Podia dar-me para pior.

Sem comentários:

Enviar um comentário